Carlos Peixeira Marques
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Parece que o líder do PS, em entrevista à RTP, terá enunciado o que poderei chamar as “estatísticas do retrocesso”. Segundo vejo na imprensa e nas páginas Twitter e Facebook de reconhecidos militantes socialistas, podem resumir-se a quatro indicadores: Riqueza produzida (10 anos); emprego (20 anos); investimento (30 anos); emigração (40 anos). Obviamente, todo este caminho de volta seria “resultado da ação deste Governo”.
É inegável que retrocedemos nestes indicadores. O que nem António Costa nem os seus camaradas explicam é quando e quanto esse retrocesso se verificou. O que aqui demonstro é que esse retrocesso se iniciou em 2009. Ou seja, começámos a andar para trás muito antes da austeridade, quando, pelo contrário, se pensava que se podia passar por cima da crise criando défices orçamentais históricos. Demonstro ainda que retrocedemos mais com os governos do PS em 2009-2011, do que com “este Governo”.
Riqueza produzida: utilizo o indicador Produto Interno Bruto per capita, a preços constantes. Em 2014, cada residente em Portugal produziu em média 16.400 euros, valor próximo de 2004. Estaria correcta a afirmação de que estamos ao nível de há 10 anos. O que falta dizer é que quando este Governo iniciou a governação o valor era 16.700, próximo de 2006. O valor mais alto (17.200) foi atingido em 2007/08.
Emprego: utilizo o indicador população empregada. Registou-se uma média anual de 4,5 milhões em 2014, valor próximo ao emprego de 1997. O recuo não é de 20 anos, mas quase. O que o PS não disse é que quando este Governo iniciou a governação havia 4,7 milhões de empregos, 100 mil a menos do que em 1998. Ficou famosa a promessa de Sócrates de criar 150 mil empregos, mas, se alinharmos na ideia de que a criação e a destruição de emprego se deve à acção governativa, então o saldo da era Sócrates é a destruição de 300 mil empregos.
Investimento: utilizo o indicador formação bruta de capital fixo a preços constantes, sendo 26,3 mil milhões de euros em 2014, um valor que fica entre os de 1989 e 1990. Cerca de 25 anos, portanto. O que faltou dizer foi que o investimento caiu consideravelmente de 2002 para 2003, manteve-se depois estável até 2008, sofreu um tombo em 2009 e foi decrescendo, de forma que, quando Sócrates saiu do Governo, estava a nível bastante inferior ao de 1997.
Emigração: não há dados fiáveis que permitam determinar o ponto de viragem da emigração, sabendo-se apenas que o grande salto de emigrantes permanentes se deu em 2008. Houve em 2013 (ainda não há dados para 2014) 12,3 emigrantes por mil habitantes, um valor que nos faz recuar não 40, mas quase 50 anos. Não muito diferente do legado de Sócrates, já que precisamos de ir até 1967 para encontrar valor superior aos 9,6 que nos deixou. De qualquer modo, não creio que faça sentido comparar a emigração actual no espaço Schengen com a emigração tradicional. É preciso ver que as taxas de emigração cresceram significativamente em toda a UE e que há vários parceiros mais ricos do que Portugal com taxas superiores à nossa.
Como já disse, desconheço dados sobre a emigração em 2014. Nos outros três indicadores, o que aconteceu em 2012 e 2013 foi a continuação de um movimento de “retrocesso” que se iniciou em 2009. Em todos eles se registou uma inversão de tendência em 2014.


Tudo isto é triste, tudo isto existe, tudo isto é fado! E o povo senhores! E o Povo!
Viva o pais dos Doutores, dos comentadores, dos discursos ocos, das frases feitas, da retórica engajada. Vivam os provocadores do bocejo e da náusea. Cansados estamos de tanta sabedoria!!!!