HELENA ROMÃO
Quem quer resultados de excelência trabalha arduamente. Este é o caso de Dulce Félix, medalha de ouro nos Campeonatos da Europa de Atletismo de 2012. Este é o caso das outras medalhadas e dos restantes atletas olímpicos, de onde se destacam os paralímpicos. Acredito que, sem estatuto de privilégio e com poucos apoios, estes resultados só se conseguem com uma boa dose de resiliência.
A resiliência é um conceito da psicologia, oriundo da física onde é entendido como a capacidade de uma matéria resistir à pressão sem quebrar e de, finda a mesma, retomar o seu estado anterior.
Na psicologia significará a capacidade de uma pessoa revelar força e estratégias para enfrentar a adversidade e a insegurança, qualquer coisa como como uma combinação de fatores que lhe permitem dispor de condições para resolver problemas (e o stress deles resultante) sem correr grandes riscos ou se desestruturar, melhor, permitindo-se a desestruturação relativa da tentativa-erro à qual se seguirão novas aprendizagens.
Há já algum tempo pensava escrever sobre esta matéria pois considero que, por razões culturais, se despendem inevitáveis recursos materiais e humanos com os não resilientes, enquanto se ignoram os resilientes numa invisibilidade injusta e improdutiva.
Como hipótese de trabalho teremos que considerar que ambos os grupos sejam provenientes de contextos de risco e absolutamente equiparáveis relativamente a pressões de fatores negativos externos a que estejam sujeitos. Nessa situação, a experiência mostra que, mesmo entre irmãos, o grau de vulnerabilidade e de submissão, a esses fatores, é muito menor nos resilientes. Costuma dizer-se que o resiliente é aquele que impede que as profecias se cumpram.
De facto, será fácil, perante um contexto de dificuldades, conseguir “prever” ou “profetizar” consequências negativas. Fácil será, também, curvar-se, de forma passiva, a essa espécie de destino azarento e repetido. Difícil será mobilizar força física, emocional, psicológica, moral e intelectual para contrariar tantas pressões sem que ninguém pareça premiar esse esforço isolado e solitário. É que a sociedade está muito mais atenta ao indivíduo não resiliente do que ao resiliente. Os pais estão-no e as instituições partilham desse modo de estar.
Assim, a não resiliência acaba por ser premiada com alguma atenção (mesmo que negativa, cínica e improdutiva). Já a resiliência é ignorada, invisível e sem prémio à vista, tida como capacidade inata, excecional naquele indivíduo, sem que nele haja especial merecimento.
Esta atitude pautada por algo a que já chamei “o raciocínio ético da pena e da desculpabilização” em detrimento de um “raciocínio ético do esforço e da responsabilização” conduzirá à reprodução de contextos não resilientes (famílias e sociedades não resilientes).
Por outro lado, como não conseguimos controlar os fatores de risco, a pena permite que se desista do problema (qualquer que seja), como se de uma inevitabilidade fatal se tratasse (afinal a profecia serve para isso!), limitando-se a intervenção a umas quantas ações paliativas, envoltas num halo de preocupação social, da qual transparecem, a um tempo, censura e desesperança rapidamente aprendidas pelas “vítimas” que tudo farão para confirmar as expetativas.
Ao mesmo tempo ignorámos que, ao lado e no mesmo contexto, se encontrava alguém (criança/jovem) que conseguiu gerir emoções (como a raiva e a dor), controlar os impulsos, olhar o mundo com realismo otimista, analisar e gerir riscos, ser empático, racionalizar o negativo e reduzir sentimentos de culpa. Ignorámos que, mesmo ao lado e no mesmo contexto, se encontrava alguém que conseguiu inserir-se em grupos, relacionar-se dentro das regras, ser proactivo, aprender, colaborar, competir e ser eficaz reduzindo um sem-número de medos entre os quais estarão, decerto, o medo do fracasso, o medo da injustiça e o medo da inutilidade do seu esforço. (Ele terá que lidar com a injustiça obrigando-se a continuar mesmo sem reconhecimento ou atenção).
Estamos em crer que tornar visível e exemplar este esforço, acompanhado do fornecimento de competências e estratégias para lidar com os problemas, bem como da promoção de novos valores e atitudes, atrairia mais jovens para a causa da resiliência.
Resta-nos referir que a escola e outras instituições ao subtraírem a responsabilidade pela sua vida (aos não resilientes) não fazem senão reproduzir um modelo parental negligente e pouco firme e o próprio modelo social. Demasiadas vezes, a escola desviará o foco central da sua atividade do processo ensino-aprendizagem para a resolução de problemas sociais ou de comportamento perdendo tempo e energia, afinal, numa reprodução persistente da não resiliência.
Especialistas australianos provaram ser importante valorizar o orgulho dos resilientes pelas suas aquisições, o mesmo acontecendo com os não resilientes mas apenas à medida que forem desenvolvendo competências.
Evidentemente, neste feedback positivo não incluímos a pena, a mentira, a omissão deliberada, a desculpabilização ou jogos manipulativos, nos quais se tornam exímios. Incluímos a promoção da “response-ability”, da autonomia, da criatividade, da ambição, do brio e das mais diversas aspirações.
Será, ainda, importante desenvolver sentimentos de pertença, confiança nas pessoas e nas instituições, honestidade, compromisso e cumprimento do dever e, às vezes, fornecer ferramentas que, de tão especializadas, se encontram para lá dos recursos dos professores.
A mensagem a reter é a de que a resiliência pode ser ensinada, aprendida e desenvolvida.
É que os resilientes também lidam com o que se encontra disponível no meio e consigo próprios. A única diferença é que são fortes, autónomos, criativos, corajosos e persistentes. A única diferença é que, em vez de pedir ajuda(s), estão voltados para a resolução de problemas (com autonomia) e para a aceitação do fracasso dominando a frustração com a persistência. A única diferença é que os resilientes recusam, todos os dias, as profecias da vida (e dos outros) e é para eles que vai o meu elogio pois eles serão os cidadãos resilientes que constituirão famílias resilientes, de uma sociedade resiliente, num país resiliente.


Deus ouviu-me,e a Dra Helena,também.
Não poderia deixar de ser este seu artigo tão oportuno e valioso como eu o deduzo.Parabéns aos ilustres valores das nossas gentes!Começou,e muito bem pelas medalhadas,e tem realmente razão,porque temos grandes atletas,mas ném sempre lhes é atribuido o verdadeiro valor.Também acho que deverão possuir o seu estatuto,assim como tantos de outras modalidades,porque são tarefas árduas,como disse ,para se alcançar ,e em competições de alto nivel as ditas medalhas que em tempos nunca chegavam a Portugal.
Referindo-se ao campo,ou ato da RESILIÊNCIA,eu entendo que a sua réplica não só é corajosa ,como sempre ,mas acima de tudo deixa o desafio para quem a entender praticar,porque sem coragem, e ainda que à primeira se não encontre o objetivo ,será ,como diz ,pela luta.E não poderemos ter vergonha se não atingir-mos à primeira, mas sim orgulho quando se chegar ao final de uma determinada etape,e com os frutos dessa luta ,e dizer:VALEU A PENA.Gostaria que este tão importante artigo levasse alguns cIdadãos a refletir,e pensar um pouco mais do papel que lhes cabe assumir,porque estamos todos do mesmo lado,ou seja;assim se devia pensar!Não são só os Professores que deverão fazer por isso,mas muitos trabalhos de casa,e devidamente ordenados ,estarão por vezes no patamar do êxito de aluno.E essa tarefa caberá naturalmente aos pais ,e também ,como desenvolve à RESILIÊNCIA DOS ENTERESSADOS:
Uma vez mais o meu muito obrigade,Dra Helena,e aceite a minha admiração,que o mesmo é sentir orgulho em nos comunicar desta maneira.Que outros de sua igualdade académica ,venham preencher este tão importante meio culto e livre.
Com os meus cumprimentos,Adelino Borges.
Sr. Adelino,
Agradeço o seu comentário e “reencaminho-o” para as Olimpíadas de Londres com os meus votos de óptimos resultados para os nossos atletas.
Dra Helena,
Partilho inteiramente de tudo o que defende e foi também o que defendi sempre.Aliás, na minha escola, eu tinha uma frase, escrita em letras garrafais, que ia de uma parede à outra que dizia:”É PROÍBIDO DIZER NÃO SOU CAPAZ,NÃO CONSIGO, NÃO POSSO. EU ACREDITO EM VOCÊS”.
O elogio, o transmitir confiança, o fazer crer que se é capaz, são fundamentais para a criança, e até adultos, terem sucesso.Neste processo de aprender a trabalhar com computadores, a que eu era avessa, e achava que não era capaz, precisei que me dissessem com autoridade: “és capaz , sim, só precisas de atenção e empenho”.E é assim com tudo.Como educadora e orientadora de jovens, eu procurei munir-me de testemunhos de jovens que fossem ídolos deles para lhes mostrar que a grande maioria chegava áquele patamar de sucesso porque eram muito empenhados.Um dia levei-lhes uma entrevista que a Daniela Ruha (não sei se está bem escrito, peço desculpa) deu e onde ela dizia que só foi possivel ser escolhida para fazer aquela série policial num país estrangeiro porque desde pequena teve uns pais que a educaram a ser muito disciplinada e empenhada em tudo, desde o ballet aos estudos.Dizia ainda: “sem muita disciplina, muito empenhamento e espírito de sacríficio ninguem chega a lado nenhum.Mesmo que os nossos pais sejam muito ricos, eles não conseguem introduzir-nos ferramentas para mantermos essa riqueza se não trabalharmos bastante.”Infelizmente temos pais, educadores, politicos que não usam a pedagogia do sucesso, e por isso não há confiança em nós próprios e nos outros.As ferramentas que os sucessivos governos têm adoptado não levam os mais disfuncionais a lado nenhum:dão-lhes subsídios na vez de os estimularem a utilizar ferramentas e a serem lutadores. Fazem deles uns eternos coitadinhos.Mas aqueles que se conseguem libertar sentem um profundo orgulho em si próprios.
Obrigada pela partilha dos conhecimentos.Luz