Queremos mesmo de volta as nossas vidas? (2)

Carlos Peixeira Marques

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Centrei a crónica da semana passada na dívida externa, i.e. o que devemos a estrangeiros pelo facto de, ano após ano, gastarmos mais do que produzimos. Hoje centro-me na dívida pública, i.e. no dinheiro que o Estado deve a outras entidades pelo facto de, ano após ano, viver com défice orçamental, i.e. gastar mais do que as receitas que consegue obter.Devido ao aumento do consumo e às necessidades de financiamento do investimento privado, a capacidade dos portugueses financiarem a dívida pública é cada vez menor, peloque os sucessivos défices orçamentais têm dado um grande contributo para a dívida externa.

O endividamento das Administrações Públicas atingiu um nível que afastou os financiadores do mercado livre. Depois de umas colocações de dívida a juros suicidas e umas manigâncias de descapitalização da CGD e da Segurança Social, o Estado, pela terceira vez desde o 25 de Abril, foi obrigado a renunciar à soberania orçamental e a assinar um memorando de entendimento com um conjunto de medidas, devidamente calendarizadas, para: (i) diminuir o défice orçamental e a taxa de crescimento da dívida pública; (ii) tornar a economia portuguesa mais competitiva, equilibrando a balança comercial e criando as bases para um crescimento futuro que permita começar a reduzir a dívida pública (em % do PIB).

Passado pouco mais de um ano, é grande a indignação com a aplicação do memorando e ganha força a ideia de termos “de volta as nossas vidas” – de ilusão, como disse na crónica anterior. Não sendo eu um especialista em economia, creio que o problema da (falta de) competitividade é mais premente do que a dívida pública. No entanto, creio também que é preciso um bom nível de alienação para se considerar que é possível ter “de volta as nossas vidas” dos níveis de défice de 2009 e 2010! Em cada um destes anos, o Estado gastou mais 17 mil milhões de euros do que as receitas que obteve, o que corresponde a 10% do PIB. Nestes dois anos a dívida pública passou de 72% para 94% do PIB, tornando-se assim indispensável uma qualquer acção que tornasse os défices mais pequenos e abrandasse o crescimento da dívida.

Antes de mostrar uns números que poderão ajudar a minha exposição, quero deixar algumas notas sobre ideias erradas que tenho visto em muitos comentários nos media:

  1. Não estamos a pagar a dívida que outros fizeram. Sem mexer radicalmente na estrutura de despesa, isso é impossível no curto prazo. A dívida vai continuar a aumentar. Quando muito, é correcto dizermos que estamos a pagar os juros da dívida passada e estamos a pagar muito caro os juros de empréstimos “loucos” que tiveram de ser contraídos em 2009 e 2010.
  2. As PPP ainda não tiveram um impacto assinalável no orçamento. Vão ter nos próximos anos, se o Estado pagar aquilo a que se comprometeu.
  3. O Estado não está a roubar os funcionários públicos nem os pensionistas. Se há sistematicamente défice, isso significa que o Estado “devolve” mais do que cobra. Logo, o Estado está a “roubar”: (i) as gerações futuras de contribuintes, se vier a pagar os compromissos; (ii) os credores, se acabar por não pagar.

Vejamos agora os números no quadro abaixo.Relativamente a 2010, o défice diminuiu mais de 10 mil milhões de euros[i], ou 6% do PIB, ficando a dever-se 58% desta correcção à diminuição da despesa. A despesa pública, quehavia crescido ininterruptamente até 2010, já está a um nível inferior ao de 2009, tendo encolhido mais de 6 mil milhões relativamente ao recorde de 2010. Se não contarmos os juros, a redução é de 8,6 mil milhões, o que equivale a 5% do PIB. Aliás, o resultado mais impressionante do quadro é que, se não houvesse juros, não haveria défice!

Olhando para a estrutura de despesa representada no quadro, quero destacar três aspectos:

  1. A correcção mais significativa é do lado da despesa de capital, que diminuiu mais de 40%, “poupando” 4 mil milhões.
  2. A diminuição da despesa corrente é pouco substancial devido ao significativo aumento de juros e à manutenção das prestações sociais, as quais absorvem metade da despesa corrente (e, já agora, metade das receitas totais).
  3. As despesas com pessoal baixaram 15% ou 3 mil milhões, o que representa metade da redução total da dívida.

……   2010

 ..  … Jul11 – Jun12

 .. …   Diferença

M€

% PIB

M€

% PIB

M€

% PIB

Despesas totais

88.502

51

82.174

49

-6.328

– 4

Despesa corrente

78.750

46

76.463

45

-2.286

– 1

Prestações sociais

37.830

22

38.084

23

254

0

Despesas com pessoal

21.093

12

17.824

11

-3.269

– 2

Juros

4.982

3

7.267

4

2.285

1

Consumo intermédio

8.745

5

7.918

5

-827

– 0

Subsídios

1.193

1

1.096

1

-97

– 0

Outra despesa corrente

4.907

3

4.275

3

-632

– 0

Despesa de capital

9.753

6

5.711

3

-4.042

– 2

Receitas totais

71.506

41

76.006

45

4.499

3

Saldo

-16.996

-10

-6.169

– 4

10.827

6

Fonte: INE, Contas Nacionais

Vista esta estrutura de despesa, é perfeitamente compreensível que o Governo tenha “atacado” as despesas com pessoal e as prestações sociais – só estas duas rubricas representavam 82% das receitas em 2010, cifrando-se agora em 74% das receitas. Ademais, se compararmos estas duas despesas com as rubricas de receita (não incluídas no quadro), verificamos que elas equivalem à quase totalidade dos impostos e contribuições sociais que o Estado tem conseguido cobrar. Era para esta situação insustentável, nomeadamente no que respeita às prestações sociais, que “botabaixistas” como Medina Carreira vinham alertando há muito tempo… no entanto, os media preferem dedicar a sua atenção a outros buracos que, dum ponto de vista contabilístico, são menos significativos, como o BPN ou até as PPP.É preciso compreender que as prestações sociais representam hoje quase um quarto do que a nossa economia produz, o dobro do que acontecia há uma dúzia de anos. Se não enfrentarmos este problema, alguém se vai lixar – a tróica não será, com certeza.

[i] A diminuição será inferior no final de 2012, devido a perda de receitas fiscais.

4 Comments

  1. Peço desculpa aos leitores, mas, depois de ler o artigo de Mário Soares no DN do dia 2, sou obrigado a reconhecer que todo este meu raciocínio está errado! Este ilustre político, célebre por ter mandado vir o FMI por duas vezes, convencido que estava de que não tinha dinheiro para governar, revelou agora uma solução simples que evita todos os cortes na despesa pública e todos os agravamentos fiscais: «O dinheiro fabrica-se quando é preciso».
    Os meus conterrâneos sabem que o sr. Zé d’Aguieira já houvera feito idêntica descoberta há mais de 50 anos, sem dela tirar proveito. Esperemos que Mário Soares seja mais eficaz.

  2. Caro Dr. e Amigo
    As suas análises são-me importantes pelo facto de me ajudarem a discernir sobre a problemática da crise e suas origens, assim como a via para a sua saída.
    De facto, em Portugal, a ilusão do dinheiro facil quer pela vinda dos subsídios comunitários quer pelas facilidades de empréstimo, emanadas dos bancos, contribuiram para um consumismo e despesismo desenfreado por parte do Estado e pelas populações, em geral.
    O sentimento de poupança perdeu-se. Curiosamente, não se viu nenhum político, (salvo um caso ou outro) ou sindicalista a apontar para a gravidade e descalabro futuro que levaria este esbanjar de dinheiros públicos e privados. Significa, que as aplicações dos dinheiros não tiveram a necessária inteligência de o serem em moldes controlaveis e de uma forma coordenada. Viveu-se muito acima das possibilidades reais. Endividou-se (público e o privado) descontroladamente, enquanto na Europa se debatia a crise e já se apelava à poupança. Falamos já dos anos 90 do sec.. passado. As medidadas de austeridade começaram a ser aplicadas por essa altura, enquanto aqui se vivia ainda “em festa”.
    Contudo, apesar de concordar com a sua analise, discordo das medidas excessivas aplicadas actualmente pelo governo de agora. É que, não havendo dinheiro nos bolsos, não há compra. Não havendo esta não há vendas. Não se vendendo não se produz. Faltando produção…os alicerces de uma sociedade tombarão. A confiança e a esperança perder-se-ão. E, numa casa onde não há pão, todos ralham e nenhum tem razão.

  3. Caro Dr. Artur Fontes,
    agradeço o seu comentário, com o qual concordo na generalidade. Não ignoro o risco do que alguns designam por “espiral recessiva” que resulta da excessiva carga fiscal. No entanto, quero apenas precisar que o tipo de ajustamento que temos em curso implica obrigatoriamente redução do consumo e da produção. Isso estava previsto… o que não estava previsto é que o Eurostat revisse em alta os défices de Sócrates após a assinatura do memorando, obrigando a medidas ainda mais duras.
    Hoje o Farol publicou mais um artigo meu, centrado numa interpelação do PCP ao Governo do Bloco Central, há 29 anos. Aconselho a leitura do extracto da intervenção de Walter Rosa. Cumprimentos.

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