HELENA ROMÃO
A atual situação em que nos encontramos trouxe-me à memória o site americano (cracked.com) de curiosidades humorísticas que, há alguns anos, lançou uma votação sobre as dez palavras estrangeiras que os internautas achavam que faziam mais falta à Língua Inglesa (The 10 Coolest Foreign Words The English Language Needs). Entre elas havia uma palavra portuguesa que acabou por angariar o maior número de votos. Ora, o vocábulo português em questão era, nem mais nem menos, desenrascanço.
Honrando a sua fama, o vocábulo desenrascou-se bem da ilustre concorrência internacional que incluía vocábulos das línguas francesa, alemã, japonesa e coreana, entre outras. Curiosamente, o mesmo não aconteceu com os redatores da página que, não encontrando no teclado inglês o cê cedilhado (ç), não se conseguiram desenrascar da situação escrevendo desenrascanco.
A reflexão, que ora partilho, resultou do facto de esta característica estar definida como “a arte de encontrar a solução para um problema no último minuto, sem planeamento e sem meios”, dando-se como exemplo a célebre personagem da série televisiva MacGyver. Senti, de imediato, que o nosso desenrascado, apesar dos óbvios pontos de contacto, não era lá muito parecido com o MacGyver.
De facto, ele era um criativo com imensa cultura técnica e científica e sabia aplicá-la a objetos comuns ou domésticos. Nas suas mãos vulgares cabos elétricos, clips ou molas de roupa tornavam-se perigosos tóxicos ou explosivos e armas letais. Assim, MacGyver seria uma espécie de engenheiro de materiais, profundamente conhecedor das propriedades físicas e químicas dos produtos a que aliava notáveis doses de calma, rapidez e intuição.
Talvez por incluir essa componente, o desenrascanço tem sido visto como virtude nacional mesmo pela elite culta em que poderíamos incluir o professor José Hermano Saraiva (num dos seus programas).
Ora, se há coisa que o desenrascado tem é não se preparar, aliás, nunca se ter preparado. Por isso, além dos aspetos referidos, ele utiliza basicamente conhecimentos da experiência prática, aliados a grandes doses de senso comum, agindo por tentativa-erro. E se há traço que tenho observado no povo português é a generalizada dificuldade em aplicar e transpor, para a vida prática e quotidiana, os conhecimentos científicos que aprendeu na escola em áreas como a matemática, as ciências, a história ou as línguas.
Efetivamente, por cá, os ensinamentos da escola parecem não servir para planear a vida nem resolver problemas quotidianos, calcular percentagens, separar os resíduos domésticos, cuidar da saúde e da alimentação, fazer escolhas, tomar decisões racionais, pesquisar em línguas estrangeiras, entre tantas outras utilidades.
É certo que, na década de 60, os portugueses chegaram a França e se desenrascaram com a língua e com os empregos mas as novas gerações enfrentam mais dificuldades.
Não podemos negar, também, que muitos dos pequenos, médios e mesmo alguns dos grandes empresários se lançaram sem apoios e foram uns desenrascados.
Mas, tudo isto se passava num modelo económico que oscilava entre o tradicional e o dirigista e corporativo. Nesse modelo, o português desenrascava-se a ser barbeiro, canalizador, pintor, condutor e construtor através da aprendizagem prática, quase ao estilo dos ofícios medievais, sem grande preparação técnica e científica ou profissional.
Os jovens de hoje estudaram mas parecem em dificuldades. Terão perdido a capacidade de se desenrascar?
Talvez tenhamos, então, que desmistificar as supostas virtudes do desenrascanço.
Efetivamente, o desenrascanço acontece sobretudo em situações em que não se sabe fazer algo de forma racional, técnica ou científica, em que não houve preparação nem planificação, não houve meios ou recursos (pobreza) ou não houve tempo porque se deixou para o último minuto, sem desprezo pelos imprevistos que existem mesmo em situações programadas.
O desenrascado não sabe planificar, traçar objetivos, calendarizar e definir prazos, implementar estratégias e, por fim, avaliar os resultados reformulando os objetivos.
Como é de prever, quanto maior for o nível técnico e a exigência da ação mais preparação será necessária, seja na política, nas organizações ou nas empresas.
O excesso de informalidade provoca desconfiança nos mais preparados, terá dito Melo Pires, o diretor da AutoEuropa. O que os preparados pensam do desenrascado é que ele se safou uma e outra vez, mas que haverá uma próxima em que nos vai colocar a todos em risco (de não atingirmos os objetivos/resultados e de desperdiçarmos recursos, tempo e oportunidades) até ao nível da segurança.
O desenrascado sobrevive da pouca exigência e da má avaliação de resultados, prazos e recursos e também de haver poucos recursos.
Desenrascam-se uns pneus, uns travões, uns números, a conclusão de uma obra… Enfim, o desenrascanço é o Portugal no seu melhor. O desenrascado acha-se mais esperto que os outros que subestima.
Decorre daqui que o desenrascanço tem qualquer coisa de pouco ético “desenrasca-te como puderes…” e de egoísta “cada um que se desenrasque” impedindo um projeto coletivo, embora possa favorecer algum do sucesso individual.
Enfim, a forma como aproveitamos as oportunidades e o enrascanço em que nos encontramos parecem confirmar a ineficácia do desenrascanço.
Mas se desenrascanço fosse a mesma criatividade e agilidade de resposta em pessoas bem preparadas, aplicada à resolução de problemas imagine-se o que não seríamos nós… De alguma forma pode ser que a atual crise promova uma nova forma de desenrascanço contando desta vez com a capacidade técnica, científica e ética dos portugueses.


Dra Helena Romão
Gostei bastante de ler a sua reflexão sobre o “Desenrascanço”.
Desde que comecei a frequentar a aldeia mais assiduamente deparo-me com verdadeiros “engenhocas” a desenrascarem-se contra as dificuldades que surgem, de uma forma que me espanta. Como se diz, a falta de dinheiro “aguça o engenho” e eu própria, que não me considero nada desenrascada, já dei comigo a desenrascar-me com algumas engenharias que aprendi lá. Há pessoas com um jeito muito natural para o desenrascanço, outras nem tanto e outras mesmo nada. Mas o homem tem uma grande capacidade de se adaptar e desenrascar. É o que vale ao povo Português. De todas as personagens que estudei e que mais me apaixonaram na área do desenrascanço foi o Rei D. Afonso Henriques. Que arte para se desenrascar dos Mouros, do Primo, do Papa, da Mãe…Ele foi mesmo o pai dos desenrascados!
Depois também existem os “chicos- espertos”, mas esses já têm ouras intenções.
Muito obrigada pela partilha de opiniões e saberes