O exemplo do Santo Padre

 JOÃO FIGUEIREDO  *

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No início deste período de Quaresma o anúncio da resignação do Papa Bento XVI não deixa de ser um acontecimento digno de registo, essencialmente pelos sinais que dá à própria Igreja.

Depois do brilhante pontificado do saudoso João Paulo II, fomos todos tentados a pensar, por natural comparação, que o Papa que viesse a seguir teria uma missão difícil.

O empenho e a entrega de Bento XVI contribuíram para um pontificado marcante e cujo efeito irá perdurar na História.

Homem inteligente, culto e sensível, deixa-nos um legado de profunda dedicação, onde se destaca o diálogo inter-religiões. A sua resignação, sendo extremamente rara na Igreja, não deixa de ser um ato de extrema coragem, bondade e lucidez.

Com a idade a pesar nos seus ombros, ele fará 86 anos em breve, o Santo Padre diz-nos que sai “para o bem da Igreja”. Ao deixar livremente a condução dos seus destinos, é minha convicção que Bento XVI proporciona um tempo novo, uma renovação no interior da Igreja começada há 50 anos com o Concilio Vaticano II.

Com uma primordial e importante função na sociedade actual, a Igreja Católica deverá ajustar-se aos desafios do quotidiano sem deixar renovar os seus Dogmas de Fé.

Sabemos que tudo tem um tempo. Tudo tem o seu tempo. O Papa Bento XVI entendeu, e no meu ponto de vista bem, que o seu tempo de líder da Igreja estava a chegar ao fim.

Com um raciocínio claro e lúcido, declarou perante os que o rodeavam: “No mundo actual, sujeito a rápidas transformações e sacudido por questões de grande relevância para a vida de fé, para governar a barca de S. Pedro (…) o vigor diminui em mim de forma que tenho que reconhecer a minha incapacidade para exercer de boa forma o ministério que me foi encomendado.”

Tudo indica que ele se vá retirar para um mosteiro e se vá dedicar à oração. Estou certo que antes da Páscoa será eleito novo Pontífice, a tempo de festejarmos a Ressurreição de Cristo, este ano com uma mensagem mais intensa, reforçada com a chegada de um novo Pastor à Santa Sé.

Esta decisão do Papa remete o meu pensamento para outro patamar: como seria bom que este gesto fosse seguido por muitos outros líderes que têm responsabilidades ao nível da sociedade civil ou da vida politica! Admitindo que a maior parte deles têm, de uma forma generosa, dado muito de si às instituições e à comunidade onde estão inseridos, isso não me pode impedir de mostrar o meu completo desacordo pela forma com que alguns tudo fazem para se perpetuar no poder, já para não falar daqueles que, deixando de exercer funções, tudo fazem para limitar ou interferir na escolha do(s) seu(s) sucessor(es).

Que bom e benéfico seria se soubessem imitar a clareza de pensamento demonstrada pelo Papa Bento XVI, nesta sua decisão, e sobretudo o seu completo desprendimento do poder.

Trabalhar em prol dos outros é um dom que devemos sempre agradecer, louvar e valorizar, mas saber sair de cena com dignidade é uma atitude que, infelizmente, só alguns sabem praticar.

Sua Santidade Bento XVI soube-a. E bem.

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* Deputado do PSD

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