OS CÉREBROS QUE TEMOS

HELENA ROMÃO

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Há alguns anos, a meio da minha já razoável carreira, aconteciam-me aquelas conversas em que defendia a necessidade de treino racional na educação e de redução da impulsividade e da reatividade, em sala de aula.

Dizia, então, por intuição, aos meus meninos que imaginassem um botão a meio da sua testa e que, quando se distraíssem por euforia, cansaço, frustração ou stress, desligassem o lado direito do cérebro voltando a ligar o seu lado esquerdo.

A evolução das neurociências confirma essa ideia à luz de novas descobertas. Em 1990 em The Triune Brain in Evolution, o neurocientista Paul MacLean explicava que o cérbero humano é composto por três zonas com diferentes idades (cérebro reptiliano, sistema límbico e neocortex) sabendo-se que essas zonas têm diferentes funções, também. Assim, o velho sistema reptiliano controla funções mecânicas automáticas mas também o domínio, o território, a reprodução e aquilo a que se chama sistema de fuga ou ataque; o sistema límbico relaciona-se mais com a construção e memória das emoções e, finalmente, o neo-cortex (para alguns, cérebro pensante) envolve o pensamento abstrato (lógico, crítico e criativo), a linguagem, todo o tipo de relações e decisões, enfim, todos os skills cognitivos do processamento de informação ao qual a consciência pode aceder.

Diga-se que a taxionomia de Bloom (revista) continua a evidenciar bem a hierarquia de funções deste cérebro (recordar, compreender, aplicar, analisar, avaliar e criar).

Sabemos ainda que o neo-cortex se desenvolve pelo esforço (treino) criando sinapses que contribuem para o aumento do volume da(s) memória(s) e para a qualidade e rapidez da atividade de processamento racional da informação. Estudos diversos confirmam ser mais eficaz salientar, nas crianças e jovens, o valor do esforço do que a inteligência já que os últimos terão tendência para não aplicar todo o esforço produzindo piores resultados.

Em todo o caso, é interessante a confirmação de que, sob o efeito de forte stress ou ameaça, os impulsos químico-elétricos, que permitem a comunicação entre estas partes do cérebro, ficam tão perturbados que as partes mais antigas se sobrepõem e como que desligam o neo-cortex preparando-se para defender aquele corpo em modo automático. Estas defesas dão origem àqueles comportamentos e tiradas irrefletidas, nada lógicas e que não se conseguem explicar já que, muitas vezes, vão contra os próprios interesses do seu autor.

Conclui-se que fatores ambientais e stress poderão condicionar o funcionamento do neo-cortex de crianças e jovens, desligando-o da aprendizagem, sobrando apenas o cérebro reptiliano (o que aceita motivações externas) em combate para se sobrepor.

Ora, a educação, em geral, ao ser baseada num sistema de recompensa ou punição, ativará, sobretudo, o sistema reptiliano desligando a criatividade e a capacidade crítica na resposta aos problemas, conduzindo os alunos a reações de tipo oposicionista, desafiadoras e stressantes para os educadores. A resposta dos professores fará aumentar o stress criando um ciclo terrível para ambos.

O défice de criatividade no processamento de informação em crianças sob stress explicará, além dos problemas de aprendizagem, os problemas de disciplina em sala de aula, durante os quais os alunos reagem de uma forma que reflete a fuga ou ataque do cérebro reptiliano.

Não será difícil observarmos alterações do aspeto físico e da personalidade que ocorrem em diferentes momentos e consoante o que poderão ser diferentes zonas do cérebro em ação.

Cada vez mais deveremos compreender que sem uma prévia estimulação do neo-córtex pelos pais, anterior à escola, será difícil a transição dos alunos para o ensino estruturado e codificado das escolas. Isto significa que o cérebro pensante dos jovens deveria estar a ser desenvolvido desde a mais remota infância. Como quereremos que o aluno permaneça atento, sentado numa sala de aulas, se não for treinado sentando-se quieto à refeição ou no sofá? Como usará o aluno uma linguagem elaborada ou criativa sem a leitura de histórias ou sem as explicações racionais dos pais?

Sabemos que os pais promovem o uso das tecnologias, com destaque para a televisão. Estudos referem que se verificam efeitos danosos sobre o neo-córtex em virtude da entrada num estado de relaxamento (semelhante ao hipnótico) que desliga a consciência e permite a absorção inconsciente de informação; que reduz a atividade do hemisfério esquerdo (lógica, análise crítica, avaliação…); que impede as mais elevadas funções cognitivas do cérebro; que cria uma adição física e psíquica e que reduz os recursos linguísticos das crianças já que não há necessidade de ler, falar, pensar ou criar imagens mentais. Estas caraterísticas fazem com que o impacto da televisão, recorrendo a um léxico parco e a estruturas verbais simples, seja diametralmente inverso ao impacto da leitura.

Um excesso de exposição à televisão será, com frequência, causa de défices de atenção e hiperatividade em crianças e adultos, mais grave nas crianças cujo cérebro não se encontra completamente formado sendo especialmente danoso para o lobo frontal (responsável pelo controlo da impulsividade e pela concentração). As consequências que daí advêm relacionam-se com comportamentos anti-sociais e com a incapacidade de concentração e aprendizagem na escola. No futuro também a memória funcional (de curto prazo) se vê atrofiada sendo a criança/jovem incapaz de desenvolver e concluir sucessivas tarefas.

Computadores e televisão, ao mudarem rapidamente de cenas, estimulam respostas automáticas e impedem a atenção ao detalhe e raciocínios complexos. As TIC, frequentemente, eliminam o contexto impedindo a análise e a avaliação e distorcem os significados e a importância de valores, personagens, histórias ou eventos.

Esta evolução deveria fazer-nos refletir conduzindo Pais e Encarregados de Educação a um profundo debate sobre o futuro que queremos para as crianças.

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They learn to pass tests and earn a diploma, but fail to use their education for their personal growth. In addition, they leave school unprepared to cope with the increasing complexity of the world in which they live” (Edwards, 1994, p. 341). Vide, http://www.brains.org/down.htm

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