CARLOS PEIXEIRA MARQUES
Passávamos pelo Estádio Nacional de Ombaka, um elefante branco construído por uma empresa estatal chinesa. O tema da conversa virou-se naturalmente para as obras públicas, o endividamento português e o investimento chinês. Na via rápida que nos levava ao Lobito, a conversa seguia em modo semiautomático, com o recurso às imagens mentais da evolução dos indicadores macroeconómicos entrecortado pela apreciação das novas estações ferroviárias e pela tentativa de interpretação do direito consuetudinário aplicado ao código da estrada. Até que, com voz baixa e espantosa calma, Sebastião (o motorista) fez a revelação: «Os doutores não têm por que se preocupar – Portugal vai achar petróleo e vai sair do buraco».
Na verdade, não me parece que estivéssemos preocupados. Eu até estava bastante entusiasmado com o modelo de “desenvolvimento” que tantas características partilha com o nosso modelo pré-tróica. Mas a revelação de Sebastião foi o tónico que faltava para o ânimo com que haveríamos de apreciar o progresso de Catumbela – a residência do ex-governador, o hotel, a belíssima ponte projectada por engenheiros portugueses e construída por um consórcio português. O mais do dia foi a confirmação de clichés: as eternas promessas dos portos de Sines e do Lobito; o escoamento das mercadorias por linha férrea para o interior do continente… e não podia ter faltado o testemunho do encerramento de indústrias que “não resistiram à globalização” – no caso, a Sociedade de Bebidas Espirituosas do Lobito, Lda.
Regressado a Portugal, parece-me que os partidos andam entusiasmados com o pós-tróica e nem precisam de fazer o acordo final – basta cantar “vou levar-te comigo” para viver em amor. Comecei a pensar que estamos mesmo a precisar que o Sebastião esteja certo. No entanto, olhando para o que se passa na Venezuela, é de duvidar que esse ouro negro nos traga a felicidade. Fiquemos com o outro: «Se um mau caminho/ Trilhamos sem nada/ Há sempre um carinho/ No fim dessa estrada/ E a noite da vida/ Amanhece de novo». E enquanto o pau vai e vem…


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