Desesperantes sondagens

Carlos Peixeira Marques

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Tem-se assistido com regularidade, nas campanhas eleitorais, à discussão generalizada sobre a (in)validade das sondagens de intenções de voto, recorrendo-se até a teorias de conspiração que envolvem manipulação dos métodos e/ ou dos resultados.

Creio que a popularidade e, em geral, a inutilidade da discussão resultam de, pelo menos, três factores:

  1. A esmagadora maioria dos eleitores (e dos “treinadores de bancada” envolvidos nas discussões) não sabe ler os resultados nem as fichas técnicas das sondagens.
  2. Os jornalistas estão sobretudo interessados em criar e cavalgar ondas noticiosas, utilizando as sondagens como origem de “factos” noticiosos.
  3. Os políticos usam as notícias sobre sondagens para apoiar os seus argumentos, mas também recorrem frequentemente à vitimização quando não lhes são favoráveis.

Sem título.JPGNão vou aqui explorar uma confusão que, felizmente, poucos fazem entre sondagens elaboradas por entidades acreditadas e meros inquéritos sem representatividade. A Lei n.º 10/2000 determina que os órgãos de comunicação social (OCS) que publiquem estes inquéritos não ‘científicos’ os acompanhem de uma “advertência expressa e claramente visível ou audível de que tais resultados não permitem, cientificamente, generalizações, representando, apenas, a opinião dos inquiridos”. Venho falar-vos de sondagens realizadas de acordo com “os códigos de conduta da profissão internacionalmente reconhecidos”. O motivo desta nota é uma desesperada e surpreendente publicação de Helena Roseta no facebook. Vi-a na cronologia de um amigo e a minha reacção imediata foi pensar que seria uma produção anónima que alguém atribuía a Roseta com o fito de a ridicularizar e descredibilizar. No entanto, fui confirmar e fiquei atónito – era a própria que se cobria de ridículo e descrédito!

Roseta leu a ficha técnica de uma sondagem do CESOP e não entendeu. O instituto escreve que a “taxa de resposta é estimada dividindo o número de inquéritos realizados pela soma das seguintes situações: inquéritos realizados; inquéritos incompletos; e recusas” e, não se sabe por que carga de água, a candidata do PS conclui daí que “as recusas contam como respostas válidas”, classificando o procedimento como “aldrabice”. Roseta possui um título de arquitecta, tem uma carreira política de 40 anos como deputada e autarca, mas não consegue perceber o que é uma taxa de resposta, uma operação aritmética simples? Ou não sabe ler português? O mais provável é que a sua capacidade de discernimento esteja seriamente diminuída pelo desespero em que alguns candidatos do PS se deixaram cair por causa, precisamente, das sondagens! E assim já não interessa o que está escrito na ficha técnica, muito menos os resultados – Roseta vê lá uma conspiração e é isso que (lhe) importa. É também significativo que, no momento em que escrevo este texto, a desesperada publicação tenha já 105 partilhas, das quais apenas uma – a minha – chamando a atenção para o seu erro. Para além disso, há já várias centenas de partilhas de uma imagem com o texto de Roseta, a via pela qual dele tive conhecimento. Não vou verificar todas essas publicações, mas admito que o tom seja o mesmo: uma combinação de ignorância, fé na autora e elevada propensão para acreditar em lendas envolvendo donzelas de esquerda e unicórnios.

Posto isto, há razão para o desespero da candidata? Bom, eu compreendo que aqueles que invocaram sondagens para legitimar a deposição do anterior secretário-geral se sintam desconfortáveis ao deparar-se com sondagens que sugerem a inutilidade da dissensão socialista. No entanto, não deve o PS baixar os braços nem pode a PàF deitar foguetes. Se Roseta tivesse tido vontade e discernimento para ler o que o CESOP escreveu sobre a sondagem em causa, teria lido que “a quantidade de indecisos é ainda muito grande, o que pode afetar negativamente a qualidade das estimativas” e teria verificado que, segundo os cálculos do CESOP, com 95% de confiança, a estimativa da intenção de voto era entre 35,9% e 44,1% para a PàF e entre 31% e 39% para o PS. Ou seja, utilizando a linguagem do CESOP, “não se pode dizer com segurança que se as eleições fossem hoje a coligação teria mais votos do que o PS”. Ainda hoje, depois da divulgação de sondagens da Aximage e Intercampus, para além do CESOP, com estimativas pontuais favoráveis à PàF, o agregador de sondagens popstar apresenta alguma sobreposição nos intervalos de confiança das estimativas para as duas principais forças políticas.

No entanto, há algo mais importante que os “treinadores de bancada” deviam ter em conta – há diferenças entre a intenção de voto que as sondagens actuais estimam e o comportamento de voto que só pode ser medido no dia 4 de Outubro. Para além da fraca consistência das atitudes que possam estar na base da intenção (provocada por descrédito ou cepticismo face às promessas; emoções negativas face a comportamentos passados ou riscos futuros; etc.), a intenção poderá não traduzir-se em comportamento se não houver a percepção de que o nosso voto pode mesmo ser fundamental, pode fazer a diferença. Como dizia o director da Eurosondagem, no rescaldo de umas eleições com uma enorme abstenção que afectou as estimativas, “as pessoas dizem que vão votar e depois não vão”. Quer isto dizer que é possível os resultados da eleição serem algo diferentes das sondagens de intenção, mesmo sendo estas realizadas de acordo com “os códigos de conduta da profissão internacionalmente reconhecidos” e sem qualquer tipo de “aldrabice” habitando os pesadelos de Helena Roseta.

 

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