HÉLIO BERNARDO LOPES *
As armas químicas, como é natural, só existem por duas razões principais: porque existem seres humanos e porque a Química acabou por se constituir num conjunto de saberes racionalmente explicados e dominados.
Rapidamente se percebeu que o fabrico de tais armas era muito mais simples que o das nucleares, também bastante mais barato, por igual mais difícil de detetar, embora a sua utilização requeresse condições idênticas às das armas nucleares. Em contrapartida, era grande o risco da sua incontrolabilidade, bem como o dos respetivos efeitos nas suas distribuições temporal e espacial.
Tornou-se, pois, fácil dar corpo a um acordo em torno da respetiva limitação por parte dos Estados da Comunidade Internacional, o que veio a materializar-se na CONVENÇÃO SOBRE A PROIBIÇÃO DO DESENVOLVIMENTO, PRODUÇÃO, ARMAZENAGEM E UTILIZAÇÃO DE ARMAS QUÍMICAS E SOBRE A SUA DESTRUIÇÃO, adotada internacionalmente em 29 de Abril de 1997. Simultaneamente, criou-se a ORGANIZAÇÃO PARA A PROIBIÇÃO DE ARMAS QUÍMICAS, destinada a monitorizar a materialização da anterior convenção.
Dois dos Estados que subscreveram a referida convenção foram o Irão e o Iraque. Simplesmente, do primeiro nunca se ouviu a referência à posse de tais armas, sendo que do segundo se pôde ouvir a garantia dos políticos norte-americanos de que que tais armas estavam na posse dos militares iraquianos. Bom, sabemos hoje bem que tudo não passou de uma mentira. Uma mentira que, sem armas de destruição maciça, causou mais de duzentos mil mortos nesta Guerra do Iraque.
Desta vez, em torno da guerra na Síria, para ali levada a partir de fora, como facilmente se percebe, embora, em última análise, pela mão dos Estados Unidos, lá surgiram, mais uma vez, as armas químicas. De resto, e vendo apenas as aparências, a Síria nem subscreveu a referida convenção. Simplesmente, à beira de eleições e com a imagem dos Estados Unidos já muito ligada a todo o tipo de imposturas deste género, coube a vez à liderança militar israelita de lançar a mais recente notícia: a Síria possuirá o maior arsenal de armas químicas do Mundo, bem como mísseis capazes de as conduzir a território israelita…
Simplesmente, não se percebe muito bem a razão do Governo sírio não as ter já utilizado. Pois, se as tivesse, tal teria de há muito sido contado aos quatro ventos, o que não teve, de facto, lugar. Pelo contrário: o que certos documentários especializados têm dado a conhecer é que os Estados Unidos e a Rússia, com mui elevada probabilidade, as deverão manter ainda hoje. Mais: no respeitante a armas biológicas até chegaram a ter lugar estranhas mortes, fosse no Reino Unido, fosse nos Estados Unidos, embora se admita que países como a França, a África do Sul, Israel, a Índia ou a Geórgia, no mínimo, as possuam.
Não deixa, pois, de ser interessante que em países como o nosso os jornalistas de serviço, os comentadores televisivos, e até os próprios cientistas da Química, certamente sabedores do que pode ou não existir e por onde, nada digam a não ser o que se vai ouvindo: morrem muitos sírios, e todos às mãos de Bashar al Assad… E tudo isto ao mesmo tempo que o Governo turco mete na prisão uma centena e pouco de jornalistas, ou que o Governo do Chile aceita – democraticamente, claro – uma homenagem a um criminoso da estirpe de Augusto Pinochet. É a democracia ocidental no seu esplendor!!
* Antigo professor e membro do Conselho Cientifico da Escola Superior da Polícia


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