IMPLICAÇÕES CULTURAIS NOS ESTILOS PARENTAIS E FUTEBOL

HELENA ROMÃO

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Desde há muito se popularizou, entre psicólogos e pensadores, a conceção de que existem diferenças muito significativas nos estilos e práticas parentais vindo-se a identificar três estilos cujas caraterísticas são usadas para definir os diferentes tipos de pais: autoritários, orientadores e permissivos (indulgentes e negligentes).

O conceito de estilo parental pode definir-se como a forma de relacionamento entre pais e filhos considerando o clima emocional (tom de voz, linguagem corporal, formalidade no trato e mudanças de humor, entre outros) e as estratégias utilizadas quotidianamente, com os mesmos, no sentido de lhes proporcionar determinadas competências (cognitivas, motoras, sociais, éticas e afetivas) e induzir que se comportem de determinadas maneiras em diferentes contextos. Trata-se de uma forma de condicionamento em que se usam explicações mais ou menos racionais, punições e recompensas num ambiente (mais ou menos livre, consoante o estilo parental) que oscila entre o treino, a supervisão e a disciplina.

Fica claro que as formas de exercer a parentalidade são muito diversificadas e variam com o tempo, com o espaço e com o estrato social, ou seja, variam com o fundo cultural de quem a exerce. No limite, o estilo parental irá diferir de pessoa para pessoa se considerarmos, também, a influência dos traços de personalidade e da filosofia de vida. Mesmo entre filósofos e teóricos da educação o consenso não existe e, também entre eles, diferem os conceitos e objetivos da educação.

Deste modo, para compreendermos diferenças educativas torna-se necessário conhecer, com precaução e bom senso, as crenças e valores dos pais e educadores tentando avaliar o seu impacto nos filhos. Teríamos, assim, um “diz-me quem te educou, dir-te-ei quem és”.

É aqui que consideramos que o futebol se relaciona com esta matéria dado que é notória a diferença de atitudes, comportamentos e mesmo da forma de comunicar de CR, de jogadores da Europa do Norte e de outros jogadores portugueses.

Sempre tive (por observação grosseira) a perceção de que, por cá, os pais exercem a sua função parental baseando-se muito em dois pilares: tradição e intuição, o que se traduzirá num estilo parental nem sempre consistente e nem sempre consciente. Assim, se ao primeiro associo um estilo autoritário, ao segundo associo um estilo permissivo, ou pior, uma amálgama ambígua de ambos.

Ora aí está. Nenhum dos dois apela muito à racionalidade, à crítica, e a uma criatividade orientada, nem se perceciona que apele ao esforço máximo.

Se o primeiro limita a criança por heterocontrolo emocional e da disciplina (entre outros), o segundo limita-a, também, por ausência de controlo. Em ambas falta o desenvolvimento do autocontrolo emocional, a gestão da dor e do esforço, a planificação, o treino persistente e exigente e uma hierarquização de valores que só a racionalidade confere.

É aqui que a cultura, cruzada com a educação, nos faz perder jogos de futebol que jogadores de outras culturas sabiamente aproveitam. Se generalizarmos o impacto desta educação a todos os setores teremos o retrato (salvo honrosos momentos e exceções), da “apagada e vil tristeza” que teimamos em ser.

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