Quinta, 30 Out 2014

Hélio Bernardo Lopes — Terça-feira, 30 Julho 2013 — 0 Comentários

A ÚLTIMA ENTREVISTA DE MÁRIO SOARES

HÉLIO BERNARDO LOPES *

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No passado sábado Mário Soares concedeu ao i uma curta mas interessante entrevista, onde abordou, em síntese, quatro temas essenciais: o papel atual do Papa Francisco e de Barack Obama, o da sua recente desilusão com António José Seguro à frente do PS, a situação do Governo atual, e, por arrasto, o da moção de confiança que hoje é apresentada pelo Governo na Assembleia da República. Vejamos, então, cada um destes temas.

Em primeiro lugar, o papel que vem sendo desempenhado por Barack Obama. Diz Mário Soares que o presidente norte-americano é um humanista, e é uma autêntica realidade. Quase tenho medo de imaginar o que sucederia hoje por todo o Mundo, incluindo os Estados Unidos, se Mitt Romney tivesse sido o vencedor da anterior peleja eleitoral, mas também o que poderá vir a ter lugar se Hillary Clinton não vier a ser a sucessora de Barack Obama.

Simplesmente, e como Mário Soares muito bem sabe, um general não faz um exército, de molde que não basta elogiar, mesmo que justamente, o atual presidente norte-americano. É essencial apontar o papel que os Estados Unidos estão hoje a desempenhar por via da sua inércia histórica, como o recente caso da espionagem eletrónica praticada contra amigos ou inimigos, pessoas individuais ou coletivas. E tudo graças à coragem ética de Edward Snowden, personalidade sobre quem Mário Soares se não pronuncia e muito menos com ele é abordada pelo entrevistador.

Em segundo lugar, o Papa Francisco. Bom, Mário Soares parece exultar com o atual Pontífice, como que esquecendo que fosse Bergoglio ou Ratzinger, ou este ou Woytila, a sua atitude num tempo de pobreza e miséria – veio para ficar – teria sempre de ser deste tipo que agora se vai vendo, muito voltado para um aproveitamento de tipo populista, digamos assim.

Além do mais, o nosso antigo Presidente da República faz por esquecer que, afinal, o Banco do Vaticano lá vai continuar, embora agora com (uma suposta) supervisão. Mas não é verdade que todos os restantes bancos do Mundo sempre tiveram supervisão? E não é igualmente verdade que, mau grado tal, se deu o que todos pudemos ver e que nos faz agora sofrer a todos e sem horizonte? Portanto…

Acontece que esta visita ao Brasil levou a que chegasse ao Papa Francisco um pedido de associações mexicanas das mil e uma vítimas da tristemente célebre ação pedófila dos Legionários de Cristo, cujo líder tão protegido foi por João Paulo II, agora a caminho de uma canonização quase à velocidade da luz. E o que vai fazer o Papa Francisco, perante esses pedidos? E para quando o esclarecimento perante a ONU e a Justiça Penal Internacional sobre a responsabilidade do que se passou? E quando serão abertos os arquivos sobre o tempo do Holocausto? Vendo bem, as coisas só aparentemente parecem andar para diante…

Em terceiro lugar, a desilusão de Mário Soares com António José Seguro, mormente por via da mensagem que este lhe terá feito chegar através de Almeida Santos. É uma reação nova e até estranha. E isto porque o que António José Seguro se preparava para fazer estava completamente na linha de sempre do PS: a direita grita, o PS cede. Foi sempre assim.

Acontece, porém, que quem rompeu face às cedências que já fizera foi Pedro Passos Coelho, ou não teria proferido as palavras que utilizou na Assembleia da República e também nessa noite, na transmissão em direto da sua intervenção inicial no Conselho Nacional. De resto, António José Seguro até dera conhecimento a Mário Soares de que iria ter lugar um acordo, embora ainda hoje não se saiba o que chegou a estar sobre a mesa. Um dado é certo: tal acordo não serviria para nada, porque seria sempre incontrolável por parte dos dirigentes do PS.

No fundo, parece que Mário Soares se aproveita, neste caso, da oportunidade que o Presidente Cavaco Silva acabou por fornecer aos que, com alguma razão – são décadas de História – temeram uma completa cedência de Seguro à Maioria-Governo-Presidente. Estratégia que, de resto, continua bem viva e reiteradamente apontada pelo Primeiro-Ministro e pelos ministros mais visíveis.

Deste modo, a antes que se mostre tardio, convém que Mário Soares e os ainda detentores de uma coerência ideológica mínima por parte do PS comecem a preparar-se para a mais que provável nova jogada de cedência do PS à atual Maioria-Governo-Presidente, porque ela está aí, por acaso até apresentada como o essencial clima de união nacional. É bom que Mário Soares e os que ainda detêm uma pequena centelha de coerência doutrinária se não deixem ultrapassar por esta nova realidade já agora a despontar.

E, em quarto lugar, a farsa da moção de confiança que hoje tem lugar na Assembleia da República. Dizem alguns que se trata de uma operação de cosmética virada para os mercados. É possível. Mas o que é verdade é que esta moção de confiança tem lugar num país real, onde a população vive completamente alheada da política prosseguida e com a mesma revoltada. No fundo, esta atual maioria parlamentar só se mantém porque aos portugueses o Presidente Cavaco Silva recusa o direito de se poderem manifestar em eleições livres, uma vez que PSD e CDS/PP levariam uma autêntica tareia eleitoral. Um apoio a que tem de juntar-se o da grande maioria dos bispos católicos portugueses.

Enfim, foi uma entrevista com interesse, mas de onde sobressaem duas ideias: Soares admite, naturalmente, que esta maioria irá até final da legislatura e achará que o PS precisa de um líder mais acutilante, capaz de liderar, ao invés de se deixar arrastar para a proposta armadilhada que foi apresentada, inutilmente, pelo Presidente Cavaco Silva.

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* Antigo professor e membro do Conselho Científico da Escola Superior da Polícia

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