O PROBLEMA DO MASOQUISMO

HÉLIO BERNARDO LOPES *

HÉLIO BERNARDO LOPES.jpg

.

Ao redor do Manifesto dos 70, surgido há dias e repleto de razão, subscrito por concidadãos nossos da esquerda à direita, por sindicalistas e patrões, por antigos governantes e outros, por académicos e demais, surgiram umas imagens que, em abono da verdade, jamais havia visionado: as do Presidente Cavaco Silva, onde este refere o aparente masoquismo de muitos portugueses.

Existe uma explicação para este meu desconhecimento, que resulta de evitar acompanhar, já desde há muito, as tomadas de posição do atual Presidente da República, dado que as mesmas, desde a entrada do atual Governo em funções, coincidem quase sempre com as do mesmo. De resto, as posições dos nossos credores têm até variado um pouco, para o que basta recordar três casos: as constantes variações do FMI, as das empresas de notação financeira e o caso do PEC IV.

Graças a Julian Assange e à WikiLeaks, nós conhecemos hoje um histórico telegrama da embaixada dos Estados Unidos para a Secretaria de Estado, onde se referem as nossas Forças Armadas como um exército de generais sentados. E conhecemos, por igual, o que Franco Nogueira nos conta na sua obra, SALAZAR, sobre os telegramas do embaixador Elbrick para a sua tutela, referindo estar sempre nervosíssimo quando se encontrava com Salazar. E tudo isto, como se torna evidente, era e é coisa naturalíssima. A prova disto mesmo é que se dava e o que se dá.

A este propósito, convém referir os casos dos dois doutoramentos honoris causa concedidos a Salazar, um por uma universidade de Nova Iorque, outro pela Universidade de Oxford. Nestes dois casos e contra a tradição de sempre, o laureado não se deslocou às universidades, antes estas se deslocaram a Portugal e à sua residência, oficial ou particular.

O que tudo isto mostra é o prestígio em que era tido Salazar nas mil e uma chancelarias internacionais, bem como em instituições de grande prestígio, maior ou menor. Hoje, lamentavelmente, é o contrário que tem lugar. Basta recordar, por exemplo, as palavras, diplomaticamente inaceitáveis, do presidente da República Checa em Praga, aquando da visita oficial do Presidente Cavaco Silva, que nem uma ínfima defesa ali operou. Haverá português que imagine que tal era possível da parte de Isabel II, ou de Einsenhower, ou de Eden, ou de De Gaulle, ou fosse de quem fosse? Claro que não!

Esta diferença entre o prestígio político de Salazar e o dos nossos políticos atuais é o único ponto que me leva a considerar que o Manifesto dos 70 seria de difícil aplicação. De facto, como se pode dispor de prestígio político quando se assiste à condenação de alemães, nos seus tribunais, por corromperem portugueses, mas ninguém é descoberto em Portugal? Nem na Grécia tal teve lugar!

Além do mais, é bom recordar que Salazar adquiriu a CARRIS, bem como os TLP, empresas estratégicas que eram inglesas desde sempre. Hoje, como diariamente se vai vendo, é o contrário: Portugal vai sendo vendido a pataco, um pouco por todo o Mundo. Tal como naquele tempo, embora em sentido inverso, os portugueses pouco fazem ou dizem, antes comem e calam. O que justifica a pergunta: porque haveria a nossa classe política, nestas circunstâncias, dispor de prestígio político ao ponto de lhe permitir exigir e impor o lógico e razoável aos escroques da União Europeia que teimamos em designar por aliados?

A propósito da Base das Lajes, e como há dias referi num outro texto, é bom recordar o que então teve lugar. Durante o desenrolar da guerra, ainda antes da chegada dos norte-americanos, a oposição do tempo acusava o Governo de Salazar de estar aliado com a Alemanha e a Itália, mas mal Salazar autorizou a construção da Base das Lajes, logo essa oposição passou a acusar o Governo de hipotecar parte do território de Portugal. Como expliquei nesse meu texto, se não fosse o prestígio e a firmeza de Salazar, Portugal teria perdido, no mínimo, a ilha onde se veio a construir a Base das Lajas. Se fosse hoje, quase com toda a certeza, o resultado teria sido o inverso do que se pôde ver naquele tempo.

Em resumo: eu até compreendo os críticos do Manifesto dos 70, mas apenas porque a nossa classe política não dispõe hoje de prestígio para fazer valer o que a lógica das coisas naturalmente justifica, antes deitando mão – aí sim – de uma posição que é a desejada por esses escroques.

Esta posição é facilmente percebida pelo modo de mão-estendida como os políticos portugueses se colocam perante os petro-Estados de que necessitam como a boca do pão, sejam aparentes democracias ou terríficas ditaduras. Para já não referir os voos da CIA, a Cimeira dos Açores ou a crítica primária e acéfala à recente posição da Rússia. Fossem os Estados Unidos a invadir quem quer que fosse, e num ápice a nossa diplomacia e a nossa classe política passaria a usar do máximo silêncio. Como se torna evidente, ninguém pode concitar o prestígio político do Mundo com tal tipo de posicionamento.

     .

 * Antigo professor e membro do Conselho Científico da Escola Superior da Polícia

Seja o primeiro a comentar

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.


*


Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.