CARLOS PEIXEIRA MARQUES
Em Setembro de 2012 mostrei aqui que, desde 1960 (o início da série disponível na PORDATA), não houve um único ano em que a economia portuguesa não precisasse de financiamento externo para suportar a procura – é o que se chama, numa expressão frequentemente ouvida desde 2011, “viver acima das possibilidades”. Terminava essa crónica dizendo que os portugueses teriam de tomar um xarope bastante desagradável – diminuição do consumo e benefícios às empresas para “recuperar algum investimento produtivo baseado na procura externa”.
No início de 2013 afirmei noutra crónica que “a maioria dos portugueses está a fazer o seu ajustamento com calma e com racionalidade”, i.e. a tomar o xarope sem birra. Hoje já são evidentes os efeitos do medicamento – o ano de 2013 ficará na História da Terceira República como o primeiro em que os portugueses produziram mais do que ‘consumiram’, ou, em linguagem técnica, o primeiro ano em que a economia portuguesa demonstrou capacidade de financiamento.
O gráfico abaixo apresenta dois dos dois indicadores mais emblemáticos deste desempenho da economia (todos os valores[1], correspondentes ao ano móvel terminado em cada trimestre, são apresentados em percentagem do PIB):
- O saldo da balança de bens e serviços tem melhorado desde 2011, não só pela contracção da procura interna, mas também graças a um excelente desempenho das exportações, acentuando-se a progressão na orientação das empresas para o mercado externo, que já vinha a ocorrer antes da chegada da tróica. Apesar das dificuldades, apesar das inúmeras falências, houve muitas empresas e empresários que arriscaram os fundos que conseguiram obter para desenvolver negócios e mercados.
- A poupança das famílias deu um salto em 2012, atingindo agora valores que já não se viam há 20 anos. À margem do mediático discurso do “empobrecimento”, a maioria das famílias conseguiu aumentar a poupança, racionalizando o consumo.
O cenário é mais sombrio na terceira variável representada no gráfico[2]. O saldo corrente primário (i.e. sem contabilizar os juros) anda próximo do equilíbrio, mas é preciso perceber que tal só foi possível (em 2013) graças ao “enorme aumento de impostos”, nomeadamente do IRS. Quanto aos juros, permanecem muito altos, equivalendo a cerca de 4,5% do PIB. A descida dos juros da dívida soberana portuguesa é fundamental, não só para trazer o défice orçamental para níveis mais comportáveis, mas também para que os investidores privados tenham acesso a taxas mais baixas e o investimento cresça para níveis que permitam sustentadamente criar emprego. Tudo leva a crer que os credores só estarão dispostos a emprestar a juros mais baixos se o saldo primário melhorar e/ ou se houver um plano credível de reforma do Estado que aponte inequivocamente para essa melhoria.
Com este sentimento misto de esperança e desconfiança, renovo para 2014 o desejo que aqui fiz no início de 2013 – que a redução da despesa pública se faça com calma e com racionalidade!
[1] Dados das contas nacionais publicados pelo INE em 27-12-2013.
[2] Contabilização na óptica de caixa, i.e. recebimentos e pagamentos efectuados no período (os valores contabilizados pela tróica são diferentes porque se baseiam na óptica de compromissos e porque o universo das entidades consideradas da administração pública não é coincidente).


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