HELENA ROMÃO
Obriguei-me, hoje, a partilhar algumas reflexões com os leitores do “Farol…” e, sublinho, obriguei-me porque, se assim não fosse, não haveria tempo para tal. E como se tratou, efetivamente, de uma questão de tempo, ou da sua falta, nada melhor que refletir sobre a pretensão do governo e da Amiga Troika em procederem ao alargamento do horário de trabalho dos docentes de 35 para 40 horas semanais.
Consciente de que não se deve ser juiz em causa própria devo dizer que existem pontos que esperamos devam ser tidos em consideração por quem de direito.
Em primeiro lugar, o tempo médio gasto por um professor, numa semana normal, no desempenho do seu trabalho é já de cerca de 50 horas. Tratando-se de um final do período ou de um professor que se dedique a projetos, clubes, concursos, blogues ou outras tarefas extra horário essa média aumenta exponencialmente. E basta percorrermos a Internet para observarmos a quantidade de excelentes materiais, blogues e sites através dos quais muitos docentes motivam e tornam público o trabalho dos seus alunos.
Ora, também através de uma navegação pelo Ciberespaço pude perceber semelhante perceção em outros países. Dizia o Washington Post, em Março de 2012, que a média de trabalho docente era de 50 horas/semana. (Senão, veja-se o artigo: Survey: Teachers work 53 hours per week on average, http://www.washingtonpost.com). O britânico Daily Mail calculava, em Junho de 2012, a média de trabalho semanal, dos docentes, em 48,3 horas e cito: 70% of teachers do an ‘all-nighter’ to prepare for lessons (according to a survey for a teaching magazine which concludes they put in more hours than the rest of us), ( http://www.dailymail.co.uk).
Já o jornal de educação do Illinois (http://news.illinois.edu) afirmava que os professores trabalham 58 horas semanais, sendo um dia normal de trabalho de 10 horas. Este jornal refere ainda que, mesmo em período de férias de verão, os professores se preparam e preparam materiais, o que é absolutamente verdade.
O “20minutes” francês referia, também em Março de 2012, que: Michel, professeur de philosophie, est bien loin des 18 heures de travail hebdomadaires, évoquées par le candidat Sarkozy…” (http://www.20minutes.fr).
Depois há todo um trabalho voluntário muito típico da classe docente fora das escolas e junto da sociedade civil. Muitas professoras e professores são retaguarda de famílias, voluntárias de lares, hospitais, peditórios e angariação de fundos, teatro amador, folclore, corais, associações, bombeiros, autarquias, bibliotecas, entre tantas outras instituições que só funcionam graças a tempo e trabalho não remunerado. Há uma riqueza não contabilizável, parte da chamada economia social, que é produzida, apesar de pouco visível, como é, em geral, o trabalho feminino.
Há um trabalho de perpetuação de valores culturais e sociais que pode ser posto em causa com um horário burocrático de 40 horas semanais.
Poderia ainda, de forma extensa, debater o tempo que, neste momento, é despendido entre escolas e em viagem, porquanto sabemos muitos docentes vivem muito afastados do(s) seu(s) posto(s) de trabalho (plural porque, neste momento, o docente não sai de casa só para uma escola).
Poder-se-á argumentar que 40 horas serão, afinal, menos que 50, mas só fará essa afirmação quem desconhecer a falta de meios das escolas para trabalho simultâneo e quem desconhecer a virtude da flexibilidade que se traduz na possibilidade de trabalhar em casa, de trabalhar de noite e de realizar, até, várias tarefas ao mesmo tempo.
Muito do trabalho docente não é trabalho sala de aula, nem de gabinete, nem trabalho administrativo, nem consiste em tarefas estanques. É um trabalho em que o professor, além de ensinante é sempre um aprendente e um criativo, com pesquisas, planos exigentes, datas, períodos e calendários que não se compadecem com adiamentos como poderá acontecer com outras profissões.


O Artigo da Dra Helena Romão, mostra bem que vive na pele a situação asfixiante que os professores portugueses estão a viver.
Só quem não é professor é que não sabe as horas que se perdem com trabalhos para a escola e da escola, fora do edifício escolar e fora do trabalho direto com os alunos.Uma amiga minha que foi despedida do ensino, em 2011, ao fim duns 10 anos de serviço como docente a percorrer milhares de quilómetros por ano disse-me há dias: “Arranjei emprego numa empresa e já o devia ter feito há muito tempo.Mas precisei de sentir durante bastante tempo toda a grande falta de respeito que o governo tem por nós, os grandes responsáveis pela formação dos cidadãos de amanhã, para perder o amor a esta vocação e enveredar por outro caminho.Já não faço 200km por dia para ir trabalhar e quando chego a casa sou toda dos meus filhos e marido. Não ando ansiosa, stressada e posso desfrutar todos os fins de semana”.
O que mais me choca não são as políticas do governo, é a atitude do ministro de educação, professor Nuno Crato.Ele foi professor.Resta saber que género de professor foi.Ou então como se deixou corromper pelas políticas deste governo.Sim, deste governo e não da amiga Troika.Porque a Troika elabora as medidas que o governo lhe dita.Por que será que a Troika nunca mandou diminuir o número de deputados, o número de seguranças e motoristas que têm, os subsidios de habitação que os magistrados têm,etc.etc.?Já todos percebemos que a Troika tem as costas largas, mas nós não somos assim tão “burros”.
Obrigada, Dra Helena, pela partilha.
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