A RÉPLICA TIMORENSE

HÉLIO BERNARDO LOPES *

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Há perto de ano e meio tive a oportunidade de ler, por via de certa notícia de um nosso diário, que um antigo Procurador-Geral da República do Brasil, abordando a corrupção de há muito reinante no seu país, apontava a colonização portuguesa como a causa principal desta realidade. Uma explicação que me pareceu muitíssimo verosímil e por diversas razões, todas elas conhecidas e mui evidentes.

Em primeiro lugar, o desenvolvimento veloz e profundo da corrupção em Portugal, muito em especial ao longo destes trinta e oito anos da nossa III República. Uma realidade hoje já muito bem conhecida na sua tipologia e no seu desenvolvimento e que se espraiou por quase todo o tecido social.

Em segundo lugar, a ineficácia do Sistema de Justiça para a combater, e aqui num sentido que inclui também o corpo legislativo que vai vigorando.

E, em terceiro lugar, a fortíssima tradição da corrupção no território português europeu, mesmo já do tempo da II República, e mesmo de antes, embora no primeiro caso a sua prática tenha ficado a anos-luz do que hoje tem lugar e se vai vendo à vista desarmada e a um ritmo quase diário. Infelizmente, e de um modo fortemente invariável, com desfecho nulo ou muito próximo disso.

Ora, durante a recente visita do Presidente Cavaco Silva a Timor, com a finalidade principal de assistir à tomada de posse do Presidente Taur Matan Ruak, foi possível escutar de Mari Alkatiri estas palavras claras e mui significativas: a corrupção em Timor faz-se à vista desarmada, de um modo transparente. Uma realidade de há muito confirmada por quem tenha trabalhado em Timor. Em todo o caso, e só por via do que se vai ouvindo através da grande comunicação social, uma realidade de que raramente se ouvem ecos por parte da Igreja Católica de Timor.

Mas nós temos, complementarmente, tudo o que de há muito se vem passando na Guiné, mormente em torno do papel do país como entreposto internacional no tráfico de estupefacientes. Um papel que, tal como pude de há muito expor, tem aqui, em Portugal, uma das principais peças estruturantes de todo o seu funcionamento.

Em contrapartida, mesmo Cabo Verde tem também desempenhado um papel deveras importante na globalidade da corrupção e da grande criminalidade organizada transnacional, como se tem podido ver com os casos da droga e de algumas estruturas bancárias, reais ou fictícias, de que se tem vindo a saber em cada dia novos acréscimos.

Mostra tudo isto, pois, que certas críticas recentes que têm sido feitas ao Sistema de Justiça do Brasil não têm fundamento, uma vez que, como pude já escrever, o mesmo tem atingido gente dos escalões sociais mais diversos, incluindo um presidente da república, governadores estaduais, governantes, deputados e senadores, magistrados, polícias, vedetas diversas, etc.. É, num certo sentido, como o Dum Dum: não escapa um!

    * Antigo professor e membro do Conselho Científico da Escola Superior da Polícia

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