ANTÓNIO ABRANTES *
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As últimas três décadas viram surgir por toda a parte os chamados parques industriais.
Investidores estrangeiros e nacionais abordavam os executivos camarários à procura de espaços onde instalar fábricas, terrenos infrestruturados à conta das câmaras, que vendiam e vendem os lotes a preços de 1 escudo (ou 1 euro) o metro quadrado, para não ser dado.
Acreditava-se que assim os municípios “iam dar a volta” e entrariam numa senda de progresso já que a agricultura, que há séculos era a base da economia local, estava ( e continua) nas ruas da amargura.
Para muitos autarcas os parques industriais eram a solução milagrosa para o progresso, criavam postos de trabalho que iriam dar emprego a pessoas do município e não só.
Muitos desses investidores prometiam mundos e fundos, acenavam com muitos postos de trabalho e as instalações eram inauguradas com pompa e circunstância.
Inebriados por tantas virtudes desprezava- se a análise competente e cuidada das motivações e das razões que traziam cá tão magnânimos investidores-benfeitores.
Passado algum tempo, quando noutros países lhes acenavam por salários ainda mais baixos que os praticados por cá, essas empresas entravam em lay-off para amenizar o choque pois, em muitos casos, não passava de uma antecâmara do encerramento.
O mesmo descuido acontecia com as questões ambientais.
Para uma empresa, evitar as chamadas “externalidades negativas” da sua actividade como os impactes ambientais, tem custos e isso fará diminuir os lucros.
Se a empresa puder usar infraestruturas camarárias, por exemplo, ETARS públicas, tanto melhor. É dinheiro que poupa, ou seja, aumenta os seus lucros. Mas isso pode ser o início da desgraça.
Apesar do aperto das leis de defesa do ambiente, da obrigatoriedade de certos estudos prévios ou mesmo de “consulta pública” a verdade é que se abriu a porta a empresas que, embora criando alguns postos de trabalho, contavam e contam com a benevolência, ou mesmo cumplicidade, das autoridades locais e nacionais para diminuir custos que deviam ser por si inteiramente suportados.
Com a crise e a baixa do investimento as empresas desses investidores forasteiros que ficam tendem a ser as piores, no que toca a efeitos externos negativos. Porquê? Porque estas têm mais dificuldade em deslocalizar-se e porque, se o fizessem, provavelmente iriam encontrar mais obstáculos e entraves à sua actividade predadora do ambiente.
Certos autarcas, pensando mais no imediato que no futuro, cedem a chantagens de ameaças de encerramento, permitindo abusos inaceitáveis.
Em vez de promoverem o verdadeiro progresso económico e social dos seu município, estão a permitir actividades poluidoras do ambiente, em particular a poluição química das nossas ribeiras, afectando fortemente a produção agrícola, quer a que produz para o mercado quer a de subsistência familiar.
Ou seja, liquida-se a frágil agricultura e dá-se mais um passo no caminho da desertificação humana destas regiões do interior.
Empresas industriais, parques industriais, tudo bem, desde que sejam indústrias não poluentes e que assumam todos os custos dos efeitos externos da sua actividade. Todas as Indústrias são bem-vindas desde que não prejudiquem a actividade agrícola e que não agravem o já frágil e ameaçado equilíbrio ecológico da região.
Não é, pois, com indústrias poluentes, com indústrias que não assumem inteiramente os custos da sua actividade, com empresas que não cumprem cabalmente as suas obrigações para com a comunidade local, que se constrói o presente e o futuro destes municípios.
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* Economista, professor aposentado do IPV


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