A ENTREVISTA DE MÁRIO SOARES

HÉLIO BERNARDO LOPES *

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Tive há dias a oportunidade de acompanhar a mais recente entrevista concedida por Mário Soares, desta vez à TVI 24, na pessoa de Henrique Garcia e no novo programa, Terreiro do Paço. E o que aqui posso dizer de tal entrevista resume-se numa palavra: deceção. É verdade: uma completa deceção, que, de resto, já esperava, tendo em conta as suas mais recentes intervenções.

Falou, naturalmente, do atual Governo e do anterior, onde até conseguiu ser esclarecedor, embora de um modo quase implícito, ao referir o que eu escrevi quando o histórico PEC IV foi rejeitado: nunca se havia esperado que José Sócrates conseguisse o apoio financeiro de que o País precisava, mas sem ter de recorrer a este modo de ajuda financeira.

E foi essa vitória do anterior Primeiro-Ministro que fez voltar o PSD de Pedro Passos Coelho contra a conquista que, inesperadamente, Sócrates havia conseguido. O resultado está hoje à vista: o completo dito por não dito por parte dos governantes atuais, com o terrível preço que hoje os portugueses estão a pagar e que assim continuarão a fazê-lo através de um futuro que já todos perceberam ser longuíssimo.

Por via deste discurso, Mário Soares lá voltou à sua: a Troika não deve mandar em nós, dizendo o que devemos fazer, nem os mercados devem subordinar os Estados aos seus interesses. Ora, isto só é assim porque o sistema financeiro internacional é como os políticos do Mundo, e desde há muito, o colocaram em funcionamento. E eu recordo bem as mil e uma loas que o nosso antigo Presidente da República tecia ao mercado, como se ele fosse a coisa suprema do tempo de então. Bom, nunca foi, tendo eu mesmo percebido que o mercado era o que se podia ver facilmente: o regresso do liberalismo.

Mário Soares tinha a obrigação de perceber que o fim do comunismo sempre acabaria por trazer o Mundo para o outro lado. Uma realidade que era já evidente ao início da década de noventa do passado século, com o crescimento rápido da oligarquia de interesses que hoje manda, de facto, no Mundo e nos seus povos.

Também recordo, até muito bem, a permanente exigência de Mário Soares, no sentido de que a globalização fosse moderada e controlada, sem, ao menos aparentemente, conseguir perceber que tal se constituiria sempre na impossibilidade que, desde então, se tem vindo a ver. Fica-me a sensação de que Mário Soares pensará que o crescimento de uma comunidade humana, passando de local a nacional, de nacional a europeia e desta a mundial é susceptível de ser coordenada como a primeira.

Se Mário Soares se der ao trabalho de procurar uma intervenção já muito antiga de Paulo VI nas Nações Unidas, nela verá o alerta desse Papa para os riscos humanos e sociais inerentes às grandes cidades. Simplesmente, ao ouvirmos agora Mário Soares – já desde há muito – fica-nos a sensação de que, grande ou pequeno, há sempre a possibilidade de controlar uma comunidade humana à luz dos valores em que continua a acreditar. Ora, isso não é verdade nem possível.

Um outro tema de que falou na entrevista foi o das nomeações, que tanta reação já provocaram. Simplesmente, também foi pouco longe no tema, para lá de continuar a elogiar a seriedade de Pedro Passos Coelho, o que não deixa de ser um pouco sem nexo, dado que ninguém anda por aí a dizer o contrário, nem isso resolve coisa alguma.

E também não deixou de ser estranho o seu comentário sobre a ausência de cortes no Banco de Portugal, referindo conhecer bem Carlos Costa e salientando o facto deste ser uma pessoa honestíssima. O problema não está aí, porque ninguém disse o contrário, mas no facto dos funcionários daquela estrutura não contribuírem solidariamente para o esforça que está a ser pedido aos restantes funcionários públicos e aos mais sacrificados. Enfim, fantásticas confusões.

Um outro tema abordado por Mário Soares foi o caso da Maçonaria. Ora, neste domínio disse muito do que eu mesmo havia já referido há dias, mas fê-lo de um modo que me pareceu menos elegante, diminuindo o valor da Maçonaria e até com um tom jocoso sobre tal tema, de que uns dias antes havia referido estar démodé. Mas porquê achar estranhos todos aqueles rituais, sem que pronuncie uma só palavra sobre a autoflagelação ou a utilização de cilícios pelos membros da Opus Dei? E porquê tanto medo dos nossos jornalistas em tratarem as coisas pelos nomes?!

A este propósito, lá acabou por tocar na necessidade de se ser membro da União Nacional para se poder ascender na vida pública, o que nunca correspondeu à realidade. A este propósito cito alguns dos mil e um nomes de portugueses que chegaram ao topo das respectivas carreiras e nunca foram da União Nacional: Sebastião e Silva, Mira Fernandes, António Ferreira de Macedo, Carlos Almaça, António Almeida Costa, Fernando Veiga de Oliveira, José Pinto Peixoto, José Francisco Vitorino Gomes Ferreira, Carlos Torre de Assunção, Tiago de Oliveira, Fernando Bragança Gil, Armando Dukla Soares, Egas Moniz, Juvenal Esteves, Orlando Ribeiro, Lindley Cintra, Jacinto Prado Coelho, Vitorino Nemésio, Jacinto Nunes, Bento Murteira, Pereira de Mora, Décio Thadeu, Luís Aires-Barros, Fraústo da Silva, Jorge Calado, José Veiga Simão, para lá de quase todos os restantes das nossas academias. Pelo contrário, David Lopes Gagean, por ser um homem do regime da Constituição de 1933 é que teve problemas com Fernando Veiga de Oliveira.

Em contrapartida, Silva Pais, Homero de Matos, Agostinho Lourenço, Silva Graça, Braancamp Sobral, e muitos outros, militares profundamente ligados ao regime, nunca chegaram a oficiais-generais. Até Costa Gomes, mau grado que se passou em torno do falhado golpe Botelho Moniz – mais uma iniciativa abortada…–, não deixou de prosseguir a sua carreira militar, acabando por desempenhar alguns do maus altos lugares do Exército e das nossas Forças Armadas.

Infelizmente, Mário Soares, procurando manter uma coerência inútil, lá continua a defender a União Europeia e o seu euro, cada dia pior, sem querer dar o braço a torcer, reconhecendo o carácter antinatural, e até antidemocrático, da União Europeia que se construiu e que é hoje uma entidade que só vive, como usa dizer-se, por estar ligada à máquina. Soares recusa assumir que a generalidade dos povos europeus, para lá de nunca terem sido consultados, já hoje não querem continuar na tal jangada que, como há tempo atrás referiu Dominique Strauss-Kahn em Pequim, está prestes a afundar-se.

Claro está, e como se torna evidente, que Portugal não se sumirá pelo chão, mas não poderá nunca ser um espaço de grande futuro para os que aqui continuarem. Olhando o que hoje se passa em Portugal, e com um ínfimo de perspetiva do que poderá esperar-se no futuro, este nunca poderá trazer paz e prosperidade a quem por aqui venha a ficar.

Finalmente, uma realidade que, mau grado ser dolorosa e desagradável, foi a única verdadeira novidade desta entrevista: ficámos por ela a saber, já mesmo ao final, do falecimento de Manuel Fraga Iribarne. Ficámos, pois, mais pobres e sem um histórico Amigo. Até por ser galego.

* Antigo professor e membro do Conselho Científico da Escola Superior da Polícia

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