Dez por cento de inspiração e noventa por cento de transpiração

HELENA ROMÃO

Helena Romão.jpg.

Einstein terá afirmado, um dia, que “em tempo de crise, a criatividade é ainda mais importante que o conhecimento”, numa aparente dicotomia complementada com outra frase em que o cientista referia que “criatividade é a inteligência a divertir-se”.

De facto parece consensual que, além da óbvia dimensão emocional, a criatividade comporta uma dimensão cognitiva, experiencial e da personalidade e que, longe da ideia de talento inato, nos encontramos perante uma capacidade que se pode aprender, treinar, desenvolver e ensinar na escola e em outros contextos.

Eis o que explica que “génio sejam 10% de inspiração e 90% de transpiração” na expressão feliz de Thomas Edison que terá necessitado de mais de mil experiências para produzir a sua lâmpada, aparentes fracassos que considerou aprendizagens sobre “as maneiras de como não fazer a lâmpada.”

Aproveito para referir uma TED talk que visualizei há alguns dias. (TED talks e TED speakers estão na moda). O TED speaker, falava de impressão 4D (qualquer coisa como uma impressão 3D programada para se autotransformar ao longo do tempo) e foi então que pensei que a criatividade não tem limites.

Lembrei-me, também, de Ken Robinson um TED speaker veterano, que quando começou a dar voltas pelo mundo ainda se lhe chamava conferencista, que vem defendendo a tese de que “as escolas matam a criatividade”. E isso é, até certo ponto, verdade.

Se analisarmos as formas de comunicação, as ideias e propostas políticas europeias e mesmo o jornalismo poderemos verificar que a criatividade é escassa. O discurso político e jornalístico apresenta uma unanimidade que ultrapassa fronteiras e que nos obrigaria a estudos e reflexões.

Deixamos (e a escola também) que pensamento crítico, analítico e criativo seja dominado por medos, crenças e ideias feitas e somos mais vulneráveis (individual e coletivamente) porque o lado cognitivo destas formas de pensamento não foi treinado e recheado de informação e experiência. A criatividade é como um músculo que precisa de ser continuamente exercitado.

Acredito que seja insuficiente o treino da criatividade nos sistemas de ensino em que se privilegia o pensamento convergente em detrimento do pensamento divergente, o “Think outside the box”. De facto, treina-se a memória e um tipo de pensamento unívoco e monolítico orientado para obter uma única resposta a uma situação, um pensamento de base racional, científica e lógico-dedutiva nada criativo e sem lugar para a imaginação ou a intuição. Deste tipo de pensamento advêm comportamentos rigorosos, mas conformistas, prudentes e limitados.

Na sua ausência existe sobretudo impulso emocional o que ainda é pior. Daí que venha defendendo que existiu défice de racionalidade ao longo dos anos em que alegremente nos afundámos em despesismos e insanidade hedonista.

Neste momento creio poder afirmar que existe, na Europa, défice de criatividade nos estados e nos cidadãos. Parece que, demasiadas vezes, mobilizamos os recursos na inversa proporção da necessidade.

É neste momento de crise que a emoção e o entusiasmo são mais necessários e que a criatividade deveria ser posta ao serviço da resolução de problemas. De notar que a criatividade tem que somar à ideia luminosa, o trabalho (agradável) e a consciência racional. Daí que se tenha criado o conceito de criatividade racional, a qual alia a ideia à estratégia, à planificação e à execução.

Mas, mesmo que a criatividade não nos tenha sido treinada, existem técnicas para a desenvolver e para se manter criativo como por exemplo: visitar exposições, escutar diferentes tipos de música, mindmaping, trazer um bloco de notas, observar, ver, saborear, cheirar, fotografar, escrever, blogar perguntar, entre tantas outras.

Portugal está carente de criatividade e ela pode ir da simples ideia que inova, melhora e soluciona, (aos níveis do Estado e das empresas) até à criatividade das famílias num “do it yourself” que lhes permita prevenir gastos monetários, recurso com o qual não podem contar como antes. Criatividade é ainda visão, ação e decisão: pôr mãos à obra e acabá-la com prazer e energia acreditando que vai ser possível…

1 Comment

  1. Dra Helena Romão
    Abordou outro tema pertinente e importante. Para além de tudo o que defende quanto a educação e preparação, infelizmente nestas últimas décadas também educámos as crianças e jovens num mundo de facilitismo e isso levou-as a desvalorizarem os “noventa por cento de transpiração”.
    “Criatividade é ainda visão, ação e decisão: pôr mãos à obra e acabá-la com prazer e energia acreditando que vai ser possível”…
    Considero uma pessoa inteligente não aquela que tem altas notas a Matemática ou Inglês, não aquela que tem um curso superior, mas sim aquela que sabe resolver com sabedoria e com prudência, os problemas da vida por mais simples ou complicados que sejam.
    Vivemos um período de grande crise, mas nem todos, porque muitos souberam sempre orientar-se com prudência, nunca vivendo de facilitismos nem a gastar mais do que produziam, guardando sempre alguma coisa para os dias menos bons que pudessem surgir.
    O povo português tem mostrado, ao longo da sua história, que é capaz de criar, decidir e mudar. Temos de acreditar que ele, depois de sentir que não lhe vale nada revoltar-se, porque gastou nove milhões de euros por dia durante muito tempo, e que esse dinheiro tem de ser pago pelos que o gastaram e pelos inocentes, vai criar situações para se libertar, para se erguer e para continuar, como sempre fez

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.


*


Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.