CARLOS PEIXEIRA MARQUES
Fábio Silva é doutorando no Instituto de Arqueologia da UCL, com interesse em cosmologia e em arqueoastronomia. Analisando a vasta base de dados sobre a orientação espacial dos monumentos megalíticos do vale do Mondego, Fábio desconfiou da ideia dominante, segundo a qual os dólmens estariam orientados para o nascer do Sol no dia do início da construção.
Recorrendo a novas tecnologias, como modelos digitais de elevação, o investigador descobriu que o horizonte visível do interior da Orca de Santo Tisco, da Orca do Outeiro do Rato, da Orca do Santo e do Dólmen da Orca era muito parecido, incidindo numa determinada área da Serra da Estrela. Insatisfeito com o fraco ajustamento de explicações solares ou lunares para a orientação destes quatro monumentos do no nosso concelho, Fábio procurou uma explicação nas estrelas – e parece tê-la encontrado! Recriando o céu que os habitantes locais viam há seis mil anos, verificou que era possível, do interior dos quatro dólmens, observar o nascer de duas estrelas “vermelhas” bastante brilhantes: Aldebarã e Betelgeuse. Conseguiu ainda determinar que, depois do “apagamento” no Inverno, estas estrelas reapareciam aos nossos antepassados, respectivamente, em finais de Abril e em finais de Maio.
Para corresponder ao modelo económico e demográfico vigente na teoria, Fábio considera que os construtores dos dólmens viviam aqui durante o Outono/ Inverno, alimentando-se de caça e de reservas vegetais, com especial incidência na bolota, partindo para pastoreio na Serra da Estrela no início de Maio, após o reaparecimento de Aldebarã. E assim se encontra uma explicação científica para a lenda da origem do nome Serra da Estrela: «Conta o povo que o nome Serra da Estrela foi dado em tempos que já lá vão por um pastor que vivia em parte incerta no Vale do Mondego. Passava as noites a contemplar uma estrela que brilhava tanto que iluminava o cimo de uma serra próxima. Até que se decidiu e foi ao encontro daquela luz cintilante que o atraía tanto, na companhia do seu fiel cão. Depois de muitos dias de subida chegaram ao cume. Impressionado com a luminosidade da estrela, disse para o seu cão: a este lugar que parece favorito dos astros vou chamar Serra da Estrela e a ti que me acompanhaste vou dar-te o mesmo nome».


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