INGENUIDADE OU LATOSA?

HÉLIO BERNARDO LOPES *

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Cada um, como usa dizer-se, é para o que nasce. Precisamente o ditado que, há um tempo atrás, apliquei, digamos assim, a Manuela Ferreira Leite, mas ao redor das suas intervenções como comentadora política. Está a anos-luz de para aí estar dotada, assim como se dá com Rui Machete e a vida política, agora que terá percebido que a de outro tempo não era como a de agora. Talvez não fosse nada má ideia que não continuasse na atual…

Ora, quando Manuela Ferreira Leite começou a liderar o PSD, ainda com a existência da maioria absoluta de José Sócrates, foi possível ouvir-lhe, em certo dia, na Assembleia da República, que, consigo à frente do Governo, ninguém deixaria de estudar por não ter meios.

Como se perceberia facilmente, Manuela Ferreira Leite nunca poderia levar Sócrates de vencida. E mesmo Pedro Passos Coelho só o conseguiu fazer graças a ter colocado o interesse pessoal e partidário acima do de Portugal, ao reprovar o PEC IV e ao ser aí, inacreditavelmente, apoiado pelo PCP e pelo Bloco de Esquerda, ao mesmo tempo que recebia de Mário Soares o enorme apoio que foi possível ver.

Hoje, o PSD, mas sem Manuela, está no poder e, como se sente bem na pele, e se percebe que se trata de uma realidade destinada a continuar, o desastre que sobreveio sobre a generalidade da população português é imenso e está a assumir foros de tragédia.

Pois, num dia destes, creio que no Porto, foi possível ouvir de Manuela Ferreira Leite esta consideração: o regresso à mão de obra barata seria uma fatalidade. Claro que o tempo do verbo está ali mal aplicado, porque essa fatalidade é hoje uma realidade híper-palpável. E dolorosamente. Para já não falar no desemprego, na pobreza daí advinda, na miséria humana surgida, na emigração, por aí afora.

O que para mim é estranho é admitir que Manuela Ferreira Leite pudesse imaginar que o desfecho do triunfo neoliberal pudesse ser outro que não este. Como me parece estranho que Manuela Ferreira Leite não esteja a par de que o sistema de crescimento e de consumo sem limites, até incontrolável, como é o do capitalismo, pudesse conduzir a outro resultado que não o atual.

Não posso duvidar de que Manuela Ferreira Leite, dispondo de formação católica, tem de perceber que a visão capitalista da vida, entretanto triunfante, nada tem que ver com valores ligados ao Transcendente ou a uma qualquer comiseração para com quem quer que seja. A regra, desde sempre conhecida, é a do salve-se quem puder, suportada na ideia de que há gente no Mundo que é de primeira, e que terá de ser rica, e o resto – a grande maioria –, que, sendo de segunda, ou mesmo de terceira, nem sequer conta para o que quer que seja. Vejam-se os casos dos pretos na antiga África do Sul, ou dos aborígenes, na Austrália, ou dos índios, na generalidade do continente americano. Até em França, uma sondagem recente mostrou que os franceses acham que o racismo está a aumentar, o que é uma evidência por todo o lado. E Lampedusa? Acaso é expectável acreditar que Durão Barroso ali se teria deslocado se o não tivesse feito, uns dias antes, o Papa Francisco? Claro que não! Por um lado, porque a correlação é positivamente unitária e, por outro, porque casos deste tipo, com dimensão diversa, têm sido, infelizmente, aos magotes.

Espero que, num dia destes, talvez numas memórias, Manuela Ferreira Leite nos venha reconhecer que a sobrevivência do Mundo que ainda temos pressupõe uma ordem que tenha a pessoa, e seja de onde for, como o centro das preocupações dos Estados e das instituições, e olhada numa perspetiva de transcendência. Só com continhas de economistas, bom, o resultado é o desastre que se vê e se pressente.

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 * Antigo professor e membro do Conselho Científico da Escola Superior da Polícia

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