LUZ CANÁRIO
Ser pai ou ser mãe fica muito aquém de se ser educador ou educadora.
Basicamente, os pais fazem os filhos, dão-lhes alimentos, vestuário, calçado, médicos, brinquedos, amor, carinho e mandam-nos para as escolas na altura devida.
Educar exige muito mais do que isso. Tem de se saber quais os valores que se quer transmitir aos filhos, e tem de se saber que género de cidadãos é que se pretende que os seus filhos venham a ser na sociedade. E para isso tem de se ter muita SABEDORIA para os saber orientar; tem de se ser muito CORAJOSO para lhes impor disciplina e regras, porque ninguém chega a lado nenhum sem se treinar estes dois ingredientes desde que se nasce; tem de se desenvolver no filho a capacidade de trabalho, de iniciativa, de respeito e de liberdade.
Um pai ou uma mãe têm de ser um FAROL. E isso não é para qualquer um, independentemente de ser ter curso superior ou não, não é até para muitos professores que são pais, mas não conseguem ser educadores.
Os valores são intemporais. Não têm o ontem, o hoje ou o amanhã.
É realmente muito mais fácil dar-lhes um telemóvel ou uma maquineta qualquer para as mãos, para os sossegar, para eles comunicarem com o ausente, o virtual, do que perder tempo a ouvi-los, a questioná-los, a conversar com eles, a contar-lhes uma história que transmita os valores pretendidos. É muito mais fácil deixá-los fazer o que quiserem do que impor o que está certo. Isso obriga a muita entrega, muita atenção, muitos confrontos.
– “A minha filha passa a vida enfiada no quarto, agarrada ao computador ou ao telemóvel, mal fala connosco. Chega a casa tardíssimo aos fins de semana e, agora, nas férias. Não ouve o que lhe digo, não respeita os meus pedidos. Não colabora nas lides domésticas. E o irmão é igual.”
– Que espanto! Ainda não frequentavam a primária e já tinham telemóveis porque “todos os outros tinham”, o computador foi-lhes entregue sem nenhuma disciplina desde a primária.
O isolamento foi crescendo cada vez mais, a ausência psíquica aumentou com a adolescência. A socialização em casa, com os familiares nucleares, com os vizinhos ou colegas foi-se diluindo. O desenvolvimento da capacidade de trabalho e da partilha de tarefas nunca foi solicitada.
Agora, os pais que compravam processos para que os filhos estivessem sossegados, que consentiam em toda a liberdade porque os filhos faziam cenas se a não tivessem, acusam-se mutuamente por ver como os filhos se desviam das pessoas que sonharam que viessem a ser.
E o pior é que são filhos com grandes capacidades, mas que estão a ser atrofiadas por incompetência e demissão dos pais.
Platão dizia: “Não deverá gerar filhos quem não quiser dar-se ao trabalho de os criar e EDUCAR”.
E Coelho Neto diz ainda: “É na educação dos filhos que se revelam os VALORES dos pais”.


Colega Luz Canário,
Parabéns pelos seus dois últimos artigos. Completamente atuais e muito pertinentes. Oxalá convoquem os pais para ações de reflexão e formação relativamente às suas responsabilidades parentais.