ANTÓNIO ABRANTES *
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Nos últimos tempos tem-se falado muito em transparência das instituições ou falta dela.
No BES esconderam-se biliões de prejuízo. Na PT esconderam-se favores de milhões, inclusive entre administradores e, pior, escondeu-se do mercado. E a procissão ainda vai no adro…
Na sociedade portuguesa há um peco enorme das instituições quanto a transparência da sua atividade, em particular das suas contas.
Predomina uma mentalidade de que as contas, as verdadeiras, devem ser escondidas o mais possível, porque é preciso esconder do fisco, esconder de entidades públicas, esconder até dos sócios tanto quanto possível. Isso é visível até nas pequenas empresas, nas associações, nas cooperativas, nas fundações, etc.
É uma atitude muito generalizada mas muito má e lesiva dos interesses dos seus sócios, accionistas e até das próprias instituições e da sociedade em geral.
Uma empresa, uma associação, uma fundação ou cooperativa não existe para quem a dirige mas sim para os seus sócios e para a comunidade onde se insere. O gestor, o diretor, o administrador de uma organização deve sentir-se, não como um “dono disto tudo” mas como “um fiel depositário” (como diz G. Oliveira Martins) dos recursos do colectivo que deve administrar, defender e devolver (se for o caso) com o maior sentido de responsabilidade perante quem representa.
As empresas, tal como as associações, precisam de ser credíveis perante clientes, fornecedores, financiadores (bancos) e entidades públicas a quem muitas vezes recorrem pedindo subsídios e apoios.
Por tudo isto essas instituições têm toda a vantagem em ser transparentes, bem geridas e com contas claras e devidamente fiscalizadas e auditadas (por auditores/fiscalizadores verdadeiramente independentes). Quando um Conselho Fiscal é “nomeado” pela Administração, como acontece com uma Fundação da nossa praça (alvíssaras a quem descobrir) não é isso equivalente a pôr a raposa a guardar o galinheiro?
Só esconde quem tem telhados de vidro ou quem não está seguro da sua gestão, do seu trabalho.
Fazer contas direitas e publicitá-las, mesmo que por lei não seja obrigado, não é revelar segredos mas sim cumprir com o seu elementar dever de prestar contas (boas contas). Isso reforça as organizações e os laços destas com os seus mais diretos interessados.
Isso também é prática em empresas maiores, como dito acima, apesar das normas jurídicas que enchem os códigos civis, penais, comerciais, códigos de mercados, etc.
Em Portugal fala-se muito de que é o mercado que comanda as nossas vidas e dizem-nos que nada podemos fazer senão subjugar-nos a ele.
Mas são alguns desses mesmos que “endeusam” o mercado que mais escondem desse mesmo mercado, das autoridades e dos seus próprios associados ou accionistas más práticas, desvios e prejuízos.
Trata-se de um problema estrutural, talvez até cultural, para o qual o país precisa de acordar e encontrar antídotos para que recursos coletivos não sejam capturados e metidos ao bolso por poucos e para que a confiança entre as organizações e os seus mais diretos interessados e cidadãos não seja totalmente posta em causa.
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* Economista, professor aposentado do IPV


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