HELENA ROMÃO
Muito se tem debatido a portugalidade e suas caraterísticas e grandes pensadores nacionais têm dado preciosas achegas a uma tentativa de definição das nossas especificidades.
Há, contudo, qualquer coisa, que sempre intui, que tardou em tornar-se consciente e em clarificar-se e da qual poderiam surgir muitos estudos ou teses.
E essa coisa é a perceção de uma sociedade enredada numa espécie de teia invisível, um obstáculo omnipresente que poderíamos concretizar na contradição entre o que se diz e faz, nos contínuos avanços e recuos em medidas e decisões, na crítica igualmente veemente de coisas antagónicas, entre muitas outras ambiguidades.
Afigurava-se-me este padrão um enigma até que os estudos da neurobiologia vieram clarificar que a forma como pensamos/agimos decorre de um cérebro formatado por uma cultura que, qual software instalado, condiciona o processamento da informação de uma determinada maneira. A repetição e reprodução desse padrão dá origem a um paradigma sociocomportamental, um modelo com regras que se autojustifica e legitima de forma a propagar-se ao longo dos tempos.
Mais recentemente, tornou-se claro que o inconsciente coletivo continuava a agir dentro do velho paradigma mas desejando os resultados de outro paradigma (quiçá o de culturas mais racionais e eficazes). Mais. Esse inconsciente coletivo continuava a defender, à exaustão, o seu velho paradigma sem compreender aquilo que toda a psicologia já veio dizer: “para comportamentos iguais, resultados iguais”. Mais ainda. O inconsciente coletivo tardava em compreender aquilo que parecia óbvio e que era o facto de um comportamento ao tornar-se realidade ontológica, ao existir, anular outro, nomeadamente o seu contrário. (Falemos de um mundo de antagonismos, sabendo que nem tudo é a preto e branco, para facilitar a compreensão). Os exemplos que darei, de seguida, precisam de ser vistos na sua dimensão não abstrata, mas concreta, de realidade social e de paradigma dominante.
Assim, estar passivo anula qualquer veleidade de estar ativo e os resultados serão diferentes. Chegar atrasado anula qualquer hipótese de pontualidade e não há diferentes níveis de pontualidade, somente chegar à hora certa. Um paradigma desculpabilizador anula qualquer possibilidade de um paradigma de responsabilidade. Se esperamos desculpa, permissividade e indulgência não esperamos exigência, logo, não estaremos nunca a trabalhar para responder com eficácia aos objetivos e ao que se espera de nós. A caridade anula qualquer chance de reciprocidade porque se espera que seja um fim em si e ausência de reciprocidade destrói a hipótese de relações baseadas no respeito mútuo, na igualdade e na democraticidade, capazes de criar espirais positivas de desenvolvimento da maturidade. Se esperamos uma vida à custa de rendas e uma sociedade distributiva não nos preparamos para intervir positivamente em áreas ou setores produtivos. Se esperamos dependência e que alguém tome conta de nós, não nos esforçaremos para o duro encargo de cuidar de nós próprios sem nada pedirmos aos outros. Se intervimos na sociedade de forma intuitiva, empírica ouparasitária do trabalho intelectual de outrem (tipo copy-paste),não esperemos diagnósticos científicos rigorosos e intervenções à medida desses diagnósticos e das necessidades. Se esperamos enganar os outros, não esperemos que isso constitua comportamento ético. Enganar é já, em si, um autoengano mas, infelizmente, acaba por ser eficaz dada a brevidade da vida e da memória. É sabido que muitos não são particulares apreciadores de História e não têm grande memória histórica do erro. E poderíamos prosseguir referindo a nossa exigência de serviços públicos de qualidade sem querermos pagar impostos ou prescindirmos da vigilância aos serviços políticos e às instituições por nos ser exigido esforço em educação, informação e participação.
Em suma, agimos dentro de um paradigma e esperamos o resultado de outro. E ante o argumento de que as coisas não são a preto e branco e de que há cambiantes e níveis, poderemos referir que, em geral, é a cultura que define esses contornos, por exemplo, que pontualidade possa ser um atraso de quinze minutos. Todos concordaremos que o conceito exato, científico, racional e adulto de pontualidade só pode ser a hora exata. E se é verdade que dentro de um paradigma há minorias e exceções, tal circunstância só confirma a existência de um paradigma dominante que só será ultrapassado quando um paradigma emergente se lhe sobrepuser.
Ora, esta mudança de paradigma não se antevê fácil dada a ancestralidade das suas origens e a sua eficácia na captação de riqueza de diferentes origens a qual, embora parca, tem servido o modelo da distribuição de rendas. Mas, o Mundo está em crise e a fechar-se. Conseguirá este paradigma manter-se e continuar a captar riqueza externa?


É um texto bastante filosófico e dificil de interpretar quando já não se está habituada a analisar este género, contudo penso que entendi e deu para me analisar e reflectir sobre os exemplos apontados.Creio que se”este paradigma se mantiver não vai continuar a captar riqueza externa”.Não acredito mesmo. E eu só acredito no branco e no preto, para mim 9horas são nove horas, não são 9h e 5minutos; acredito que só com muita disciplina, rigor e trabalho é que se conseguem formar grandes atletas seja na natação, no serviço administrativo ou na agricultura; acredito que só os deficientes mentais, os idosos dependentes, os gravemente doentes é que necessitam de depender de outros e da ajuda do estado.Para o resto há muito e muito trabalho neste país.O governo é que criou a classe dos parasitas e dos malandros.
Embora na altura tenha dado uma olhadela por este artigo onde ,como é dito perdomina uma filosofia ,que nem todos a poderão entrepertar,eu entendo mesmo,e agora que analisei com outra visão,haver uma certa razão de ser escrito este artigo.Todavia ,e neste paradígma,é preciso muita força,e até ajuda para se atingirem os limites aqui relacionados.
Com os meus cumprimentos,e manifestando a sua falta,carissima Drª Helena Romão,não deixe de comunicar,pois como tenho dito ,é sempre com maior prazer que leio os seus eventos,pois eles são uma mais valia para o nosso jornal,e também servem de apoio à cultura de quem os observa.Muito obrigado.