Tempos perigosos

JOÃO FIGUEIREDO *

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As recentes eleições para o Parlamento Europeu vieram confirmar a tendência do alheamento por parte da maioria dos eleitores através de uma abstenção histórica.

Esse é para mim o primeiro perigo. Quando os eleitores deixam de usar o voto enquanto principal ferramenta de construção de democracia isso tem de nos fazer refletir. A ilusão por parte de um número muito significativo de eleitores de que este governo decidiu aplicar medidas de austeridade por prazer ou por opção política é indicador de uma enorme falta de memória dos Portugueses. Aqui encontramos o segundo perigo.

Quando os eleitores penalizam quem com enorme sacrifício, abnegação e espírito patriótico teve de dar “o corpo às balas” para pagar os calotes que os socialistas acumularam em 6 anos de governação e agora, que as contas estão no caminho do equilíbrio querem voltar a chamá-los para governar o país, demonstra uma enorme falta de memória. Com comportamentos destes é natural que nunca venhamos a sair da “cepa torta”.

Atente-se à eleição de Marinho e Pinto, uma individualidade que nas eleições europeias de 2009 afirmou que “o voto é uma arma dos portugueses; no entanto, o não-voto também pode demonstrar o descontentamento com a política”. Apelou à abstenção porque não era candidato. Agora, cinco anos depois, a sua eleição tem de nos fazer pensar. Populista assumido, exerceu as funções de jornalista, assessor jurídico e assessor de comunicação do governo de Macau e que enquanto foi bastonário da ordem dos advogados atribuiu uma remuneração a si próprio, equiparada à do procurador-geral da república, o que correspondia a um vencimento mensal superior a 6 mil euros. Fantástico exemplo para quem era apelidado de “advogado dos descamisados”. E aqui surge o terceiro perigo. O surgimento, no futuro, de alguém “bem-falante”, populista e demagogo pode potenciar o aparecimento de sistemas políticos perigosos que já tivemos de combater no passado.

Mas este ato eleitoral não se resumiu só a Portugal.

Na Europa, os partidos anti-união europeia subiram e fixaram a sua votação nos 17%. Em França, a extrema-direita provocou um terramoto político. Na Grécia foi a vitória da extrema-esquerda. Mas da Dinamarca, da Áustria, da Hungria ou da Suécia surge-nos sinais muito preocupantes do crescimento de partidos ligados à xenofobia, aos nacionalismos e à anti-imigração.

A Europa está a mudar. Disso não tenho dúvidas. O problema é temer que essa mudança venha acompanhada de tempos muito perigosos.

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* Deputado do PSD

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