HELENA ROMÃO
O conceito de disfuncionalidade (de não funcional ou que revela perturbação do funcionamento) é sobejamente conhecido de todos quando associado a famílias mais ou menos desajustadas, mas podemos reparar que vem sendo aplicado, com alguma frequência, a grupos sociais, a regimes políticos e mesmo a sociedades inteiras.
O elevado nível de participação do povo francês, nas eleições presidenciais (80,35 %), haveria de me lembrar, estupefacta, que tal ânsia de participação só foi comparável, entre nós, à corrida desenfreada àquele supermercado que sabemos. E se julgávamos que só tinham sido seduzidos, pela manobra, os mais carenciados desenganámo-nos, de imediato, pois logo a comunicação social haveria de o desmentir referindo a transversalidade social dos sequiosos do consumo. Acredito, mesmo, que entre estes estarão muitos daqueles que, quotidianamente, se amofinam e empertigam, entre o melindrado e o revoltado, com as manobras do neoliberalismo, do capitalismo e da concentração capitalista vindo agora contribuir para um lucro de 11 milhões de euros entregue (num só dia) nas mãos de um único grupo empresarial.
Este “faz de conta” e um persistente e corrosivo “olha para o que eu digo, não olhes para o que faço” fazem com que acredite estarmos perante uma sociedade disfuncional.
Há algum tempo designava-a como “sociedade de abuso”, mas acredito que a falta de consciência do abuso e o nexo de causalidade quase mecanicista que encontramos nos remetem, inevitavelmente, para a imagem de uma máquina que não funciona bem e que está sempre a avariar e a emperrar, pelo facto de as peças não se ajustarem e não haver técnicos capazes de as reparar.
Na sociedade, como nas famílias, a disfuncionalidade emerge da eliminação da capacidade de pensar (racionalidade). São, assim, criadas condições para a aceitação (semiconsciente) de uma realidade na qual se adota um de dois papéis possíveis: de abusador (que usa a força) ou de vítima (que usa a submissão, a manipulação e o engano). No jogo que se estabelece, os papéis adquirem elevado grau de rotatividade e, nele, a vítima representa um papel potencialmente tão agressivo como o abusador. Aliás, a manipulação é designada pelos ingleses como (covert agression), portanto, agressão disfarçada ou dissimulada e todos sabemos que assim é.
Ora, muitas das características das famílias disfuncionais são comparáveis às da sociedade em que vivemos, senão vejamos: falta de empatia, falta de limites claros, conflito, desrespeito pelas regras e pelo outro, volatilidade, ambiguidade do discurso, ausência de cooperação e de compromisso, falta de clareza na distribuição de papeis, falta de responsabilidade, ausência de reciprocidade na atuação e de gratidão, falta de, de, de…
Só pode ser disfuncional um país onde há mais consultas para abortar que para ter filhos (disfuncionalidade que se agrava quando o dinheiro dos abortos é dinheiro público sem que quantias idênticas sejam usadas para fazer nascer vidas difíceis).
Só pode ser disfuncional um país onde se pensa que pode haver desenvolvimento sem pessoas desenvolvidas e que pode haver pessoas desenvolvidas sem treino exaustivo das aprendizagens.
Só pode ser disfuncional um país onde pagamos serviços a autoridades que não os executam como contratualizado, mas também um país onde uma parte substantiva da riqueza não é taxada e cujos usufrutuários desejam beneficiar de serviços estatais gratuitos.
Só pode ser disfuncional um país onde só se pedem propinas anos depois da dívida e quando a causa não é a ética e a justiça (ante os pagadores) mas uma contingente necessidade orçamental das universidades.
Só pode ser disfuncional um país onde pais endividam e hipotecam o futuro dos filhos.
Só pode ser disfuncional um país onde todas as autoridades e educadores permitem a destruição do potencial dos adolescentes pelo consumo de um álcool proibido mas que todos sabem ser consumido.
Não caberiam aqui os exemplos de tamanha disfuncionalidade nada europeia ou coisa que se creia civilizada (padrões morais duplos, justiça tardia, educação que não educa, política que não defende a pólis; democracia desigualitária, assimetrias regionais, desigualdades de género) e, no entanto, todos parecem adaptar-se a um qualquer papel, necessariamente disfuncional, transferindo para outrem a capacidade de pensar, da qual abdicaram ou que não construíram porque poderes sociais e culturais assim o determinaram.
A raiz da disfuncionalidade assenta, como se vê, no protagonismo dado às emoções (impulsos), remetendo a consciência racional para os confins da acessibilidade, um qualquer lugar remoto, esconso e escuro da mente que os filósofos do século XVIII quiseram, por alguma razão, iluminar. E, como sabemos, alguém virá jurar a pés juntos não haver melhor conselheiro que o coração que, de infalível que é, elimina a necessidade de todo o raciocínio moral e de toda a discussão do que é ou não correto. Alguém virá dizer que desenvolver essa capacidade de conhecer coisas à nossa volta nos tirará a possibilidade de sentir: de sentir empatia, amor, alegria e entusiasmo. Mas todos sabemos que os sentidos só estão treinados para sentir se estiverem libertos do impulso imediato e de emoções que não conhecemos nem controlamos.
É essa zona obscura, que não controlamos, que outros controlarão pelo medo, pela manipulação, pela fraude e pelo engano.
Quando nos movemos nessa zona obscura, que não controlamos, é muito provável que estejamos a ser disfuncionais.
E, neste momento, todos dirão que sim que controlam, que foi em nome desse controlo que foram ao supermercado. Puro engano. Há dois exercícios possíveis para ver quão pequena é a nossa zona de controlo: contabilizar quanto tempo diário dedicamos à reflexão sobre assuntos políticos, económicos, sociais, culturais ou outros (enfim, assuntos sérios) e contabilizar quão rico é o nosso vocabulário e o nosso domínio da(s) linguagem(s) e dos conceitos. É com eles que se ilumina a consciência porque são eles as ferramentas do raciocínio e da comunicação (assertiva). Fora da linguagem existe perceção e sentimento, mas estes só serão saber pela atribuição de significado e este é, em grande medida, cultural e uma aprendizagem necessariamente reflexiva.


Prezada Dra Helena Romão,eu não tenho na verdade palavras para responder ao seu texto,mas digo-lhe sinceramente;já era notória a sua falta,porque as pessoas,e com a sua experiência ,deveriam abordar mais temas com o o seu!
Eu irei ser breve ,mas,não poderei deixar de me congratular com o contude desta mensagem,e pegando no problema da RACIONALIDADE,é realmente pena que em tanta gente ,e até de um certo nível não vejam os seus orçamentos,e sejam capazes de gerir o que apenas terão,e não vejam que vão esbanjando o que não terão.Depois,como diz ,até se servem ,abusando claro ,de recursos que por nada lhes seria atribuido.
Mas ,vejamos o caso em que hoje nos surge no (CORREIO DA MANHÂ).Ora Este SUPERESPIÂO,auferindo 40.000E /Mês,é apanhado nas malhas ,pois terá ultrapassado os limites de confidência,estatal(Das Camadas SECRETAS),e o seu resultado vem agora ao nosso conhecimento:E quantos outros Corruptos ? Pois,já estou como diz a nossa querida Luz Canário!EU JÁ NÂ ACREDITO EM NINGUÉM…
Conforme,ilucida , e é verdade;a nossa lingua é rica de vocabulário,mas certas personalidades,fabricam leis ,apenas e só para as suas conveniências,e esta é realmente a grande manipulação ,onde se vão vendo os prós e contras do tal dia onde se usa de grande vergonha ,moral e cívica por quem ,como diz ,auferiu milhôes.Porquê?E com que intenção se desrespeitou aquilo que a lei ainda consagra?E agora ?Quais as consequências ?Já tudo passou ,e as prateleiras estão de novo cheias! E até quando?Vamos estar atentos ,mas ,quando se abre uma “brecha numa rocha”,fica-se pela espetativa de saber se vai continuar….
Aceite os meus cumprimentos,Adelino Borges.
Senhora Dra Helena Romão
O seu artigo é fantástico. Apesar de longo li e reli porque ele é mesmo para isso, para reflectir, aprofundar, para nos analisarmos e tomarmos consciência das nossas disfunções e do país disfuncional em que vivemos.
Obrigada pela partilha do seu elevado saber e pela forma como o apresentou.Penso que, apesar de ser um texto escrito com uma linguagem bastante erudita, é facilmente compreeendido por todos.
Os meus cumprimentos cordiais
Luz
Me faz lembrar um livro que li e que se relaciona diretamente com este tema, intitulado A Esquizofrenia Social, de Elza Pádua. Em que a autora diz que esta disfunção na sociedade, parte do conceito de família. Tenho um outro que ainda vou ler e que se chama A Dialėtica Família, de Massimo Canevacci. Eu mesmo reconheço que os valores da família tradicional ainda são muito fortes, hegemônicos, mas castradores. Este modelo de família que temos pode funcionar como uma prisão e tendo também o seu lado repressivo. É muito comum certos membros de uma família terem a sua liberdade de escolha garfada por outro dentro de sua própria casa ou fora dela, de forma autoritária e invasiva. Pode ser um pai, um irmão, um primo ou qualquer um outro. É aí que entra a questão do controle, da inveja, da sublimação do passado, onde até acontecem atitudes criminosas na família, onde a vítima, o “bode expiatório”, pode carregar as consequências para o resto da sua vida tendo a mesma muito prejudicada e sua prosperidade bloqueada. Como a família é a base, a célula da sociedade, temos como consequência um sistema social doente.