Farol da Nossa Terra – Póvoa de Midões festejou o dia de Santa Eufémia com uma devoção impressionante
quinta-feira, 20 julho 2017

Festas — Sábado, 18 Setembro 2010 — 5 Comentários

Póvoa de Midões festejou o dia de Santa Eufémia com uma devoção impressionante

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Foi a contratação da Banda da Sociedade Filarmónica de São João de Areias, instituição de que me orgulho ser presidente da Assembleia Geral, que me fez este ano romeiro, pela primeira vez, da festa religiosa de Póvoa de Midões em honra de Santa Eufémia, protectora das doenças da pele, muito adorada e venerada em Portugal e também noutros países, principalmente em Espanha, Itália e Croácia, este o país onde o seu corpo se encontra preservado.

De há muito que eram de meu conhecimento as caminhadas, a 16 de Setembro, em peregrinação até à airosa Póvoa de Midões, freguesia do concelho de Tábua, mas nunca me vi movido a inteirar-me de que modo a devoção à virgem e mártir Santa Eufémia atrai ali tanta gente, não sendo até a padroeira daquela paróquia, cujo orago maior é Nossa Senhora da Graça, na sua Igreja Matriz.

No caminho que me levou de Carregal do Sal à Póvoa de Midões passei por alguns grupos de caminhantes e logo imaginei que noutros acessos ao santuário de Santa Eufémia o mesmo se verificaria. Com efeito, muita gente afluía ao longo da comprida avenida que passa ao lado do santuário e já neste era grande a multidão de fiéis concentrados em redor do altar da missa solene campal.

De um lado do corredor liberto a toda a largura do improvisado altar, instalado à entrada da capela, estavam expostos os cinco andores, maravilhosamente enfeitados, que se haveriam de juntar, no final da Santa Eucaristia, em procissão, ao andor com a imagem de Santa Eufémia, que até aí permaneceu junto ao altar, em posição sobranceira, envolta num manto faustoso e cintilante. Do outro lado, a Banda Filarmónica, dirigida pelo maestro Pedro Carvalho, entoava admiravelmente os trechos da missa cantada.

Movimentando-me por entre a multidão, pude ouvir comentários de admiração em relação à quantidade de romeiros, à cuidada ornamentação dos andores e à brilhante prestação da Banda. Enquanto isso, as atenções fixavam-se no sacerdote que presidia a celebração eucarística, coadjuvado pelo seminarista Rodolfo Albuquerque e por um aspirante à vida religiosa. Numa adequada homilia, Pe. João Fernandes Dias, pároco da própria freguesia, falou de Santa Eufémia como “exemplo de vida para todos nós” e do modo como deu a vida por Cristo e manteve intacta a sua decisão de nunca trair a Deus.

Diz-nos a historiografia que Santa Eufémia, fiel à sua fé, era um exemplo de virtude e beleza junto dos habitantes. Recusou casar com um herói da Calcedónia, cidade onde nasceu, acabando por ser torturada de maneira cruel, somente com 15 anos de idade, e entregue aos leões, que acabaram de a matar. Era, então, o dia 16 de Setembro do ano 304 dC.

Sendo dia semana, portanto, dia de trabalho para os mais velhos e de aulas para os mais novos, teve de haver muita boa vontade e especial consideração para que a Banda Filarmónica aceitasse este compromisso e se apresentasse com 55 músicos. Em intervenção apenas com essa finalidade, num reconhecimento público, Ângelo Oliveira, presidente da Junta de Freguesia, mas na qualidade de membro da Fábrica Igreja, organizadora destes festejos, dirigiu palavras de agradecimento à Banda, ao maestro e à Direcção da Filarmónica, lembrando que no início não foi fácil conseguir o sim, e realçou o facto de muitos jovens músicos terem faltado às aulas e outros terem deixado o seu trabalho, rematando: “É uma honra enorme para todos nós a vossa presença”.

Obviamente que mais cresceu a admiração daquela multidão para com a Banda Filarmónica e mais expectativas se criaram quanto à sua prestação na Procissão. Imponente na beleza dos andores com as imagens de Nossa Senhora da Graça, Santo Antão, Santo António, São Sebastião, Nossa Senhora de Fátima e Santa Eufémia, na sumptuosidade do Pálio que abrigava o aspirante religioso Alfredo Fernandes, substituto do pároco por motivos de saúde, e na extensão, a perder de vista, das filas de fiéis, a Procissão percorreu, em trajecto circular, as ruas do principal aglomerado urbano da povoação. Num garbo que atraía todas as atenções, a Banda Filarmónica emprestou à Procissão um abrilhantamento à altura das suas tradições e da sua grandiosidade, ao mesmo tempo que muita gente expressava o seu testemunho de fé e devoção lançando flores das janelas e varandas adornadas, numa sucessão impressionante, de lindas e festivas colchas. O povo correspondia, assim, à constada predilecção da mártir Santa Eufémia por flores.

Num apelo aos milagres da Santa, muitas pessoas em visível estado de sofrimento caminhavam junto ao seu andor, empunhando, conforme as promessas, velas da sua altura ou mãos e pés de cera, que depois haveriam de ser consumidos no queimador de velas, já antes incessantemente procurado. Outras juntavam as suas dádivas em dinheiro às notas exibidas numa bandeira com a imagem de Santa Eufémia, sendo talvez esta uma forma encontrada de tornear as directivas da Igreja no sentido de erradicar o espectáculo de imagens de santos cobertas de notas, que era uma tradição de pagamento de promessas tão ao gosto das pessoas modestas e humildes. O transporte à cabeça das ofertas para leilão, pelas próprias ofertantes, ajudava a embelezar o aspecto da procissão, mantendo uma tradição de que não encontrei igual no grande número de procissões que já acompanhei.

No regresso ao santuário, a Procissão deu uma volta à capela, onde os andores iam sendo recolhidos. Enquanto isso, a Banda Filarmónica tomou conta do corredor livre frente ao altar improvisado, dando continuidade ao abrilhantamento musical. Nos agradecimentos feitos aquando da bênção final, o pároco dirigiu-os primeiro à Banda Filarmónica, salientando o facto de serem “muito jovens e afinados” e manifestando-se “muito agradecido pelo testemunho deles e pelo seu bonito contributo à nossa festa”. Felicitou ainda a Direcção da Filarmónica como “exemplar condutor de futuros homens e mulheres”. Impondo-se, e de todo merecidos, os seus agradecimentos foram, depois, dirigidos a todas as pessoas que colaboraram na organização da festa, às que têm participado nos serviços da Paróquia e ao povo que contribuiu no peditório de porta em porta, sublinhando a este respeito: “Toda a gente nos atendeu bem”.

Chegou a hora do almoço e com ele um intervalo nos festejos, aumentando o movimento na barraca de comidas e bebidas anexa ao santuário, em redor do qual se instalaram a quermesse, as barracas de farturas e as bancas de feirantes. A meio da tarde, a Banda Filarmónica completou a sua participação nos festejos com um concerto no coreto do adro da capela, intervalado com o tradicional leilão de ofertas. Mesmo sem os músicos que já não cabiam no coreto, a Banda rubricou um concerto de muito nível, enchendo-me mais uma vez de orgulho ao ouvir os elogiosos comentários que se sucediam entre a assistência, e que alguns até trocavam comigo, sem imaginarem a minha ligação aos órgãos directivos da Filarmónica, fazendo-o somente pela visibilidade que a minha cobertura do acontecimento gerava, talvez induzindo-me a não deixar passar a actuação da Banda sem o elogio merecido.

Mas os festejos em honra de Santa Eufémia não se resumem apenas ao que acabei de relatar. Este ano, como novidade, conheceram outro momento de grande espiritualidade e fervor religioso com a Celebração da Luz na noite de quarta-feira, dia 15, agora realizada pela primeira vez “para dar o destaque que o santuário merece”, segundo justificação de uma responsável da Fábrica da Igreja. “Foi tão lindo!… Que pena não ter vindo cá ontem à noite!” – comentou a mesma, por sinal, mãe do seminarista Rodolfo Albuquerque.

Ainda na quarta-feira, o resto da noite foi animado pelo agrupamento musical Aires Silva, de Tábua. Também na noite quinta-feira houve animação musical, dessa vez pelo popular acordeonista Miguel Agostinho, de Castelo Branco. Os arraiais nocturnos findaram ontem (sexta-feira) com a actuação do tabuense Patrick Karaoke. O fogo-de-artifício é outro aspecto que merece realce, bem como o embelezamento das ruas por onde a procissão passou.

Fiquei com vontade de me repetir como romeiro da festa de Póvoa de Midões em honra de Santa Eufémia e mais certo isso se tornará, como é óbvio, se a preferência voltar a ser dada à Banda Filarmónica de São João de Areias.

Lino F. Dias

5 Comentários

  1. José Angelo Oliveira diz:

    Muito Obrigado pela publicação no v/ site. Está aqui uma grande e bem feita divulgação.

  2. lino diz:

    Obrigado, Sr. Ângelo, pelas suas gentis palavras.
    Escreveu-se o que foi merecido. Faça o favor de divulgar aos seus conterrâneos e fregueses. Quando quiser publicar notícias da sua freguesia e do concelho de Tábua neste blog, tem-no à disposição.
    Um abraço

  3. Luis Teles diz:

    Quando era pequeno lembro-me as pessoas irem a pé Oliveira do conde atravessando o rio na “barca”.
    Nos dias de feira de Carregal e Carvalhais era também utilizado este caminho.
    Seria interessante recuperar o trilho.

    Luis Teles

  4. Nuno Miguel Jorge Fernandes diz:

    Andava a ver a terra da minha família e encontrei esta pagina fiquei muito feliz pois já se devia ter posto muito antes mas nunca é tarde e fiquei mais feliz encontra uma das fotos com o nº 16 a minha tia avó e a outra senhora que esta na mesma foto em casa dela mandar flores ao andor da Santa Eufémia.
    É uma grande festa pena que a muito tempo não tenho podido ir mas me dói muito quando chega a Setembro e saber que mais um ano que passa e não posso la estar, pois é a terra de onde eu sonho morar um dia e fazer vida eu amo de mais essa terra Povoa de Midões.

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