AUTOSSUPERAÇÃO

HELENA ROMÃO

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       O dia de Portugal e a derrota com a Alemanha fazem com que assinale os dois factos com uma reflexão sobre autossuperação.

Não pretendo dissertar sobre um jogo do qual decerto muito se irá falar. Para mim, que não percebo nada de futebol, pareceu-me um jogo equilibrado e momentos houve em que, pela precisão das jogadas, os jogadores lusos quase pareciam alemães. Por isso gostei.

Todos registámos, também, aquele azar de uma bola que teimou em não entrar. Mas, há sempre um momento de pressão em que começamos a adivinhar o pior porque detetamos distração e falta de concentração e o golo surge de uma aparente falta de reflexos e de esforço final. A esta falha, nos momentos de cansaço e de pressão finais, chamo eu falta de preparação para a autossuperação e este jogo serviu para lembrar a urgência transversal de que se desenvolva uma tal capacidade, que, em linguagem comum, significa continuar a trabalhar sob dor, em situação de sofrimento ou sacrifício, adiando o descanso ou o prazer imediatos.

Esta capacidade abrange a população estudantil (estudar quando se cai de sono ou quando se ouve a festa lá fora); a população trabalhadora (persistir em esforço quando tudo parece apontar para o fracasso); a população parental (não desistir dos filhos mesmo quando eles desistiram de si próprios); a população desportiva, enfim, a população em geral.

Efetivamente, quando comparados com povos que se nutrem do perfecionismo, do brio e da honra nos resultados, ficamos com a certeza de que devíamos mudar o provérbio para “depressa, bem e à primeira”, ou seja, mudar para qualquer coisa um pouco mais nipónica. Entre nós parece que os conceitos de fruição e satisfação não se coadunam com o conceito de esforço mas apenas com um “dolce far niente”, ronceiro e hedonista, com descanso, bebida ou as duas à mistura, sempre que possível.

A ideia de que individual e coletivamente nos satisfazemos com o mínimo é confrangedora. Acredito que seja esta exigência mínima que assegura a típica cultura da inveja e da desvalorização do mérito. Mas não. Somos muito(s) assim e as exceções só confirmam a regra. Apraz-me pensar que, se estivéssemos perante uma cultura de esforço e mérito generalizados, na qual a fraude é alvo de rigoroso heterocontrolo, estaríamos bem melhor.

Contudo, talvez seja essa necessidade mínima amplamente apreendida, desde tenra idade, que justifica a adaptabilidade portuguesa à crise, assegurado que esteja esse patamar. A história virá dizer se esta conformidade minimalista foi uma vantagem ou uma desvantagem.

3 Comments

  1. Olá Dra Helena Romão,como Vai?É que já tinha saudades dos seus artigos,porque eles são sempre uma mais valia para todos nós.
    O título do seu artigo ,deixa -nos uma rara versão de crítica,mas ,muito positiva.Ora vamos ao nosso dez de Junho:Aqui estiveram mais uma vez os tais alfinetes ,de ouro ou prata a serem colocados em quem ,não sei se certos ou não,porque ,comparados com os antigos medalhados ,que tinham desaparecido (mortos na guerra) ,e seriam os seus familiares,a receber essas condecorações,a titulo póstumo,naturalmente ,que pelo menos agora já ninguém chora ,quer por pais,filhos ou até maridos que ao longo de tantos anos por lá foram ficando.Portanto ,ainda bém!
    E agora vamos então ao outro ponto:da nossa seleção.É verdade ,como diz até nem jogamos mal,mas faltou foi o fator sorte,sim ,porque aquela bola ,e a meu ver esteve lá dentro.Enfim ,perdemos ,mas provamos estar à sua altura,mas como os golos é que contam vamos esperar pelo próximo que será amanhã.
    Pelo respetivo nome que dá ao inteligente artigo,e falando um nadinha da forma como aborda a cultura,é claro que tem a mais forte razão quando descreve o individual pelo coletivismo,esta será no futuro a batalha que se irá travar,porqque ainda faltam metas e os (jogadores),aqui refiro-me a um todo,ainda não se lembraram de que o adversário que nos cerca, (a crise),vai retirando tudo aquilo que ao longo dos anos ,e até de campos diferentes(emigação ),nos chegou ,e ninguém diga que tudo isto se desviará de suas portas.
    Mas ,vamos ter fé ,e esperança e um dia,alguém poderá relembrar se tudo quanto a História ,por um lado nos ensina ,e por outro nos dexa fazer ,dará ou não razão a tudo que vamos dizendo.
    Termino com as maiores saudações ,e também um muito obrigado por ter este previlégio de comentar os seus artigos .Adelino Borges.

  2. Caro, Sr. Adelino Borges,
    Eu é que agradeço a amabilidade de ler o que vou escrevendo e esse notável empenho participativo e crítico. Esta é uma forma importante de exercício da cidadania e da democracia. Por isso, se o seu exemplo vier a ser seguido pelos mais novos, não duvido, ficaremos muito melhor. Hr

  3. Boa tarde Dra Helena.Como vai? Sei que é altura de muito trabalho ,e compreendo,e muito bém a razão de sua ausência.E depois ,além de praparar os seus alunos para prestarem as contas de tudo o que fizeram ao longo do ano,para si ,e seus colegas não é fácil.Há ,todavia um vazio neste jornal,porque a sua falta é notória,e por isso me atrevo a solicitar ,quando entender oportuno,dê a sua voz em um qualquer artigo que entenda.
    Desejo-lhe ,com todo o carinho que surja daí,porque pessoas da sua conduta fazem muita falta para ir dando o alerta pelo seu jeito de inteligência e experiência.
    Aceite os meus mais sinceros cumprimentos,num até breve.Adelino Borges.

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