HELENA ROMÃO
Freedom foi o tema com que George Michael, o vocalista dos Wham (do tempo da geração adulta), brindou o Mundo, no encerramento dos Jogos Olímpicos. Este valor ter-se-á tornado um imperativo inquestionável para grande parte da geração que assistiu à falência dos regimes comunistas sem que tivessem (não obstante o uso da força) atingido as suas ambições igualitárias.
A escolha não poderia ter sido melhor pois todo o evento foi uma afirmação de liberdade, desde a criatividade artística ao ecletismo e ao multiculturalismo (também inglês e exportável, diga-se). Aliás, é o que se sente na Inglaterra: uma afirmação de liberdade, não fosse este país a mais antiga democracia do Mundo.
Poderão os mais incautos pensar que se pode, então, fazer tudo o que se quiser. Não. Este é o conceito periférico e subdesenvolvido de democracia. E é à luz deste conceito subnutrido de democracia que as periferias se permitem tantas formas, mais ou menos graves, de incumprimento.
Para que a liberdade de todos seja respeitada é preciso que haja um escrupuloso respeito pela lei e, já agora, pela ética. Abro aqui um parêntesis para referir, na minha humilde interpretação, que há algum tempo quando se descreviam as funções da Comissão de Ética do Parlamento, tal não parecia senão uma tarefa de verificação da legalidade de documentos e situações. Ora, a ética não pode ser reduzida ao que se encontra plasmado na lei. De facto, a lei permite, muitas vezes, injustiças, é omissa, contém lacunas e é a ética que, através do hétero-controlo dos cidadãos, poderá minorar essas limitações.
Não se trata de defender uma atitude de denúncia, mas a afirmação positiva e reclamante dos nossos direitos quando alvo de abuso. Deste modo, o princípio da igualdade perante a lei e o exercício ativo da cidadania, defendidos e praticados (por todos) garantirão a igualdade de oportunidades e permitirão que a liberdade se realize na emergência dos mais vocacionados e talentosos (que gradualmente serão mais, cada um na sua especialidade).
Outro aspeto notável destes jogos e dos ingleses foi a reinvenção da sua histórica capacidade de cooperação (patente ao longo da 2ª Guerra Mundial), observável no orgulho, brio e espírito de sacrifício dos milhares de voluntários, de todo o país, unidos pelo objetivo de mais um feito pelo bem comum.
Há culturas talhadas para a emulação mas também a racionalidade, que deriva de elevados níveis de educação, o permite pois trata-se de uma escolha que exige esforço volitivo e onde a recompensa não é imediata.
Daí a importância de uma educação feita de aprendizagens efetivas (não dos diplomas). Já dizia Epicteto que “não devemos acreditar nos que dizem que só as pessoas livres devem ser educadas, mas devemos, sim, acreditar nos filósofos que dizem que só as pessoas educadas são livres “.
Freedom isn’t free (A Liberdade não é livre) é também tema de várias canções e faz-me lembrar uma expressão empregue, por Adelaide Ferreira, há uns dias atrás num concerto, em que reportando-se à necessidade de uma certa dieta dizia: “Temos que ser infelizes para ser felizes” (sic). Do mesmo modo temos que ser menos livres para ser livres.
É esta liberdade, com os limites que lhe reconhecemos (apesar de menores nas democracias), que exige um contínuo alargamento e que é, sem dúvida, a melhor conquista política das sociedades ocidentais.


Grande artigo de Opinião!Como os cidadãos portugueses estariam tão evoluídos e educados se os que detêm o poder de governar partilhassem deste nível de liberdade.Mas não só eles: os pais e professores e todos os educadores deviam educar e preparar os seus educandos para estes valores.
Obrigada, Sra Dra Helena pela partilha de pensamentos e sabedoria.