ANTÓNIO ABRANTES *
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Dizia o meu avô que “quem desdenha quer comprar”. O inverso pode ser: “quem elogia quer vender”.
Os últimos tempos têm sido férteis em notícias de declarações algo contraditórias de bancos ou fundos de investimento internacionais de apreciação da economia portuguesa.
O Comerzbank (alemão) diz que se verifica “um milagre na economia portuguesa”. O Comerzbank detém 800 milhões de euros em títulos da dívida portuguesa. Quererá que o preço de mercado desses títulos suba para, eventualmente, vender e ganhar um balúrdio em mais-valias.
Se eu tenho um asno para levar à feira, estando vendedor, eu não vou falar dos seus defeitos (só se for mais asno que ele próprio). Pelo contrário. Vou dizer que ele, asno, come bem, não morde, não dá coices, é uma pérola de animal.
Porém, para a mesma situação, outros bancos ou fundos de investimento vêm a situação da economia portuguesa de outra forma.
Salientarão a altíssima dívida pública e a altíssima dívida privada (dos bancos, das empresas, das famílias). Salientarão que a recessão se mantém (decrescimento homólogo do PIB), taxa de desemprego insustentável, em particular no desemprego jovem (1 em cada 3), queda abrupta e profunda do rendimento disponível das famílias. Acrescem a isso um Tribunal Constitucional algo imprevisível.
Ou seja, cada cor seu paladar ou…albarda-se o asno à vontade do dono, no caso, conforme os negócios que se tem em vista assim se qualifica a situação da economia portuguesa, assim se salientam uns aspectos e se esquecem outros.
A “informação” mais que um negócio está também ao serviço de estratégias de negócio, que podem ser também estratégias políticas.
E ainda nos dizem que a informação pode ser isenta…
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* Economista, professor aposentado do IPV


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