DEMOCRACIA, LIBERDADE E PAZ

HÉLIO BERNARDO LOPES * 

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Poucos duvidarão hoje de que a democracia, lamentavelmente, perdeu credibilidade, e um pouco por todo o Mundo. Uma realidade que se nos mostra completamente dependente de três fatores principais: o triunfo neoliberal, quase sem limites, a globalização, e o claudicar da generalidade dos políticos de hoje, que deitaram os seus valores para um plano completamente secundário face à riqueza e à criação de lucro.

Por via destas realidades, a democracia deixou de ser razoavelmente representativa, mesmo em domínios absolutamente centrais. Precisamente o que se passa com a triste ideia de Barack Obama para com a Síria. E quem diz o presidente norte-americano, diz a generalidade dos líderes políticos europeus, que continuam a atuar, neste domínio, com os históricos avanços e recuos a que nos habituaram, sendo facilmente percetível que, sem o Reino Unido ou sem o recurso a armas nucleares, nunca se atreveriam a entrar numa peleja de que sabiam sair perdedores garantidos.

Mas o mais notável sinal de que as democracias de hoje já não são representativas reside no desprezo mostrado pelos líderes dos diversos países atlânticos face ao sentimento das suas populações, hoje muitíssimo generalizado. Sobretudo, porque aquelas de há muito sabem que quem mente uma vez mente sempre e porque puderam ver o fantástico embuste das armas de destruição maciça do Iraque, que, afinal, nunca existiram. Uma farsa cujo custo se saldou em cerca de meio milhão de mortos. No mínimo.

Hoje, em face do que está a passar-se na Síria, e perante o que os povos atlânticos sabem já do passado, há uma imensidão de norte-americanos que recusa uma agressão à Síria. Uma imensidão a que se adicionam outras, percentualmente ainda maiores, mas de ingleses e de franceses. E a que se pode juntar uma mais vasta de portugueses, atingindo um valor próximo dos oitenta pontos percentuais.

Perante o fantasma de mais uma guerra, o Papa Francisco pediu para ontem uma vigília de oração e jejum pela Paz. Um tema sobre que já falei num texto meu de ontem. Mas para hoje, domingo, foi determinado que seja lido nas missas um pedido pela Paz na Síria, no Médio Oriente e no Mundo inteiro, por intercessão da Virgem Maria, Rainha da Paz, orando ao Senhor.

A grande verdade é que se dispõe hoje, e por partes vastas do Mundo, de um enorme grau de liberdade, mas sem que esta acabe por se materializar na explicitação de vontades, de preferência vastas, que sejam depois tidas em conta pelos dirigentes políticos. Exatamente o que hoje se está a passar com o caso da Síria.

Não deixa de ser interessante comparar a enorme capacidade de análise do nosso general José Alberto Loureiro dos Santos na sua mais recente intervenção no programa, OLHAR O MUNDO, em face dos limitadíssimos argumentos do Primeiro-Ministro Britânico, na sua conclusão com base no erradíssimo modelo conceptual que apresentou aos jornalistas em S. Petersburgo. E nem sequer duvido da evidência das considerações de certo académico da Universidade de Beirute, especialista em Direito Internacional Público, em quanto ali referiu sobre Bashar Al-assad e sobre a situação no terreno. É uma realidade que resulta por via de evidência forte e simples.

Este caso da Síria, em essência, permite perceber três coisas: que Barack Obama, infelizmente para o Mundo, se mostrou como um bluff; que os líderes europeus são, de facto, uns incapazes políticos, que continuam alinhados e obedientes perante os Estados Unidos, mesmo depois de se saberem espiados a toda a prova por estes; e como se pode colocar o poder de um Estado que de há muito se vem mostrando bastante moderado, embora sem ser uma democracia, nas mãos de novos jihadistas!

É bem verdade, como um dia disse, num dos nossos canais televisivos, Adelino Amaro da Costa, que o direito à asneira é livre. Resta-me, por tudo o que aqui escrevo, repetir o pedido pela Paz na Síria, no Médio Oriente e no Mundo inteiro, por intercessão da Virgem Maria, Rainha da Paz, orando ao Senhor.

  .

 * Antigo professor e membro do Conselho científico da Escola Superior da Polícia

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