ANTÓNIO ABRANTES
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A questão abordada na minha última crónica de 18 de dez., no Farol da Nossa Terra, prendia-se com uma proposta recente … e descarada de um tal ministro japonês de que se devia deixar morrer os mais velhos porque, assim, o Estado pouparia muito dinheiro.
Muitos se lembrarão daquela velha história que nos era contada pelos nossos avós daquele pai que devolvera metade da manta ao filho que o tinha acabado de abandonar na serra, lá longe, porque ele (agora filho, depois pai) iria precisar dela quando o seu filho lhe fizesse o mesmo.
Esta história do abandono dos idosos, que “só dão despesa e trabalhos”, está muito bem retratada num conhecido filme japonês de 1958 cujo enredo é descrito no texto que se segue:
“O filme passa-se numa aldeia remota localizada na região das montanhas do Japão. Por conta da escassez de alimentos, o povoado adopta uma política voluntária na qual parentes mais novos carregam seus familiares com mais de 70 anos de idade para o topo da montanha Narayama, onde são deixados para morrer. Orin (Kinuyo Tanaka) é uma senhora que está perto de se tornar septuagenária e começa a aceitar seu destino cruel. Seu filho viúvo, Tatsuhei (Teiji Takahashi), não consegue suportar a ideia de perder a mãe. Seu neto egoísta está feliz em saber que Orin irá morrer.” (tirado da web)
Na parte final do filme o filho, embora muito contrariado e pesaroso, carrega a mãe viva às costas para a montanha “Narayama” onde a larga e onde a neve e corvos famintos, em breve, farão o seu inexorável trabalho, ao lado dos esqueletos de outros idosos anteriormente ali abandonados pelos seus descendentes.
Essa proposta ou ideia desse ministro japonês tem, infelizmente, muitos defensores e até praticantes em vários governos desta Europa de hoje mesmo que nos queiram fazer crer que é tudo por uma questão de sustentabilidade financeira ou “recalibragem”, como é usual ouvir.
Os governantes europeus, os que realmente mandam nas troykas, na Comissão Europeia, no Parlamento Europeu, no FMI e no Banco Central Europeu ( o caso da sra. Merkel) e seus mandatários ditos “governantes” em países como Portugal (ou não fossemos “um protetorado”) na prática, acham que os reformados, pensionistas e todos os que já não podem trabalhar são realmente um fardo “insustentável” para as contas públicas.
Atacam tudo o que seja sofríveis condições de vida da maioria da população, tudo o que tenha a ver com o designado “Estado Social Europeu”, que consideram coisa obsoleta. A ordem é para reduzir ao mínimo este Estado Social. Defendem que as funções do Estado devem ser deixadas, tanto quanto possível, aos mercados para assim ser possível reduzir a “Despesa Pública”.
Por ser uma “música” que soa bem aos ouvidos esses ditos “governantes” ainda vão tendo muitos apoiantes.
Há como que uma volúpia de corte em tudo o que sejam benefícios sociais, salários, pensões porque, dizem os seus arautos, “temos vivido acima das nossas posses”.
Este tipos de políticas de raiz mais liberal ou neoliberal, defendidas e decantadas, em regra, pelos partidos de direita, têm-se traduzido num empobrecimento generalizado das populações que vivem dos rendimentos do trabalho, sendo trabalhadores no activo ou na reforma ou dependam de apoios públicos directos para sobreviver.
Aos idosos, pensarão esses (des)governantes, se não podemos levá-los à montanha “Narayama” vamos reduzir-lhes os apoios na saúde, nos rendimentos do trabalho, nas pensões de reforma e outras. Assim muitos idosos (e até crianças – vejam-se notícias recentes) parece morrerem de “doença natural” … e toda a gente fica de consciência tranquila.
É isso que está a acontecer em Portugal, estando o “filme” muito longe do fim.
(6 de janeiro de 2014)


Caro António Abrantes,
Subscrevo, na íntegra, as afirmações produzidas no seu artigo. Há que “chamar os bois pelo nome”. No passado mês de Dezembro morreram três mil idosos, somente em cinco dias, conforme post colocado no facebook pelo distinto clínico Pio Abreu. As causas são evidentes: frio, fome e miséria. No entanto, isso para os tecnocratas neo-liberais até não é mau pois ajuda a baixar o défice. Sinto vergonha do meu país!
Atentamente,
Paulo Correia
Alguns elementos para refletir:
Os bancos cortaram o crédito ás empresas, em particular às pequenas e médias, os governos têm feito aprovar leis a facilitar os despedimentos e estes têm acontecido em massa, os salários e as pensões, em termos líquidos, têm sido reduzidos drasticamente e a saga continua.
Entretanto as despesas familiares mantêm-se ou até têm subido como acontece com os medicamentos, outras despesas de saúde, as utilidades domésticas, etc.
Desde 2010, em Portugal, o nível de vida da maioria da população terá baixado próximo dos 30% – responsáveis de instituições de solidariedade falam em 4,5 milhões de portugueses – quase metade da população na situação de rendimento abaixo do limiar de pobreza, antes do recebimento de apoios estatais. É obra!
Mas a austeridade vai continuar e a aprofundar-se, com troyka ou sem troyka, porque os tais mandantes na Europa assim querem (procuram fazer-nos crer que não há alternativa) e os bancos alemães e outros, que nos empanturraram com crédito para que fizessemos muitas importações, querem garantir o deles. Querem garantir que não deixemos de lhes pagar na datas previstas, sem tugir nem mugir. E os (des) governantes portugueses vão fazendo umas encenações para distrair o pagode com relógios, com papões que vêm no TC, com “guias” para a reforma do Estado, etc.
Entretanto para muitos portugueses a solução, poderá ser do tipo “montanha Narayama” ou “solução final” ( certamente de forma camuflada), à laia de Rudolf Hess, comandante de Auschwitz, que perante o racionamento de alimentos no gueto de Lódz, mandou exterminar velhos, mulheres e crianças que não podiam trabalhar, acção essa que esse comandante classificou como “humanitária” (ver artigo de J. Landeiro Vaz in Diário Económico de 6-1-2014).
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