É BRANCO!

HÉLIO BERNARDO LOPES *

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Porra, caro leitor, o meu amigo é teimoso como a potassa! Já lhe disse que é branco! Não, isso foi anteontem. Anteontem é que foi preto. Ó porra: anteontem foi preto, hoje é branco! Caramba!! Estou a falar consigo e o meu caro a fingir que não conhece o que se passa.

Sim, eu sei que está atento, e que é uma pessoa culta. É um daqueles que está aqui a mais. Ah!… Não, na passada semana, creio que na sexta-feira, é que era azul. Mas na sexta, porque na quarta-feira tinha sido verde. Sim, isso é verdade, porque certos tons de verde quase parecem azuis.

Claro, hoje é branco. Amanhã? Sei lá! Talvez castanho, embora eu propenda mais para o vermelho. Por acaso é vermelho e não encarnado, mas costumam usar-se as duas palavras. Sim, sim, pode perfeitamente vir a ser com riscas. Pelo menos, até agora, ainda não surgiu um tal colorido.

Ah, esse é doido. Fizeram dele um mito, o que leva quem o ouve ou vê a ir na onda. Parece que está a falar verdade. É doido, é. De resto, vê-se perfeitamente. É um problema nervoso, de parceria com atrevimento e ignorância específica. Ah, pois é, não passa do mesmo. Ele a falar é como o Sol a corar.

Não, nunca foi meu professor, até porque estava já jubilado quando cheguei à universidade. Escrevia sempre os seus textos em italiano e publicava-os em Itália primeiro, só depois traduzindo os mesmos para a nossa língua. Era um amigo muito íntimo de Túlio Levi Civita, da Academia dos Linces.

Pois era: costumava dizer-se que olhava para zero com um olho e para infinito com o outro. Mas esse, tal como o Sebastião e Silva, eram verdadeiras sumidades. Este é um fala-barato, para lá de doido. Às vezes chega a ser gracioso ouvir algumas das bestialidades que pronuncia, mas é doido.

Completamente diferente, compará-lo com Sebastião e Silva ou com Mira Fernandes, é um sacrilégio. Ah sim, também já se pronunciou, mas a favor do preto escuro. O que é o preto escuro? Sei lá?! Ele é que se referiu ao preto escuro. O mais provável é ser o preto, mas sentido com o cérebro dele mesmo. Aí é que o meu caro tem toda a razão: é mesmo um buraco negro.

Pois não. Foi o que em tempos se deu com o nosso histórico Vicente, o irmão do Matateu, que também perdeu a visão estereoscópica, por causa de um desastre de automóvel. Claro que não, porque olhar para infinito e para zero ao mesmo tempo necessita de dois olhos. Um só não chega. Teve que deixar de jogar, embora pudesse falar normalmente. E mesmo que se determinasse a dizer um chorrilho de asneiras!

Oiça: já lhe expliquei que hoje é branco e que não sei qual será a cor amanhã. Sim, mas o doido não está aqui. O tipo, por vezes, acerta. Em geral, ele só acerta quando não acerta. Não percebe? É fácil: em geral, não acerta, portanto, quando acerta, também não acerta.

Estou tonto, e com dores de cabeça… Que raio estive eu para aqui a escrever?… Já sei: foi mais uma das minhas crises de sonambulismo. Mas isto tem lógica… Mas quem é que será o doido?… É verdade que Portugal vai à deriva, portanto isto das cores tem a sua lógica… De facto, hoje é branco!… Portanto…será o tal preto escuro?.. Ah!,…o doido… Ora…o zero…o infinito… Só se for o tal problema que atingiu o Vicente?… Bom, que lixe! Para que hei de eu estar para aqui a pensar no doido e no dia de amanhã? Logo se vê a cor que aí virá amanhã e logo terei a oportunidade, para a semana – ou é amanhã?…–, de ouvir o que nos dirá o Pancadonas. Vou mas é tomar uma biquiperazita, para desanuviar das sessões contínuas daquele gajo. Mitos!

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 * Antigo professor e membro do Conselho Científico da Escola Superior da Polícia

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