MÉTRICAS À ESCOLHA

HÉLIO BERNARDO LOPES *

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Os mais atentos ao que corre pela nossa vida político-partidária lembrar-se-ão que os nossos bispos, ao tempo da anterior eleição para a Assembleia da República, sobretudo pelas permanentes intervenções de D. Jorge Ortiga, pediam que fosse fornecido aos eleitores um retrato fiel do estado do País, de molde a que a escolha se fizesse sobre uma realidade conhecida e de um modo consciente.

Nunca duvidei, como pude então escrever, que tudo não passava de um modo encapotado de apoiar partidariamente a oposição que seria a alternância esperada ao PS de José Sócrates, para mais quando aquela se reivindicava de uma intervenção neoliberal e empobrecedora dos portugueses, tal como se pode já hoje ver à saciedade.

Pois, aí está agora a completa ausência dessa exigência ao caso Madeira, para mais quando já se percebeu que o Primeiro-Ministro, perante a impossibilidade de vir expor a realidade e as suas consequências – terríveis, claro…–, chega ao ponto de reconhecer publicamente que falou de modo demasiado. Bom, caro leitor, a aflição é total…

Mas lá nos surgiu hoje um dos nossos bispos, desta vez D. Januário Torgal Ferreira, mas para pedir diálogo… Mas diálogo com que parceiros? Bom, entre o Governo e as autoridades policiais, mais que cheias de razão, e relativamente a quem, mais uma vez, este Governo tenta colocar como Kilas do problema… José Sócrates e o seu Governo. Uma treta política que facilmente se percebe.

No fundo, D. Januário Torgal Ferreira ainda se recorda bem, tal como o Presidente Cavaco Silva, daquele histórico e inesquecível dia dos polícias contra polícias, também conhecido como o da batalha entre secos e molhados, à porta do ministério de Silveira Godinho – inesquecível político português da III República –, temendo, pois, uma réplica, com as imprevisíveis consequências que todos depois pudemos ver.

Seria melhor que os nossos bispos se inteirassem, ao vivo, da situação que, ao que foi ontem noticiado, terá lugar no estabelecimento prisional do Montijo, ponderando a solução encontrada, e nos Estados Unidos, pelo Supremo Tribunal Federal para o caso dos condenados da Califórnia: por cinco votos contra quatro, decidiram pôr em liberdade, por razões inerentes à defesa da dignidade humana (dos condenados), quarenta e oito mil deles.

Recordando uma frase de Felicidade Alves, a nossa Igreja Católica tem que ter a coragem, isso sim, é de falar claro, porque hoje, como há uns anos disse António Marinho e Pinto, ao tempo de José Miguel Júdice como Bastonário, cometem-se atropelos por vezes bem maiores que os praticados no tempo da ditadura. Hoje, sim, com a anestesia (dita) democrática, é que é complicado defender a dignidade humana. E se naquele tempo o enorme grosso da nossa Igreja Católica apoiava o regime constitucional da II República, hoje é muitíssimo mais difícil lutar contra a realidade que, há dias, nos contou Alessio Rastani. É preciso que os nossos bispos tenham coragem e falem claro. porque se também eles falharem, quem é que desfalhará?

* Antigo professor e membro do Conselho Científico da Escola Superior da Polícia

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