Hélio Bernardo Lopes — Terça-feira, 6 Março 2012 — 0 Comentários
O GATO E O RABO
HÉLIO BERNARDO LOPES *
Diz-se por vezes que gato escondido com rabo de fora é o modo como alguns pretendem mostrar o que, em verdade, não o é. E foi isto que ontem mesmo teve lugar ao redor do caso que se tem vindo a agigantar em torno do Álvaro, mormente pelo papel, cada dia mais diminuto, que este ministro tem vindo a assumir no domínio público e perante a generalidade dos portugueses.
Confesso que cheguei a acreditar, já pelo Opinião Pública da tarde, com o televisor ligado mas brincando, incansavelmente, com a minha neta, que da reunião do Álvaro com o Primeiro-Ministro sairiam duas coisas: a saída do primeiro do gabinete do segundo e a saída daquele do elenco governativo. Infelizmente – penso aqui no Álvaro –, enganei-me: estóico, o Álvaro lá se determinou a continuar.
Devo dizer que logo pensei – cheguei mesmo a telefonar a amigos – mais longe que a saída apenas do Álvaro, envolvendo também José Pedro Aguiar-Branco e Miguel Macedo. No mínimo. E isto porque estes dois, de facto, dão sinais muito claros de não conseguirem atinar com o passo que é exigido por militares ou polícias.
Um dado é, porém, certíssimo: a coisa está a anos-luz de manter a linearidade que parece deixar transparecer para o domínio público, conseguida graças a uma comunicação social acrítica. E, se acaso faltassem provas, aí nos foi dado ouvir as palavras de Marcelo Rebelo de Sousa, ontem mesmo, num qualquer canal televisivo: agora é inoportuno, devendo deixar-se para depois das autárquicas. Ou seja: a aparência e a substância.
Mostra isto, pois, que o desastre estrutural interno deste Governo é já grande, mostrando-se crescentemente entrópico. Esta é a substância, de resto, já a expandir-se para os setores da Saúde e da Justiça, e com a Educação a dar os primeiros sinais. O nada final da reunião – é um evidente tudo – é a aparência. Deste binómio, como no-lo mostram a Ciência e a História, continuará a crescer a entropia substantiva (já bem visível).
Ou seja, caro leitor: o que agora se pôde ver à saciedade ultrapassou já o nosso Costa Concordia, começando a mostrar-se-nos na fase de Costa Allegra. Será que vamos ainda poder ver o Costa Atlantica? É o mais provável.
Por fim, se eu conhecesse o Álvaro, ou dele fosse amigo, oferecia-lhe um exemplar do meu texto de há uns anos, surgido logo na peugada da vitória do Presidente Cavaco Silva, repetindo-lhe: deixe-se estar em Vancouver, continue a ensinar e a investigar, e poderá ajudar a abrilhantar o nome de Portugal. E completaria: lembre-se de Salazar no Porto, em 1957, onde referiu a tendência portuguesa para só lembrar e enaltecer os homens públicos depois da morte. Não posso ser mais amigo e sincero.
* Antigo professor e membro do Conselho Científico da Escola Superior da Polícia
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