Tradição — Sábado, 13 Fevereiro 2010 — 1 Comentário
Revivida no concelho de Carregal do Sal a tradição da Queima da Comadre e do Compadre
Tradição centenária que a ARCA – Associação Recreativa e Cultural de Alvarelhos abraçou e mantém viva, a “Queima da Comadre e do Compadre”, única na região e com parecença em poucos locais do nosso país, foi revivida ontem, 12 de Fevereiro, naquela povoação do concelho de Carregal do Sal, obtendo êxito assinalável.
Constituindo um cartaz inédito que atrai muitos forasteiros, a iniciativa voltou a registar numerosa adesão de populares, apesar do frio cortante da noite.
Ainda antes do começo do tradicional julgamento e do cantar das deixas, o ambiente festivo ganhou expressão com uma arruada do grupo de bombos “Os Viriatos”, de Cabanas de Viriato, e com a parte inicial do Baile da Comadre, também este ano animado popular organista Nuno Filipe.
O desenrolar da tradição teve início cerca das 22h00, no salão de festas da ARCA, completamente cheio e com gente apinhada à entrada do mesmo, principiando com a habitual cena do julgamento da comadre e do compadre, parodiada, em segundo ano consecutivo, pelo grupo de teatro “Mãos à Obra!”, do Núcleo Juvenil de Animação Cultural de Oliveirinha (NACO). Se no ano passado a iniciativa melhorou significativamente com a prestação deste grupo, desta vez essa melhoria acentuou-se ainda mais, primando os actores na paródia que interpretaram.
Nessa paródia, o compadre descobriu que a mulher (comadre) o andou a trair e isso inverteu-se depois, descobrindo a comadre que o marido (compadre) também a traiu, consoante iam entrando em cena as e os amantes. O juiz (antigo amante da comadre) foi chamado para resolver a contenda, decidindo-se o mesmo pela condenação do casal, por má conduta, ditando que os dois teriam de ser queimados no Largo das Cruzes, em praça pública, à maneira medieval.
Antes do cumprimento da condenação, houve lugar à atribuição dos bens deixados pela comadre e pelo compadre, através do “cantar das deixas”, elaboradas em 48 quadras por rapazes e raparigas da povoação e cantadas pelos actores do “Mãos à Obra!“, com acompanhamento musical do organista Nuno Filipe. A “herança” foi repartida, dessa forma, por solteiros a partir dos 15 anos de idade, contemplando 22 raparigas e 22 rapazes. A paródia resultou perfeitamente, quer na parte teatral (julgamento) quer na parte cantada (deixas), gerando grande entusiasmo entre a assistência e colhendo dela muitos e merecidos aplausos.
Seguiu-se o transporte dos andores com os bonecos que simbolizavam a comadre e o compadre, até ao Largo das Cruzes, enquanto o grupo de bombos se exibia naquele largo. Chegados ali, os bonecos foram colocados em mastros individuais, armadilhados de rastilhos e bombas. Uma descarga de fogo de artifício preso, em redor dos mastros, realçou ainda mais o efeito pirotécnico deste ritual. Ateados os rastilhos, os bonecos descreveram, finalmente, um rodopio alternado até serem destruídos estrondosamente pelas bombas e consumidos pelo fogo.
Consumada a queima, deu-se continuidade à festa no salão da ARCA, incluindo o anúncio das novas comadres e dos novos compadres, e o “baile da comadre” prolongou-se pela noite dentro.
Em termos culturais, esta tradição popular, passada de geração em geração, saiu enriquecida com a participação do “Mãos à Obra!”, já bem merecedora de registo televisivo. Comparando-a a algumas reportagens de cariz carnavalesco, esta Queima da Comadre e do Compadre superou, de longe, isso que a televisão mostrou.
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A notícia traduz o que se passou. O nosso bem-haja. Pena é que algumas entidades não reconheçam o valor destas tradições locais que poderão perder-se irremediavelmante.