PRECONCEITO

LUZ CANÁRIO

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Passados dois meses do Cardeal-Presbítero de Buenos Aires ter sido eleito Papa, eu fui entrevistada por uma rádio, como Coordenadora de um centro de Salesianos Cooperadores.

Fui apanhada de surpresa e as perguntas focaram muito a minha opinião sobre o Papa recém-eleito.

Frontalmente, manifestei que não estava nada deslumbrada. Tinha chorado muito quando foi eleito o último Papa. Era um Senhor de avançada idade no meu conceito, e as informações que nos chegavam era de um Bispo muito conservador. Logo, não ia fazer “andar” a Igreja Católica.

Eu não aspirava por um Papa que apoiasse o aborto, o casamento entre homossexuais, a adopção de crianças por casais homossexuais, porque sei que a Igreja nunca vai aceitar essas situações. Mas desejava uma Igreja com um Papa que fosse Pastor de todas as pessoas, não descriminasse em absolutamente nada as pessoas divorciadas (conheci algumas que apanharam tareia toda a vida, eram consideradas boas catequistas e no dia em que disseram “basta” ao casamento de fachada foram impedidas de comungar, de dar catequese), batizasse todas as crianças independentemente de serem filhas de mães solteiras, casadas, divorciadas..

Queria um Papa que conhecesse o mundo real em que o seu povo vive; que conseguisse acompanhar as mudanças sociais sem NUNCA desvalorizar os grandes valores que defende e que são a harmonia das sociedades; que lutasse contra os preconceitos existentes na sua casa contra esse povo; enfrentasse os pecados da Igreja, sobretudo os cometidos contra as crianças e castigasse severamente os pedófilos; que lutasse contra toda a corrupção que existe no Vaticano; que permitisse o casamento aos sacerdotes que o desejassem…

O novo Papa devia ter a mesma idade do anterior, logo não devia ter FORÇA para mudar as mentalidades dos habitantes do Vaticano, que não sabem ou não querem acompanhar este tempo.

“Mas (dizia eu nessa entrevista) há alguns dados que me fazem ter esperança: O Papa Francisco adoptou esse nome em honra de S. Francisco de Assis, um frade católico da Idade Média, homem muito simples, que renegou toda a riqueza em que foi criado, dedicado aos pobres, lutador pela paz, protector de toda a criação e lutador contra a burguesia e corrupção que existia na Igreja católica naquela altura. Depois, o Papa Francisco apareceu na sacada central da Basílica de S. Pedro vestindo apenas a batina papal branca, usando um fio de aço e não de ouro, e não usava aquela “mariquice” dos sapatos vermelhos, os múleos, e usou os seus próprios sapatos. E, por fim pediu, ao povo que rezasse para que o Senhor o abençoasse”.

Passado mais de um ano, eu tenho de reconhecer que fui preconceituosa em julgar que uma pessoa não pode mudar nada por já ter alguma idade.

O que temos lido, ouvido e visto deu para verificar que ele já marcou toda a diferença. Sabemos que ele mexe com estruturas muito conservadoras e perigosas e que a sua vida não está segura. Mas aconteça o que acontecer, ele revela-nos que a mudança é possível; que Deus é Pai de todas as criaturas; que as actividades do banco do Vaticano têm de estar em harmonia com a verdadeira missão da Igreja; que o diálogo com outras religiões é fundamental para lutar contra os crimes que se cometem contra a humanidade, como o tráfego humano; que ele está muito próximo do seu povo através de todos os meios de comunicação…

Tenho lido várias entrevistas que lhe têm sido feitas e livros que falam de toda a sua actividade e postura antes e depois de ser eleito Papa, e o que mais me comove é o conhecimento real, vivido na pele, das virtudes e pecados da Igreja, de como é frontal a falar de uns e de outros, e do seu grande amor a essa Igreja que abraça.

O seu sorriso franco, a sua ternura e tranquilidade, a frugalidade na sua forma de viver, a sua proximidade com todas as pessoas, as suas fortes convicções devem ser a sua grande arma para vencer tantos obstáculos que já venceu.

Assim, sim, já temos vontade de rezar para que o Senhor abençoe e proteja o nosso Papa!

2 Comments

  1. Querida Amiga, Sra Profª Maria da Luz:
    Fico muito lisonjeado por ter correspondido ao meu “incentivo” para continuar a sua colaboração no Farol da Nossa Terra. Em boa hora o fiz, pela surpresa da beleza e da profundidade do tema que aborda e pela inspiração da sua apreciação.
    Em contacto pessoal, disse-me: “Os meus leitores estão sempre a perguntar porque não escrevo. Tenho de voltar à escrita, isso é verdade”. Também disse: “Eu sinto dificuldades em escrever. Salto letras, parece que não vejo bem, mas sei que vejo, há algumas falhas, consequências de medicação”. Eu acho que a escrita lhe vai fazer bem, apesar de ter dito que ler jornais, ouvir notícias não é muito bom para si. O que me conta do tal episódio sobre uma devolução de dinheiro à Junta, no seguimento de uma crónica sua, acho que mais força lhe dará para a escrita.
    Ficamos todos à espera das suas “boas novas”! Forte abraço!

  2. Bem vinda minha amiga.É com muita alegria que estou lendo,ou melhor,acabei de ler o seu artigo.
    Se em primeiro me cabe perguntar pela saúde,onde espero que continue bem,também afirmo que deste artigo muito temos a retirar.Então,para não lhe roubar muito tempo,acho que disse tudo quanto de importante esperamos pelo novo Papa!Que Deus o proteja,porque é realmente imperioso unir os povos para acabar com as diferenças.Grande abraço ,e tudo de bom para a nossa presada Professora.Obrigado,e um santo Domingo.

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