JOÃO FIGUEIREDO *
Na minha juventude, quando regressava de mais um dia de aulas na escola primária a minha mãe, por norma, não se encontrava em casa. Já se tinha deslocado para algumas das leiras e courelas que amanhávamos para complemento do rendimento da família.
O meu pai, dedicado operário fabril, juntava-se a nós no final de uma jornada de intenso trabalho e prolongava o seu esforço a levar a cabo as mais diversas tarefas agrícolas, que tanto podiam passar pelo semear das batatas, o sachar o milho, a poda das videiras e árvores de fruto, ou a carregar máquinas de sulfato para combater o sempre terrível míldio da vinha.
O 25 de Abril tinha ocorrido há pouco tempo e a democracia começava a dar os seus primeiros passos. Na época, era frequente existirem diversas sessões de esclarecimento levadas acabo pelos diferentes partidos que se apresentavam aos sucessivos atos eleitorais.
A determinada altura perguntei ao meu pai qual era o partido da sua simpatia. A resposta foi rápida e acompanhada de alguma convição: sou do partido socialista porque eles são amigos daqueles que menos têm.
Andei algum tempo a pensar naquelas palavras. O meu pai sempre foi um homem ponderado e sensato mas aquela sua resposta não me tinha convencido nem um pouco. Num final de tarde dirigi-me a ele e disse-lhe: – O pai anda enganado porque os socialistas usam aqueles que menos têm para os cativar, mas na prática eles não pretendem resolver os seus problemas. O meu pai arregalou os olhos e disse: Então porquê?
Eu não perdi tempo em apresentar o meu raciocínio e disse-lhe: Oh pai, as terras que granjeamos não são nossas, temos de pagar renda pela sua ocupação, que não me parece ser nada barata pelas queixas que lhe ouço, e como o dono delas é um dos principais responsáveis do Partido Socialista na região, dono de quase metade das terras da nossa aldeia e neste momento até desempenha as funções de Secretário de Estado, como é que eles podem ser amigos daqueles que mais precisam?
Olhou-me de forma séria, passou-me para a mão o cesto de vime e pediu-me que fosse a casa buscar mais vides para a enxertia dessa tarde e nada me respondeu.
Quando já me tinha afastado, virei-me para trás e disse-lhe: – eu preocupo-me com os outros, de verdade, por isso nunca serei socialista!
Mais tarde, o meu pai veio-me a dar razão.
E vem esta minha história a propósito dos recentes e muito preocupantes números de pobreza no nosso país.
Ter 20% da população em risco de pobreza é dramático. É talvez o indicador social que melhor atesta o fracasso da política levada a cabo na última década.
Os dados relativos a 2011 e 2012 são a prova evidente da completa inoperância registada durante a governação de José Sócrates. Num perído em que a economia teve condições para crescer, tal flagelo não foi resolvido, simplesmente alimentado.
Quem não se lembra da atribuição, sem qualquer critério rigoroso, dos subsídios de rendimento social de inserção que levaram, entre outros excessos, a torrar os saldos da Segurança Social em 2009? O facto de nesse ano haver eleições não deve ser um pormenor de somenos importância!
Os socialistas sempre aconchegaram a sua consciência encarando o problema da pobreza através da atribuição de prestações sociais e subsídios. Sempre deram o peixe ao invés de ensinar a pescar. Mas isso não é ingénuo, é a forma que encontram para ter uma franja da sociedade grata perante a sua “consciência social”… Se há algo que distingue a Social Democracia do Socialismo é exatamente o empenho dos primeiros em minorar as dificuldades daqueles que menos têm, integrando-os e proporcionando-lhes oportunidades de integração, ao invés dos segundos que entendem que a atribuição de apoios sociais de forma indiscriminada e sem critérios já é missão cumprida.
Importa, pois, trabalhar arduamente para que a economia do país cresça, crie postos de trabalho e assim contribua para que estes números da pobreza, que tanto nos envergonham, possam diminuir.
Espero que este período difícil que temos estado a viver perdure na memória dos portugueses para que não se deixem embalar em discursos de facilitismo, porque mais tarde ao mais cedo ele paga-se. Muito caro.
Hoje, consolidada que está a democracia, não tenho dúvidas nenhumas de explicar aos meus filhos a opção política que na altura tomei e o meu enorme orgulho de não ser socialista.
.
* Deputado do PSD


Seja o primeiro a comentar