HÉLDER AMARAL *
Longe vai o tempo em que se ridicularizava o CDS/PP por falar na necessidade de se olhar para a Agricultura como um sector a ter em conta, e para onde devia ser canalizado grande parte do investimento do País. Entre mais uma autoestrada ou mais um projeto agroindustrial, a opção na agricultura mostrou-se acertada: a primeira deixou-nos uma dívida para décadas, que sentimos cada vez que pagamos impostos, com estudos martelados para justificar a obra e para ganhar eleições. Hoje, o tráfego real está longe do previsto: em algumas não chega para pagar a limpeza da sinalização. Por outro lado, a agricultura é o sector que mais gera emprego; o rendimento dos agricultores cresceu 4% em Portugal, enquanto na Europa baixou 1%. Enfim, branco é, galinha o põe. A agricultura faz bem e recomenda-se para a economia e para o emprego.
O Distrito de Viseu tem neste sector um enorme potencial. Importa por isso valorizar quem investe e puxa pela nossa agricultura. Lembro-me bem dos risos preconceituosos quando me referia ao distrito como sendo a capital da maçã, da cereja, do míscaro, do vinho, da castanha, do espumante, dos enchidos, da lampantana, do cabrito, do queijo, da marrã, entre outros. Hoje são muitos os municípios que ostentam na lapela a medalha de capital de qualquer coisa.
Não consigo deixar de sentir uma enorme tristeza, ou mesmo inveja, por ver que na recente iniciativa do jornal Correio da Manhã, com o apoio do grupo Cofina e do BPI, em que foram premiadas duas dezenas de projetos agrícolas, mas onde não se encontra nenhum projeto de Viseu. Espero que em 2014 a situação seja diferente, até porque me parece que a exemplo deste concorrido concurso não faltaram empresas de grande prestígio a olhar, também elas, de forma diferente para a agricultura, ajudando a vencer o esquecimento por que passou o sector nas últimas décadas. Hoje o sector é jovem, vivo e dinâmico. Os sectores da floresta, agrícola e agroindustrial oferece oportunidades como nunca, exporta como não há memória, para cada vez mais mercados e cada vez mais produtos. Segundo a Portugal Fresh, o sector de frutas e legumes exportou cerca de mil milhões de €, e em 2013 por cada empresa encerrada foram criadas sete. São números fantásticos. Espero que os empresários Viseenses não percam esta oportunidade. Que todos os responsáveis políticos, e não só, não deixem de valorizar o que produzimos, e quem o faz com excelência, aliviando taxas, acelerando licenciamentos, reativando mercados municipais, organizando feiras e essencialmente consumindo o que é nosso. Estas são Terras do Demo, mas também de esperança.
O que fizermos bem cá dentro tem procura lá fora. As preocupações de sustentabilidade do planeta fazem com que a agricultura seja vista como sector a ter em conta, abrindo novas perspetivas. Também as economias emergentes passaram a alimentar-se melhor e, no conjunto, parece haver falta de alimentos. A inflação faz-se notar sobretudo nos países emergentes de grande crescimento. Todos precisamos de alimentos, por mais tecnológicos que pensemos ser.
O sector pode ser a melhor ferramenta para combater a necessária coesão territorial e o despovoamento, valorizando o Território, potenciando o turismo e inovação, e atraindo investimento. Por parte do Governo tudo tem sido feito para canalizar os fundos disponíveis para o terreno. Temos uma execução do Proder superior à média europeia, mas convém inovar mais e copiar menos, apostando nas nossas marcas. Esta é também uma oportunidade para as nossas instituições de ensino, formando novos agricultores ao nível da produção e da sua qualidade intrínseca, mas também ao nível ambiental e da segurança alimentar. Vivemos hoje tempos de reestruturação do tecido produtivo agrícola, ao nível da estrutura fundiária e também do conhecimento e da tecnologia. Uma transformação que é urgente para o futuro da agricultura. Mas importa fazer este percurso sem excluir uma grande fatia dos atuais agricultores, o que teria consequências trágicas para a nossa identidade. Não faltam exemplos de como podemos ser inovadores num sector tido como tradicional.
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* Deputado do CDS


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