Cabazes eleitoralistas, cabazes solidários

LUZ CANÁRIO

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Até há um ano e meio atrás, quando eu dizia que nas cidades havia fome, e era preciso muita ajuda das Instituições, as pessoas das aldeias com quem convivo diziam-me que, naqueles meios, isso não acontecia. Todas tinham casa própria, animais de capoeira, algumas ovelhas, uma horta, algumas árvores onde realizavam dinheiro de vez em quando, apoio dos familiares e vizinhos, reformas sociais, reformas normais ou empregos.

Dois meses antes das últimas eleições começaram a ser distribuídos, “à socapa” e indiscriminadamente, cabazes repletos de alimentos por determinadas pessoas. Não tinha havido nenhum tipo de trabalho das técnicas sociais para saber se as pessoas precisavam ou não de ajuda. Havia que dar, e dar com tanta fartura que as pessoas nem conseguiam consumir tudo, e acabavam por distribuir por outros familiares. O importante é que votassem no candidato que permitia tal desbarato daquilo que pertence a todos. Sim, porque o que essas técnicas distribuem não é delas, é de todos os munícipes.
Como tal, hoje, que a situação já é vivida à descarada, todas as pessoas se sentem com direito aos cabazes alimentícios distribuídos pelas Instituições. E têm toda a razão.
Concordo plenamente que as Instituições ajudem as famílias em situação de risco. Mas, para isso, as técnicas sociais têm de sair dos seus gabinetes e ir ao terreno verificar a idade das pessoas, se há crianças, se há deficientes, se há desemprego, se há empréstimos da casa de habitação, se há falta de saúde, se há filhos ou não a apoiar os pais (eles são os primeiros responsáveis pelos seus progenitores) e uma infindável lista de requisitos para que se dê, temporariamente ou definitivamente, os apoios necessários às famílias. As técnicas têm muita responsabilidade nesta atribuição de ajudas, que não são delas, são de nós todos. Têm que ser isentas e muito boas profissionais.
Sei disto porque já estive à frente de uma Instituição que oferecia cabazes solidários pelo Natal, pela Páscoa e todos os meses, de acordo com as necessidades das famílias. E é preciso muito cuidado, porque encontramos muitas pessoas que passam mal, mas têm vergonha de pedir, e encontramos outras que, se puderem, não fazem nada e vivem à custa da boa-vontade dos outros.
Concordo que as pessoas que se sentem injustiçadas se manifestem nos locais próprios, para que alguém com responsabilidade ponha cobro a esta mendicidade, que em nada dignifica as Instituições, as técnicas e os municípios.
Sempre ouvi dizer que a melhor forma de se educar um povo é dar-lhe uma cana e ensiná-lo a pescar, não é pôr-lhe na mesa o peixe já pescado.
Quem precisa de apoios merece um pouco mais de respeito. E quem trabalha para ter o pão na mesa, muito mais ainda.

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