Carlos Peixeira Marques
Há 170 anos, o quotidiano da vida pública do concelho do Carregal era marcado pela violência. Em 1842 o administrador do concelho, António d’Albuquerque Pais da Cunha, mandou um destacamento militar para Beijós, para proteger o vigário encomendado que não era do agrado da população, tendo o destacamento usado de força excessiva contra várias “casas”, nomeadamente da família Coelho de Moura. A ocupação militar só terminaria depois do regedor da freguesia ter conseguido negociar directamente com o Governo Civil, sem o conhecimento do administrador do concelho. Ao mesmo tempo, ocorreram um conjunto de assassinatos por todo o concelho, muitos deles decorrentes de ajustes de contas das lutas liberais.
Este contexto de violência viria a ser usado pelo Par do Reino Francisco de Serpa Saraiva, da Guarita, para propor a extinção do concelho e a repartição do território por dois concelhos vizinhos. Dizia ele à Câmara em Agosto de 1842: «é facto que uma desordem permanente existe no Concelho do Carregal, ao qual pertencem as notáveis povoações de Cabanas e Oliveira do Conde, donde provêm contínuas intrigas e malefícios que assustam seus habitantes e tornam difícil, se não impossível, a escolha de empregados imparciais. Assim o estado destes povos é quase anárquico, e os factos atrozes têm sido frequentes e impunes, como por exemplo, a maior parte do Clero assassinado (…)». O orador apresentou também uma representação da Freguesia de Papízios que «requer ser desanexada do Carregal, e reunida a S. João d’Areias, donde já foi», culminando num Projecto de Lei:
«Artigo 1.º Todo o território compreendido entre os rios Mondego e Dão, desde a Foz Dão até o Carregal inclusive, formará o Concelho de S. João d’Areias, e uma única Administração.
§ Único. Uma linha recta tirada no superior limite do Carregal, e que toque nas extremidades à respectiva margem de ambos aqueles rios, fixará por este lado os limites do dito Concelho.
Art. 2.° Todo o resto do Concelho do Carregal, que fica extinto, fará parte do Concelho de Canas de Senhorim.»
Todos sabemos que este intento do Barão de S. João de Areias não teve sequência… Quanto à inclinação dos primeiros administradores do concelho para o despotismo e o uso exagerado da força, viria a ter o seu expoente máximo em António Soares de Albergaria, residente em Cabanas, que foi demitido, em Março de 1856, pelo Ministro do Reino, Rodrigo da Fonseca Magalhães, na sequência de denúncia do Governador Civil, após uma representação feita por 55 cidadãos do concelho «contra as atrocidades do seu incorrigível tirano». Desde então, «a generosidade e o bom senso deste povo, a singular vigilância da autoridade administrativa e judicial, a boa e morigeradora direcção dos negócios municipais, tudo se deu as mãos para que em nada fosse inquietado» (representação de 261 cidadãos do concelho ao Rei D. Pedro V). O concelho de S. João de Areias só viria a ser falado quase 40 anos depois, quando, da sua extinção, resultou a anexação da freguesia de Parada ao nosso concelho.


A importância da História, está bem patente nesta informação transmitida pelo Caro Dr. Carlos e Amigo. Através dela, poderemos saber como é que os habitantes deste concelho reagiam; se comportavam e pensavam. Esta é a riqueza que a História nos concede.
Naturalmente que é preciso estar bem atento para uma revelação que a história nos traz,e o nosso caro professor ,naturalmente aqui a explica bém.Pena que os responsáveis pelas reorganizações o façam em jeito de conveniência,e não se esforcem pelos trabalhos de casa,porque aí teriam maios tempo de refletir e não votariam uma qualquer proposta que não sirva a generalidade do povo.
É importantes dar a conhecer estes factos, os quais, fazem parte da chamada micro-historia local e que ajudam a perceber o passado da formação do Concelho do Carregal em 1836.
No entanto, duvido da fonte usada pelo Par de Reino Francisco de Serpa Saraiva, quando faz referência ao facto de a Fregueia de Papízios ter já antes pertencido ao antigo e extinto Concelho de SJ Areias. Pelos dados que tenho recolhido acerca destes assuntos nunca vi esta associação.
Eu também nunca encontrei essa associação.