Queremos mesmo de volta as nossas vidas?

Carlos Peixeira Marques

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O “povo” saiu à rua sob o mote “Que se lixe a troika, queremos de volta as nossas vidas”. O objectivo desta crónica é sugerir que essas vidas não têm volta. Eram vidas de ilusão, assentes numa sensação de bem-estar semelhante à que é proporcionada pelas drogas – quanto mais eufórica for a pedra, mais difícil será a ressaca. Custa admiti-lo – e bastante mais escrevê-lo – mas, sem correr grandes riscos de excesso de simplificação, uma rápida leitura do gráfico abaixo será suficiente para reconhecer que temos “vivido acima das nossas possibilidades” e que vamos ter de viver com menos dinheiro (pelo menos durante algum tempo).

Nos dados dos últimos 50 anos (aqueles que facilmente podem ser obtidos com poucos cliques na base Pordata), não encontramos um único em que o que produzimos tivesse sido suficiente para satisfazer a procura interna (V. gráfico).

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Isto significa que, durante todo este tempo, cidadãos e organizações de outros países nos emprestaram dinheiro para o nosso bem-estar. Mesmo que todo esse dinheiro tivesse sido “bem” aplicado, deveria ser fácil perceber que o endividamento acumulado acabaria por se traduzir em juros excessivos cujo pagamento implicaria “sacrifícios” e “empobrecimento”… o pior é que parece que uma parte importante desse dinheiro foi muito mal aplicada…

Se analisássemos com mais detalhe os três componentes da procura representados no gráfico, teríamos razões para nos preocuparmos com a tendência dos últimos 20 e, sobretudo, dos últimos 10 anos! A tendência que estava em curso no final do Estado Novo era um aumento da parcela do investimento à custa da diminuição da parcela do consumo privado. No período democrático, com pequenas variações, a fatia do consumo privado estabilizou em perto de 2/3 do PIB, enquanto o consumo público ia aumentando. A parte do PIB consumida pelo Estado começou a crescer de forma mais pronunciada a partir de 1990, tendo ultrapassado a média da zona euro em 2005. O principal problema é que esta aproximação do consumo público aos padrões europeus se fez sem a redução do consumo privado para os mesmos padrões europeus, pelo que, como é evidente no gráfico, o consumo total deu o salto a partir de 1990 e não dava sinais de abrandar até à chegada da tróica. Pelo contrário, a fatia do investimento está constantemente a encolher desde 2000.

Um dos argumentos abundantemente invocados para mandar lixar a tróica é o de que, passado um ano, a receita não está a resultar. O outro é que os “sacrifícios” são só para alguns. Infelizmente, os argumentos são parcialmente válidos, sobretudo o segundo, mas o pior que nos poderia acontecer seria agora substituir esta receita de “empobrecimento” peloschutos de dinheiro estrangeiro que não geraram produção suficiente para o nosso bem-estar de fachadados últimos 20 anos.Voltando ao gráfico, parece-me que não há como evitar a receita de baixar o consumo total, talvez para valores próximos da média da zona euro, um pouco abaixo de 80% do PIB. Ou se diminui a parcela do consumo privado, “empobrecendo” as famílias, ou do consumo público, “empobrecendo” directamente os trabalhadores da administração e das empresas públicas e os beneficiários das prestações sociais e indirectamente os beneficiários de serviços públicos vendidos abaixo do preço de custo. Ou ambos. Ao mesmo tempo, será necessário recuperar algum investimento produtivo baseado na procura externa, o que geralmente implica benefícios ao capital em detrimento do trabalho… Um xarope muito difícil de engolir por uma população que já é “pobre” comparativamente aos parceiros europeus e que sente os elevados níveis de desigualdade na distribuição do rendimento. Acho que temos trabalho para o Dr. House, embora eu preferisse um Dr. Palhaço.

1 Comment

  1. Caro Peixeira Marques:
    È verdade queremos de volta as nossas vidas, não queremos é o inferno que nos está a acontecer. Como com muita ironia e muita verdade se descreve o Estado a que chegámos. “Tudo por causa do Sócrates”!!!!!

    “Mais desemprego, novas oportunidades
    por Rui Rocha

    O primeiro-ministro tem razão. O desemprego é uma oportunidade. E a boa notícia é que há cada vez mais oportunidades. Com tantas e novas perspectivas, assistiremos em breve a uma alteração profunda do mercado de trabalho e das próprias designações das actividades profissionais. Na verdade, muitas profissões cairão em desuso e serão substituídas por novas e desafiantes ocupações. Os Solicitadores, por exemplo, serão substituídos pelos Imploradores. O Médico do Trabalho, por seu lado, dará lugar ao Terapeuta Desocupacional. Também muito solicitado será o Técnico de Higiene e Insegurança (angustiados mas asseados). Nas tarefas administrativas, os novos tempos trarão profissionais altamente qualificados: os Desempregados de Escritório. Igualmente na primeira linha do mercado de trabalho do futuro encontraremos os Terapeutas da Falta, os Mestres de Sobras e os Técnicos Oficiais de Pontas. No domínio da saúde, os Dietistas continuarão em alta. Todavia, as estrelas nesta área serão, sem dúvida, os Anestesistas. Na construção, o mercado proporcionará excelentes oportunidades para os Semtectos Paisagistas e para os Engenheiros de Infra Estruturas, estes últimos especialistas em pequenas obras como a reabilitação de vãos de escada e o recondicionamento da parte de baixo das pontes. As preocupações com a ocupação do espaço darão lugar a tudo o que diz respeito ao preenchimento do tempo, com oportunidades desafiantes para a Engenharia de Batalha Naval. Os Engenheiros Magrários e, em geral, todos os que trabalham nos diversos ramos da Magricultura e da Engenharia Magro-Industrial têm boas razões para encarar os próximos tempos com confiança. Na área comercial, o novo mundo será dos Tácticos de Vendas. Encontrar um cliente será tão difícil que vender deixará de ser uma técnica e passará a pressupor vastos conhecimentos de perseguição e emboscada. Nas ciências, destacar-se-ão os Físicos Teóricos. Embora sem a mesma garantia de sucesso, haverá também lugar para os Químicos Inorgânicos. Com boas perspectivas, surgem também as áreas da Matemática Discreta, da Nicklesbiologia (evolução da Microbiologia e da Nanobiologia) e da Citologia (o estudo das citações será fundamental para entreter o tempo). Na educação, serão criadas as novas profissões de Professor do Ensino Básico (o ensino será mesmo muito básico), de Professor do Ensino Secundário (assumindo definitivamente que o ensino é tudo menos prioritário) e, naturalmente, de Professor do Ensino Inferior. No que diz respeito às profissões ligadas à História, apesar de, em geral, as coisas não se apresentarem risonhas, aparecerão novas ocupações como a de Engenheiro Alimentar (o estudo dos alimentos integrará o ramo da arqueologia) e de Especialista em Parasitologia (persistirá, apesar de tudo, alguma curiosidade em perceber como chegámos até aqui).”

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