Salvador Massano Cardoso — Domingo, 29 Janeiro 2012 — 0 Comentários
São Sebastião
SALVADOR MASSANO CARDOSO *
Tarde de domingo de inverno. Um sol infantil diverte-se convidando os desejosos de calor a espraiarem-se debaixo dos seus raios. Não lhe respondi, tinha de ir a um funeral. Na estrada secundária observei um movimento inusitado para aquele lado meio deserto. O que é que estará a acontecer? Ao fim de meia centena de metros observo uma mancha escura e silenciosa a invadir a estrada. Estacionei o mais possível à direita para deixar passar uma estranha procissão. Para a terriola era muita gente, de idade a maioria, vestidos de escuro, com uma ou outra criança com ar divertido e um casal de namorados que, indiferentes ao momento, iam manifestando ternura amorosa. Os devotos iam ao molhe, sem ordem, até pareciam uma coorte romana a ir para a batalha. As suas faces eram dignas de fazerem parte dos quadros da Paula Rego. Ainda procurei sinais de alguma devoção, mas, sinceramente, não consegui vislumbrar, pelos menos nos que foram alvo da minha atenção. Senti que nos tempos do paganismo hordas semelhantes deveriam ter os mesmos comportamentos e expressões. Tudo se mantém igual. As mesmas pessoas, os mesmos rituais e o mesmo sol. Além da bandeira empunhada por um “irmão” vestido de vermelho, três andores ornamentados de flores chamaram-me a atenção. O primeiro, um sagrado coração de Jesus, pequeno, de braços abertos, ia visivelmente aflito, tomara, passo sim passo não ameaçava tombar para o lado esquerdo, não por sua culpa, mas devido a dois voluntários perfeitamente desemparelhados. O do meio transportava um santo ainda mais pequeno, tão pequeno que só quando passou por mim é que vi que era um santo António, meio afogado no meio das flores, mas sempre com um ar divertido. Por fim, airosa e triunfalmente, apareceu o terceiro andor com o são Sebastião, de maiores dimensões, belo, expondo ao sol o seu peito nu cravado por três setas, as quais não lhe deveriam provocar nenhum desconforto, a ver pela face serena. Uma procissão entre muitas outras que deverão ter-se realizado nesta altura do ano em que se comemora o seu dia. São Sebastião padroeiro da peste e das doenças infeciosas. Talvez seja esta a razão, peste, que atormentou as populações, a base de um culto processionário que ainda corre em muitas povoações do país. Mas, ao olhar para a serenidade e a beleza do santo, lembrei-me de imediato de dois escritores, Oscar Wilde e Yukio Mishima. Este último, por numa das suas obras fazer uma impressionante descrição homoerótica que nunca mais esqueci a propósito do sacrifício sofrido pelo oficial romano. Quanto ao primeiro, Wilde, também homossexual, após um período de prisão “por práticas contrárias à natureza”, converteu-se ao catolicismo adotando o pseudónimo de Sebastião. Não pude deixar de sorrir. A Igreja Católica, adversa a certas práticas, entre as quais a homossexualidade, homenageia um santo que é o “patrono dos homossexuais”. A multidão, na sua fé e respeitadora de velhas tradições, transportou-o hoje da sua capela para o único banho de sol que pode apanhar ao longo do ano. Quase que me apeteceria dizer que, debaixo de quentes e suaves raios de sol, vi que algo de estranho se estaria a desenvolver debaixo daquele peito nu, uma certa volúpia, decerto, a prenunciar futuras tradições…
* Professor catedrático de Epidemiologia e Medicina Preventiva – Universidade de Coimbra
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