LUZ CANÁRIO
Todas as funções que executamos durante a nossa vida têm consequências, mas há umas que têm mais do que outras, e algumas podem ser bem “tramadas”.
Todos somos livres para escolher o caminho como queremos desempenhar essas funções, mas regra geral só há dois.
Por exemplo, um professor pode exigir disciplina e trabalho, mas deve saber impor-se pelo respeito que tem por si e por todos os alunos, pela proximidade e disponibilidade para os ajudar a fazer a aprendizagem pretendida. Pode até ter que recorrer a atitudes mais radicais no caso dos alunos que gostam de “apalpar” os professores, mas não os usa por sistema.
Também pode usar toda a sua autoridade, distância e frieza, e não querer saber se o aluno está a progredir na aprendizagem ou não. O problema é dele, o futuro é dele e os seus pais até nem são pessoas de grandes conhecimentos e empenhados na sua educação.
Um empresário pode ser empenhado na saúde e revitalização da sua empresa, pode ser um patrão próximo dos seus funcionários, promover eventos que lhe permita conviver com eles, mostrar-se interessado no seu bem-estar, ser justo no seu salário e cumpridor das suas obrigações perante a Segurança Social.
Também pode sugar os lucros da sua empresa para comprar carro topo-gama e jipes aos filhos e mulher, comprar casa na praia e no campo, nunca comunicar ou conviver com os funcionários que, arrogantemente, considera meras fontes de fazer dinheiro, pagar-lhes o salário mínimo, quando até lhes podia pagar um pouco mais, sem prejuízo para a empresa e falcatruando os descontos para a Segurança Social.
Um presidente da Junta ou da Câmara pode ser uma pessoa próxima do seu povo, quer tenham sido eleitores ou não, pode ouvi-lo e envolver-se com sinceridade em todos os seus anseios e problemas, envolver-se e apoiar todas as realizações que vão concretizando, pode ser honesto na administração do dinheiro dos contribuintes e pô-lo ao serviço do bem estar dos mesmos, pode usar os empregos disponíveis para quem tiver apresentado as habilitações ideais para aquele cargo, mediante concurso e pode ter critérios iguais para todos os munícipes.
Também pode optar por tomar uma atitude disfarçadamente arrogante e prepotente, do “eu tenho o poder que vocês me deram, mas agora quem manda sou eu; os melhores cargos são para a minha família e amigos que eu possa manipular, quer tenham habilitações quer não; só estarei com os mais poderosos e influentes que me possam ser úteis; só me envolverei com realizações que me derem destaque e irei até às últimas consequências para não perder este pelouro, que me dá tanto poder e prestígio”.
O pior é quando tudo termina. O professor que respeitou o aluno e deu o melhor de si, tem o respeito, a consideração e a gratidão do aluno. Será sempre o Senhor Professor. O que não se envolveu é completamente ignorado no passeio, no café ou onde quer que se encontre.
O empresário que conhecia e estimava os seus funcionários viu-os, um dia, a darem o seu melhor para ajudar a erguer a empresa numa fase de crise, viu os funcionários a ensinarem os seus filhos a cumprimentá-lo e a considerarem-no por ter sido um bom patrão, viu a situação de segurança e conforto que os seus funcionários gozaram na reforma. Será sempre o Patrão. Mas aquele que sugou, aldrabou e prejudicou viu o “contentamento” nos ex-funcionários quando a empresa faliu, quando perdeu todo o património e nem uma reforma condigna recebe, por julgar que não precisava da Segurança Social.
O presidente da Junta ou da Câmara que foi próximo do povo e envolvido com o povo continua a merecer dele o mesmo respeito, a mesma consideração, será sempre o Sr. Presidente. O que usou o cargo para se servir e servir os seus “já lá o tem”, como dizia há dias um sábio velhote. Agora resta-lhe a indiferença, o afastamento, o esquecimento. As pessoas que, antes tanto o bajulavam, agora fazem de conta que nem o vêem.
E é tudo o que nos fica numa fase já por si de isolamento e solidão: respeito e consideração, aquele abraço e alegria por nos verem, porque fizemos toda a diferença nas suas vidas; ou o desprezo e a indiferença, porque, afinal, não temos o poder que julgávamos ter. O nosso poder é-nos dado pelos outros segundo o poder que lhes demos a eles.


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