ANTÓNIO ABRANTES *
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“Um pequeno gesto. Uma assinatura para a vida.”
Esta frase vem num artigo interessante de Fausto Coutinho, jornalista, inserto no Diário Económico de 19.6.2014.
Diz-se aí que “ao longo destes anos, a coragem do cônsul português em Bordéus, nunca teve o reconhecimento devido …” . Em países como os EUA e Israel muitos têm tentado impedir que o nome de Aristides caia no esquecimento mas que o Estado português, por estranho que pareça, pouco tem feito para perpetuar a memória de Aristides de Sousa Mendes.
Essa “incompreensível negligência” tem-se reflectido, também, na “deficiente preservação do património construído” (Casa do Passal) e na “persistente ignorância do património cultural e tradicional”.
Passaram 60 anos sobre a morte de Aristides de Sousa Mendes, mas a Casa do Passal, que devia ser um marco físico da sua memória e um centro de divulgação dos valores humanitários desse pequeno/grande gesto, continua em ruínas.
As obras começaram, valha-nos isso. O projecto parece ainda tímido e incompleto, mas começou.
Apesar do que se perdeu quanto ao interior da casa, devido a quase 20 anos de abandono, desleixo e desinteresse de alguns, finalmente estão a fazer alguma coisa para uma recuperação. Condigna ou não, estamos para ver.
Várias foram as teorias que ajudaram a perpetuar esse abandono.
Teorias estapafúrdias do tipo, “a Casa do Passal em ruínas é a melhor forma de lembrar o acto humanitário de Sousa Mendes” ou que “não há dinheiro”, não obstante as várias ofertas ou promessas de ofertas que esbarraram sempre na falta de vontade dos responsáveis da Fundação e da Câmara Municipal em desenvolver qualquer projecto de recuperação da casa apesar de frequentemente se lamentarem da “vergonha” da ruína.
Mas ainda bem que se iniciou a recuperação. Que seja o início de um bom projecto de museu, casa museu ou aquilo que se quiser mas que seja uma justa homenagem a Sousa Mendes, um polo de conhecimento e de divulgação dos valores humanitários do seu acto heróico contra os tiranos e ditadores de cá e de lá, de ontem e de amanhã.
Os valores que levaram Sousa Mendes a emitir milhares de vistos, em poucos dias, contrariando ordens iníquas, desobedecendo corajosamente, arriscando a sua vida e a dos seus, não são coisa do passado. São valores de sempre, valores que devem nortear as gerações actuais e futuras, aqui e em qualquer lugar.
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* Economista, professor aposentado do IPV



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