APONTAMENTOS DE 2013

HELENA ROMÃO

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Quando se tem a tendência natural para observar e ir registando impressões dessas observações é, também, natural que se reflita criticamente sobre elas.

APONTAMENTO I

No nosso país, os anos da democracia fizeram nascer um conjunto de dogmas que, não sendo religiosos, têm raiz ideológica e se foram tornando tabu, o que impede a sua discussão e a alteração do real que lhes subjaz.

Entre eles conta-se o Exame. Em 2013 foram reintroduzidos exames no 4º Ano. A discussão instalou-se e foram apelidados de retrocesso, processo de seleção, processo traumático e até “perversão”, na opinião de uma Pedagoga, doutorada em Ciências da Educação, em artigo do “Educare.pt” datado de Agosto último.

Pois bem. Aquilo a que pude assistir foi a um conjunto de crianças calmas e bem dispostas, com um arzinho de vaidade responsável (pelo seu crescimento), aceitando com tranquilidade e naturalidade a prova que lhes era dada realizar.

Acredito que a modalidade de avaliação “Exame” possa ser dispensável em sociedades onde se valoriza muito a educação constituindo uma área de grande investimento do Estado, dos pais e das próprias crianças. De facto, ao contrário de outras culturas generalizou-se, por cá, uma espécie de tese do investimento/esforço mínimo na educação, algo quase dispensável e marginal na vida do cidadão.

No caso português, se é facto que os pais já estão atentos a todos os percentis do crescimento dos seus filhos (e ainda bem), também é facto que estão, ainda, afastados do conceito de desenvolvimento de capacidades (a melhorar) para o qual a escola criará oportunidades que estão longe de ser aproveitadas.

Por outro lado, o que um conceito construtivista de desenvolvimento implica é que haja evolução positiva e que as etapas desse desenvolvimento coincidam, tendencialmente, com determinada fase cronológica da vida da criança (de forma flexível, é claro).

Poder-se-ia dizer que os professores estão habituados à medição do desempenho e performance das crianças (a nível de conhecimentos e não do desenvolvimento, diga-se) e que algumas medições nacionais eram, já, realizadas no 9º e no 12º Anos.

Mas poderemos dar-nos ao luxo de esperar até aos 18 anos (dos jovens) para identificar lacunas, défices e problemas cognitivos e do raciocínio, entre outros? Quais as oportunidades que há depois de os corrigir? Sim. Já sei que os exames não parecem servir para isso. Mas, conhecemos os nossos meninos? O Ensino que temos permite a transferência cognitiva? Habilita os meninos para a resolução de problemas? Ensina a tomar decisões racionais limitando a impulsividade? Não poderão, agora, os zelosos cientistas da Educação pegar nos resultados dos alunos e estudar as áreas em que o ensino não está a atingir os resultados esperados e as capacidades que pode não estar a desenvolver, questionando conteúdos, métodos, crenças e barreiras, de forma a produzir propostas de reforma e ajustamento ou, quiçá, um novo design educativo?

APONTAMENTO II

Uma enorme ambivalência (e tenho que concordar com o Professor Carlos P. Marques) nasceu da confusão instalada de que algumas liberdades são boas e outras nem tanto. As pessoas parecem desejar liberdade política, religiosa, de expressão, sindical e outras, mas não liberdade económica. O Liberalismo é atacado sob as mais diversas expressões sendo coisa que, de facto, não se divisa tenha existido alguma vez em Portugal país, desde sempre, dependente da empresa estatal. O liberalismo não se conforma com os fenómenos de nacionalização e estatização que se realizaram e nem mesmo a relativa liberalização, operada por alguns governos, implantou um regime económico que implica liberdade económica, baixa intervenção estatal, fortes níveis de iniciativa privada e forte competitividade e concorrência intra e intersectorial. Esta conceção não significa a anulação do Estado. Significa, sim, que o Estado assume um papel essencialmente regulador dessa concorrência e do mérito, entre outros.

Ora, nada disso está presente na proteção de grupos económicos, na concertação de preços entre empresas, na falta de transparência ou numa seleção de pessoal que se submeta a outro critério que não o do mais competente. A liberdade (regulada) é decerto a melhor condição para o desenvolvimento, mesmo nas crianças e jovens. Só em liberdade há energia, criatividade, entusiasmo, diferença, inovação, produtividade. Acredito que os processos de privatização que têm acontecido são força da imposição externa, sem a qual não aconteceriam, e vejo, com agrado, emergir uma força empreendedora liberal (de gente livre) criadora de novas empresas ou novos conceitos com propensão para a sustentabilidade e a geração de riqueza, sem a obsessão dos apoios e subsídios estatais. Acredito que quando se exageram os epítetos aplicados ao Liberalismo se está a omitir a realidade da ditadura financeira sobre o tecido económico, problema que existe quando o consumismo não permite poupanças privadas e quando as empresas não se conseguem financiar sem recurso à banca.

APONTAMENTO III

Um constrangimento ideológico da nossa sociedade decorre da confusão entre igualdade de oportunidades e igualdade absoluta e entre esta e justiça. Julgo compreendermos facilmente que uma sociedade deva conceder, tendencialmente a todos, as mesmas oportunidades para que estes, com a sua liberdade, façam delas o que quiserem. Estamos perante o domínio da lei, das regras, da transparência.

Que a igualdade absoluta seja positiva ou sinónimo de justiça é muito discutível. Não existe e é questionável que seja sequer desejável. É na diferença que reside a riqueza criativa e que se cria riqueza. Daqui decorre que se tenha feito (mesmo nas escolas) “guerra” à competição submetendo a ideia de esforço máximo à ideia de esforço mínimo e se tenha enfatizado a relevância dos processos em detrimento dos resultados. Transmite-se que a competição é uma coisa má e, de certo modo, pouco solidária, logo imoral. Ora, sob tal condicionamento psicológico e moral, quem irá mobilizar ao máximo as suas capacidades, da próxima vez que tiver que realizar um trabalho ou uma tarefa?

Será, assim, tão difícil compreender que se trata apenas de um preconceito e que, como em qualquer desporto, a competição se faz essencialmente connosco próprios, em relação aos resultados do dia anterior? Pois parece, agora, que sem resultados corremos vários riscos, desde o empobrecimento ao desaparecimento. Mas, não era previsível?

APONTAMENTO IV

Um fenómeno muito interessante que me vem chamando a atenção é a perceção diferenciada e seletiva de uma mesma ideia ou conceito quando enunciada por diferentes emissores.

É frequente e recorrente que uma substancial fração de ouvintes, ante a enunciação de um mesmo conjunto de ideias ou postulados, se comporte da indiferença ao mais vivo aplauso, consoante o emissor seja alguém que não é tido como socialmente relevante (não tem um título, um cargo, um privilégio ou um sinal exterior de riqueza) ou alguém que reúne, no todo ou em parte, estes “atributos”, embora possam ter a mesma formação académica e idade.

Fico sempre na dúvida se os sinais de incompreensão se deveram ao facto de a mensagem (em ambas as vezes) não ter sido efetivamente compreendida ou se a indiferença é parte de um mecanismo de poder que invisibiliza (o que não se vê, não existe) socialmente o primeiro emissor, ou seja, uma mal fundamentada perceção social da credibilidade do orador.

Ainda assim preferiria que se tratasse de um mecanismo de poder já que a tratar-se de incompreensão, em ambos os casos, tal significaria que, ante uma mensagem não compreendida, a sociedade atribuiria credibilidade e fiabilidade a um emissor, apenas pelos “atributos”, já referidos, o que configura não só uma grande ignorância como aquele risco de se validar uma ideia ou conceito por todos os motivos menos pelo seu conteúdo.

Tal situação redunda em duas consequências que se prendem com a perda de tempo (se a mensagem for emitida pela entidade que não é validada) e com a atribuição de poder a quem não foi capaz de um raciocínio precoce.

(Refira-se, ainda, que há caraterísticas sociais como o sexo, a idade, a classe social, a voz ou o domínio linguístico que influenciam a perceção social da credibilidade do orador).

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