Farol da Nossa Terra – Encerramento da sexta edição do Festival de Teatro “Palco Para Dois ou Menos”
quinta-feira, 17 agosto 2017

Teatro — Segunda-feira, 4 Junho 2012 — 0 Comentários

Encerramento da sexta edição do Festival de Teatro “Palco Para Dois ou Menos”

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O festival “Naco’s de Teatro – Palco Para Dois ou Menos”, que prima pela originalidade e depressa conquistou o seu espaço no meio teatral nacional, tem subido, ano a ano, de fasquia, mantendo a aposta de trazer ao seu pequeno palco teatro de qualidade, diferente e irreverente, num acto de coragem por parte do Núcleo de Animação Cultural de Oliveirinha (NACO), associação amadora do concelho de Carregal do Sal.

Cada festival pautou-se por um nível surpreendente, conquistando um público fiel e ávido de cultura, até extramuros, sempre a proporcionar gratificantes enchentes à mítica sala da Escola de Teatro de Oliveirinha. O patamar foi colocado ainda mais alto no ano passado por se tratar da quinta edição do festival e sabia-se que este ano não poderia ser mantido, mas havia expectativas de que não ficasse abaixo de cada uma das quatro edições anteriores. Sendo verdade que os gostos não são todos iguais, pode dizer-se que, afinal, esta sexta edição terá sido a que menos teatro de qualidade apresentou, não querendo isto dizer que não tenha havido teatro com qualidade, pelo contrário, dele se tem feito registo em crónicas já publicadas.

Para o encerramento do festival, na noite de sábado, 02 de Junho, ficou o melhor e o pior desta edição. O melhor foi levado ao palco da mítica sala de teatro de Oliveirinha pela marionetista profissional Filipa Mesquita, da companhia de teatro e marionetes Mandrágora, de Gondomar. O pior, mesmo até no conjunto das seis edições, foi apresentado pelo dinamarquês Peter Michael Dietz.

Criada e interpretada por Filipa Mesquita, “Casa dos Ventos” coloca em evidência o espaço rural, o espaço urbano, os saberes e os relacionamentos interpessoais, num enredo em que uma velha e uma criança são as personagens centrais, figuradas em marionetes. A velha vive agarrada ao seu moinho e a criança segue-lhe os passos até ao momento em que a cidade a atrai, mas acabando por voltar ao moinho ao encontrar a velha desfalecida de tanto percorrer a cidade à sua procura. Um espectáculo maravilhoso e uma interpretação soberba, como um cenário fabuloso, em constante transmutação, fazendo reflectir sobre a sociedade vivida no espaço rural e a sociedade transformada pelo progresso e pelo conhecimento.

“Casa dos Ventos” deu prova do trabalho que a companhia Teatro e Marionetas de Mandrágora, de Espinho, desenvolve na pesquisa e experimentação de linguagens teatrais e plásticas, aliando a contemporaneidade artística às raízes culturais, do qual há a salientar um programa cultural nas escolas através de projectos pedagógicos no âmbito das expressões artísticas, o que tem permitido conquistar público para o seu teatro de marionetas.

O encerramento desta edição teria sido brilhante se tivesse ficado apenas pela “Casa dos Ventos” e com mais tempo de conversa com a actriz, isso porque a habitual “internacionalização” do festival nada de enriquecedor trouxe desta vez, resultando numa autêntica desilusão o que Peter Michael Dietz estreou. Com um currículo de bailarino, performático, criador, designer, orientador, coreógrafo e professor, e com passagem pelo Brasil e por diversos países da Europa, esperava-se uma prestação a condizer, mas não nos pareceu feliz no que improvisou para o espaço ao ar livre deste festival, muitos furos abaixo daquilo que ali apresentaram, por exemplo,  Daniel Pinto, do Teatro Bruto, em 2010,  e Félix Lozano, actor/bailarino espanhol, em 2011.

Na comparação com trabalhos apresentados por actores estrangeiros, o dinamarquês ficou muito aquém do que de bom trouxeram ao festival o francês Patrick Murys em 2008, a inglesa Helen Ainsworth em 2009, a italiana Giada Prandi em 2010 e o italiano Roberto Cardone em 2011. Apesar disso, os gostos extremaram-se: de um lado ouviam-se gargalhadas, ainda que parecessem soar a forçadas, e de outro não paravam os comentários de troça e decepção, coisa nunca ali constatada. Quando há brincadeira é garantia de divertimento para os miúdos e nesse aspecto até resultou… mas sem substância teatral ao nível do que este festival nos habituou. Talvez – mas não seria altura para isso – Peter Michael Dietz tivesse pretendido fazer apreciar o seu conhecimento aprofundado de várias técnicas corporais, usando o seu corpo como instrumento e fazendo coisas que no seu conceito são arte e que parecem simples de mais aos outros.

No resto da noite, repetindo a experiência do ano passado, houve diversão para os mais resistentes com “os piores DJ’s do mundo”, de Guimarães, grupo ligado ao Centro Cultural de Vila Flor.

Depoimento em entrevista de José Manuel Figueiredo, presidente da Direcção do NACO

JM Figueiredo.jpg P (pergunta – Que balanço faz deste festival?

R (resposta) – Faço um balanço bastante positivo. Foi um festival muito diversificado e com muito boas audiências, apesar da multiplicidade de eventos que este ano foram coexistindo com o “Palco para Dois ou Menos”.

P – A maior aposta na quinta edição justifica algum abaixamento de qualidade que o festival deste ano apresentou?

R – Discordo, completamente, deste pressuposto. Deixe-me dizer-lhe que o teatro, como tudo na vida, tem coisas melhores e piores, altos e baixos, e esta apreciação depende muitas vezes do espírito de quem vê, o mesmo espectáculo pode agradar muito a uns e pouco a outros. Avaliar a qualidade de um espectáculo, ou neste caso de um festival, é uma coisa muito subjectiva. Na generalidade, todas as pessoas com quem falei gostaram do que viram, ACERT, Dorfeu, Árvore Ser, Mandrágora e NACO, apresentaram peças de grande qualidade. Agora, acho que não se pode dizer que este festival teve menor qualidade que os dos anos anteriores. Teve peças diferentes apresentadas por companhias diferentes com géneros de teatro diferentes.

P – Está correcta a ideia de que a participação de Peter Michael Dietz esteve muito abaixo daquilo que outros actores estrangeiros têm trazido ao festival?

R – Foi o menos bom deste ano, mas, como o nível do festival é bastante elevado e todos os actores estrangeiros estiveram muito bem, corremos sempre o risco de haver uma actuação que agrade menos, ou que corra menos bem. Além disso, o nosso público já revela uma excelente qualidade sabendo filtrar responsabilidades e performances.

P – Pode-se considerar a participação da marionetista da Mandrágora como o momento mais alto desta edição?

R – Pode considerar-se que a “Casa dos Ventos” foi um dos pontos altos, como também foram o “Pessoa o Grande Ausente”, “Mal Empregados”, “Árvore Ser”, Muito Riso Muito Siso” e, não querendo parecer pretensioso, também a “Audiência”, todas elas apresentações de muita qualidade. O teatro de marionetas é um ramo do teatro que tem sido transversal neste festival, relembro as actuações da Hellen Hainsworth e dos Palmilha Dentada, no último ano, com o fabuloso “Guardião do Rio”. Há quem goste e há quem prefira outros géneros. Considero que a “Casa dos Ventos” foi um excelente e interessante fim de festival, revelando um profissionalismo irrepreensível por parte da marionetista Filipa Mesquita. Saliento que o profissionalismo foi uma nota predominante em todos os grupos que trabalharam connosco este ano e que com eles levaram uma agradável e gratificante imagem da nossa terra e do nosso concelho.

 Lino Dias

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