HELENA ROMÃO
Arte e Paisagem, In Memoriam Sophia, A Poeta
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A ESCULTURA CLÁSSICA NA POESIA PORTUGUESA CONTEMPORÂNEA (excerto de um trabalho científico universitário que partilhamos, como Tributo a Sophia, a maior e a mais inspiradora poetisa portuguesa, agora homenageada para sempre no Panteão Nacional. Pántheion – local de culto a todos os deuses)
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Das coisas gregas todos nós, ocidentais, participamos e a todas contemplamos sem que mares ou tempos o tenham, jamais, impedido.
Mas, são os criadores que, na sua sensibilidade, continuam a revolvê-las, imaginário adentro, perplexos, no empolgamento e no prazer quase infantis de cada descoberta.
Da água desta fonte inesgotável se saciam, também, os poetas portugueses contemporâneos que à pátria de Homero se filiam por entre temas, símbolos, valores e ideais. É comum “o sentimento de que toda a literatura europeia desde Homero, e nela englobada toda a literatura do seu país, coexistem numa duração única e compõem uma ordem única.”[1]
A escultura, como a poesia arte de expressão e representação, alia-se a esta, numa simbiose complexa e completa de sensibilidades, percepções e intelecção. E esta união de linguagens artísticas e plásticas é tão completa e total que a ela nem a musicalidade falece, presente na cadência das sonoridades imprimidas ao texto.
Fácil será imaginarmos o poeta, suspenso da contemplação extática, destoutra obra do Homem, enquanto cria sobre a criação de uma criação maior e anterior. Assim, jamais poderá ser imperfeita a criação feita sobre uma perfeição ideal, ela própria modelada da mais perfeita criação dos deuses.
As estátuas que, nestes poemas, são fonte de criação poética, representam vários períodos da evolução escultórica grega.
Vindas do país do Nilo, ei-las recriadas pelo “milagre grego” e pelo “sopro de vida” de Dédalo, o construtor das estátuas que caminhavam (kuroi e koré, da época arcaica), algumas enormes e por vezes impiedosamente abandonadas à sua sorte antes de concluídas.
Atenas renasce das cinzas e embeleza-se criativa, modelar e clássica, qual escola de perfeição, harmonia, proporção e simetria, onde o Homem se descobre e, num optimismo existencial sem precedentes, se idealiza e se procura, numa ambição espiritualista e ascética.
Mas, a crua realidade parece logo impor-se e, por entre tumultos individuais e colectivos, agitam-se as estátuas intensas nas emoções, na precaridade da vida e na certeza dos momentos de maior fragilidade (infância e velhice).
Religiosas, políticas, atléticas ou fúnebres as estátuas viverão sempre belas, fascinantes, enigmáticas e inspiradoras “numa cristalização intemporal do movimento”[2] e num caminhar eterno, só na aparência feito de silêncios.
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Sophia de Mello Breyner Andresen
Sophia revela-se Senhora de um elevado sentido de depuração perfectiva, intensamente feminina insistindo em temas recorrentes como o mar, o azul, a luz (elementos puros) tratados com uma sensibilidade delicada e ampla.
“Gastão Cruz ressalva na temática grega de Sophia, “sem paralelo em toda a poesia portuguesa, um desenvolvimento que ultrapassa uma forma decorativa e folclórica…”[3] Fátima Marinho sublinha no recurso à Antiguidade Clássica, enquanto dialéctica com a modernidade, o tom da originalidade mágica da sua poesia. Mas, a sua obra toca ainda o mundo cristão e a realidade portuguesa. É ela própria que nos diz: “Sempre a poesia foi para mim uma perseguição do real (…) Quem procura uma relação justa com a pedra, com a árvore, com o rio, é necessariamente levado, pelo espírito de verdade que o anima, a procurar uma relação justa com o Homem…”[4]
Sophia procura apaixonada “o equilíbrio das coisas” e a “ordem do mundo” numa “unidade de consciência” que é também realidade poética e ontológica e onde cada poema é também uma obra escultórica de duração eterna.
Em “O Efebo”, “Dual”, ressalta a claridade da luz ou a clareza das medidas certas na simetria rigorosa da arte grega. É o fascínio pelo varão nu e ideal antropomórfico do Homem Livre e pelo adolescente atlético e iniciado no amor e no conhecimento do mundo adulto, um instante moldado em juventude, beleza e força, como coluna de uma obra arquitectónica que é a própria polis. A repetição sublinha a comparação à peça de cerâmica, desta vez pelo conteúdo intenso e resinado, num apelo sensitivo de onde germina a contradição forma/conteúdo: a forma lúcida que oculta uma embriaguez não-lúcida.
Também a claridade conduz à noite, numa sucessão inevitável, quando todos os excessos podem conduzir ao fim e à tragédia
Em Friso Arcaico, Sophia não resiste à intertextualidade com Simónides de Kéos numa referência aos frisos do tesouro de Sifnos, em Delfos, construído em 525 a.C., um elegante tesouro iónico do santuário, ornamentado com esculturas e relevos no frontão e no friso, pelo que este se deverá referir ao da parte Sul (rapto das filhas Apenas em quatro versos, a autora volta a referir-se às patas dos corcéis da tempestade que qualifica de concisas, duras e finas talvez numa alusão ao efeito oblíquo da chuva ou dos raios, como estes, rápidos tal como as espigas são finas. A referência à arquitrave, (elemento arquitectónico) permite à autora a alusão ao carácter dos gregos cuja racionalidade e “medida” (uso da matemática na construção e outras ciências) e irracionalidade (sentimento/ amor e emoção/fúria), em síntese, se materializaram em obras de rara beleza.
“O Auriga”, estátua em bronze, procedente de Delfos, ainda de tipo hierático mas com vida, apresenta os pés bem fincados, o corpo direito com uma túnica apanhada por um cinto, de pregas regulares abaixo da cintura, enquanto segura as rédeas nervoso. O cabelo é estilizado em anéis e preso por uma fita emoldurando um rosto concentrado e um olhar fixo na meta que lhe dará a vitória na corrida de quadrigas e a honra que aos heróis cabe.
A autora acentua a nudez dos pés, atraída pela clara e simples forma de estar na terra e na vida, fascinada também pela aliteração da vogal /U/ que acompanha o retrato físico, de uma imponência associada a um estar austero e aprumado, a um tempo divino e natural, participando do divino pelo pensamento e pela vontade superiores e serenos, e da natureza pela condução de si como de seus cavalos.
E tudo é força e juventude: os “beiços de seiva” na sua sensualidade, o amor da vida, o olhar de paixão tranquila e o projecto de si. E eis como a criação humana e brônzea logo reflecte, a um tempo, a criação natural e divina.
Em Senhora da Rocha são os dois universos mitológicos, pagão e cristão, que se confrontam nas figuras da virgem Maria e da Vitória de Samotrácia, poema onde a autora sublinha o que a Senhora não tem de pagão. O uso da segunda pessoa, aproxima a autora da sua interlocutora silenciosa, numa contínua interpelação a uma resposta negada.
As sucessivas negações sublinham a mobilidade optimista da estátua grega pelos pátios brancos, de outro promontório e de outro mar, enquanto neste promontório e neste mar não há a mesma liberdade mas um espaço fechado, a rouquidão de um silêncio gritado, uma estátua pobre e popular nas cores, atenta aos gritos do mar e desse povo de pescadores, numa prece contínua contra a morte que é esse mar e que é o tempo em que o resgate, dessa morte, com um novo deus buscamos, sentenciados até ao fim dos tempos, “quando se quebra a aliança do homem com as coisas”.
Apocalíptico, o 6º verso, dá conta da nostalgia pela morte dos deuses de mármore e de luz, em outros mares, culpados na sua “exaltação “ e “deslumbramento”, do seu paganismo exuberante e passional, descuidados no seu desvario optimista e, quiçá, demasiado humanos no sentir.
Os novos deuses fecharam-se ao mar e ao vento, submissos, imóveis e apenas atentos aos sinais e às sonoridades de elementos ainda mais temíveis e vigorosos.
A nova senhora é triste, recolhida e curvada, na sua dor pungente de perda eterna e eternamente repetida em cada homem que é também seu filho e por quem ora sem cessar.
Em Torso, invade-nos a imagem das tardes de Verão e das obras rodoviárias numa imagem de força, beleza e robustez física, de combatente, de que uma só parte pode ver-se, confusa entre a luz e a sombra do poente e onde os músculos inchados são estátua e deus, desses deuses vencidos e substituídos por outro afinal também vencido pois que Sophia não nos diz de uma ressurreição.
Kouros, do Egeu, apenas um kouros, como tantos outros, que Dédalo fizera em tempos caminhar, em sorrisos, misteriosos, inocentes, sorrisos da própria inocência humana de que os deuses participavam alegres, nus e lisos, na sua bondade e lisura, naturais e sem corrupção.
Depois, também Atena, a deusa, neste caso Atena Nikê, de tão venerada, procurada e representada vai alegremente e semelhante a uma borboleta que esvoaça de flor em flor, poisar, desta feita, “seus pés em cada ilha”.
São intermináveis as referências de Sophia à cultura grega e a paisagens, naturais ou humanas como é interminável o fascínio que cria com a simplicidade elegante dos seus versos intemporais. Obrigada.
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(Este artigo não foi escrito ao abrigo do Novo Acordo Ortográfico)
[1] Manuel Frias Martins, “10 Anos de Poesia em Portugal, 1974-1984, Leitura de uma década”, Caminho, Lisboa, 1986 , Geração 61,pp. 81-82
[2] (Martin Robertson cit Mª H. Rocha Pereira, “Estudos de História da Cultura Clássica”, Vol I, Gulbenkian, Lisboa, 5ª Ed, 1979
[3] Gastão Cruz, “A Poesia Portuguesa Hoje”, Lisboa, Plátano, 1973
[4] S de M. B ANDRESEN, Posfácio, in “Livro Sexto”, Lisboa , Moraes Editores, pp.75 e sags


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