Segunda, 21 Mai 2012

Luz Canário, Opinião — Segunda-feira, 4 Agosto 2008 — 6 Comentários

TUDO À MOLHADA E FÉ EM DEUS

Benditos os meios de comunicação quando são usados para divulgar as coisas maravilhosas que se fazem neste país! Benditos sejam por mostrarem, de uma forma bem visível, os problemas sociais que existem, há já uns anos, mas que ninguém, com poderes, quer resolver!
Depois vêm dizer que os órgãos de comunicação empolgam os acontecimentos. Em relação a alguns não empolgam, mostram apenas uma centelha da realidade.
Quem trabalha há mais de vinte anos, com responsabilidade e maturidade, sabe muito bem que há muitos conflitos nos bairros sociais, e alguns podiam ser evitados ou resolvidos antes de se chegar a tanto ódio e violência, sobretudo entre os adolescentes e jovens.
Mas as pessoas que trabalham no terreno, que ouvem, vêem os problemas, e até apanham por causa das tensões, são umas, e as que estão nos gabinetes a decretar o local e tamanho dos bairros, e que pessoas é que se devem lá “enfiar”, são outras.
Nós já verificámos que tirar certas famílias, que vivem em condições miseráveis nas suas aldeias, junto de familiares que as viram nascer e crescer, e colocá-las em bairros, com casas novas e bonitas, mas junto de pessoas desconhecidas, não resulta. É muito mais eficaz se continuarem no seu meio, as ajudarem a reconstruir o seu casebre e lhes derem apoio a nível de educação, higiene e trabalho. Sentem-se mais protegidas e menos marginalizadas.
Colocar demasiadas pessoas com estratos socio-económicos e culturais diferentes num grande bairro é muito conflituoso. Mas construir pequenos bairros, numa mesma terra ou freguesia, formados só por pessoas da mesma cultura, e organizar projectos em que se promova a interculturalidade é possível. Técnicas do Serviço Social, Animadores Culturais, Professores, Sacerdotes e Pastores podem trabalhar com cada cultura, valorizá-la e promover encontros desportivos, religiosos e organizar festas onde cada um mostre a sua arte e o que mais a caracteriza.
A interculturalidade é lenta e tem de começar por aquilo que é mais atractivo e que mais une: desporto, música, dança e religião.
Colocar pessoas de diferentes culturas num mesmo prédio ou num mesmo bairro pequeno, de preferência onde more também o presidente da Junta, ou presidente da Câmara, ou governador civil, ou deputado, ou ministro, é muito positivo. Não é cinismo, é mesmo eficaz. Há muito mais respeito e segurança. As autoridades fazem parte da interculturalidade que defendem e pela qual muitos de nós lutam por concretizar.
É verdade que a interculturalidade enriquece muito as pessoas envolvidas se for bem orientada, bem explorada e vivida. Antes de nos lançarmos no trabalho com bairros sociais fomos fazer um pequeno estágio ao Bairro S. João de Deus no Porto. Meu Deus, aquilo era um mundo completamente fora do nosso!
Trabalhávamos numa Instituição que se ocupava de crianças, adolescentes e idosos. Tínhamos uns altos muros para proteger quem estava lá dentro e à porta estava sempre um Polícia. Ao entrarmos ou sairmos dali era frequente os jovens baterem nas crianças, professoras ou freiras. Era demasiada gente, impossível de educar e controlar, mesmo pela própria Polícia.
No meio onde trabalhamos há mais de vinte anos tem sido possível obter resultados muito satisfatórios. Tivemos mediador cultural, o que foi muito importante. A Escola era o elo de união entre as Comunidades, Câmara, Junta, Polícia e Igrejas. Todos os pais estavam envolvidos e minimamente presentes.
Nos desportos, sem dúvida que os garotos de rua, ciganos ou não, eram os melhores. Os mediadores ensinaram a todas as crianças danças ciganas e de Capoeira. Os orientadores de um grupo de folclore ensinaram a todas as crianças danças folclóricas. Depois havia as festas onde todos trabalhavam, cantavam e dançavam. Quem estava de fora não distinguia quem era quem.
Temos aprendido bastante em relação aos valores que os ciganos defendem no que diz respeito às crianças e idosos. Eles também aprendem connosco no que diz respeito ao mundo laboral, o seu maior problema.
É evidente que os patrões da droga e das armas escolhem as pessoas mais fragilizadas e marginalizadas dos bairros para distribuírem as mercadorias. Eles são os piões que “dão o corpo ao manifesto”, que são apanhados e presos.001.jpg
Mas, se os bairros forem mais pequenos e formados por poucas pessoas da mesma cultura ou etnia, é muito mais fácil conseguir-se o controle e fazer-se a erradicação do mal.

Luz Canário

6 Comentários

  1. Voz do Seven diz:

    Num geral gostei do artigo só que termina dizendo que “Mas se os bairros forem mais pequenos e formados por poucas pessoas da mesma cultura ou etnia é muito mais fácil conseguir-se o controle…”.
    Peço desculpa, mas com esta medida não estaríamos a criar guetos? Não é uma atitude perigosa para além de dar ares discriminatórios? Guetos de ciganos, de africanos… guetos de eslavos, de romenos e um dia por este andar não poderíamos estar a criar algo parecido com os guetos de judeus de triste memória?
    http://vozdoseven2.weblog.com.pt/

  2. Luz Canário diz:

    SR SEVEN,
    DESCULPE SÓ AGORA RESPONDER AO SEU COMENTÁRIO, MAS ESTIVE FORA E NÃO TIVE ACESSO AO CORREIO ELECTRÓNICO.
    COMEÇO POR LHE AGRADECER A SUA OPINIÃO, PORQUE TODAS AS QUE FOREM CONSTRUTIVAS SÓ SERVIRÃO PARA ENRIQUECER QUEM AS LÊ.
    CONCORDO COM O QUE DIZ, MAS O MEU ARTIGO FOI ESCRITO COM BASE EM REALIDADES VIVIDAS, EXPERIMENTADAS, DURANTE MAIS DE DUAS DÉCADAS, COM A ETNIA CIGANA. NA MINHA OPINIÃO, ELA É A MAIS DIFÍCIL DE INTEGRAR DEVIDO À SUA CULTURA E DEFESA DOS SEUS VALORES PELOS PATRIARCAS.
    NA CIDADE ONDE VIVO FOI CONSTRUÍDO, MESMO NO CENTRO DA MESMA, UM PRÉDIO, HÁ MAIS DE 25 ANOS, ONDE FORAM COLOCADAS PESSOAS DE DIVERSAS CULTURAS E ESTRATOS SOCIO-ECONÓMICOS DESFAVORÁVEIS, ENTRE ELAS PESSOAS CIGANAS, QUE JÁ CÁ VIVIAM HÁ MUITO TEMPO, EM BARRACAS. MAS JÁ ESTAVAM INSERIDAS A NÍVEL DE TRABALHO.
    POSTERIORMENTE FORAM CONSTRUÍDOS DOIS BAIRROS, EM FREGUESIAS DIFERENTES, MAS PRÓXIMAS DA CIDADE, ONDE FORAM COLOCADOS CIGANOS. OS DOIS BAIRROS TÊM EVOLUÍDO DE FORMA MUITO DIFERENTE. O TRABALHO DA ESCOLA, DAS TÉCNICAS, DAS IGREJAS TAMBÉM É DIFERENTE. A PRÓPRIA POSTURA DOS PATRIARCAS É DIFERENTE. E ISSO É MUITO BOM PORQUE A COMUNIDADE MAIS EVOLUÍDA “PUXA” PELA MENOS EVOLUÍDA. ISSO NÃO SERIA POSSÍVEL SE ESTIVESSEM TODOS JUNTOS. ERA MUITO MAIS DIFÍCIL AOS PATRIARCAS IMPOREM AS SUAS REGRAs E PRINCÍPIOS, E ERA MUITO MAIS DIFÍCIL PARA NÓS DIALOGARMOS COM ELES. DEFENDO A CONSTRUÇÃO DE BAIRROS PEQUENOS, BEM APOIADOS, E FORMADOS POR PESSOAS DE TODAS AS CULTURAS, MAS ESTE PROCESSO TAMBÉM ESTÁ A RESULTAR E HÁ BOA VIZINHANÇA, PORQUE OS PEQUENOS BAIRROS ESTÃO INSERIDOS NO MEIO DO POVO NÃO CIGANO.
    TEM CORRIDO TUDO MUITO BEM.

  3. jose fernandes diz:

    De acordo seven, aliás esta senhora tem umas ideias bastante retrógradas, para não dizer outra coisa.

  4. luz canário diz:

    Sr José Fernandes
    Todas as opiniões que defendo são baseadas numa experiência de vida intensa.Trabalho muito, mas não consigo responder a todas as solicitações que me fazem, quer como educadora,formadora ou no apoio que dou a diversas instituições. Não sou nada perfeita, mas tenho tido bastante sucesso com os meus métodos.
    Sou uma pessoa sempre pronta a aprender com quem souber mais e melhor. Se tem opiniões diferentes, baseadas naquilo que FAZ NA VIDA, por favor, partilhe com os muitos leitores do FAROL. Só da troca de opiniões é que poderemos crescer e enriquecermo-nos.
    Mas uma observação: se acha que tenho “umas ideias muito retrógradas para não dizer outra coisa” por que me lê?

  5. Luís Vaz diz:

    Parabéns a Luz Canário, que bem os merece. Os comentários do “contra” soam-me a “dor de cotovelo” ou “carapuça enfiada”. Realmente, conforme respondeu ao Sr. J. Fernandes, deve-se justificar a crítica que se faz com algo que nos esclareça por que é feita, rebatendo o que foi dito com argumentação consentânea.
    Luz Canário, continue a falar com a sua experiência de vida, porque percebe-se que tem muito de são para partilhar connosco. Pela minha parte, fico grato por isso.

  6. Luz Canário diz:

    Obrigada, sr Luís Vaz, pelo estímulo. Estou habituada a críticas e até gosto porque é da troca de opiniões que vamos aprendendo, tal como defendo. O meu mundo é no meio de classes populares com muitos problemas e desde 1991 que sou orientadora de jovens, sem interrupção. Sou a sua maior ouvinte, amiga e crítica. Mas eles também não me deixam “passar” nada. Somos exigentes, responsáveis, trabalhadores, mas tolerantes. Faço TUDO o que posso mas não passo a mão por cima da cabeça de ninguém. A vida no terreno é muito diferente dos nossos ideais e daquilo que os idiotas pregam. Vejo muita gente com opiniões mas muito, muito, muito pouca no terreno.

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