É difícil ser-se Católico

LUZ CANÁRIO

Luz Canário.jpg.

Muitos católicos, sobretudo os que têm mais de 35, 40 anos, sentem-se muito confusos, desconfiados e descrentes  da Religião Católica. Mas quem tem a missão de dar catequese ou formação religiosa católica, a jovens ou adultos, tem uma verdadeira batalha de identidade e coerência.

Antes, quando as pessoas não iam estudar e o Senhor Padre era a pessoa mais culta da maior parte das zonas de Portugal, era muito fácil acreditar em tudo o que ele “pregava”,  e as regras eram todas muito bem definidas e defendidas:

– Se os bebés não fossem batizados e morressem, os pais, além de terem o desgosto de os perderem, eram ainda condenados a saber que os seus “anjos” iam para um Limbo; quem não fosse à missa todos os Domingos, cometia pecado mortal; quem não se confessasse periodicamente cometia pecado mortal; o casamento era indissolúvel; os divorciados eram quase excomungados, não podiam comungar nem exercer nenhum cargo nas suas paróquias, mesmo que não tivessem sido os culpados, e tivessem sido sempre um modelo de católicos; as crianças nascidas fora do casamento não tinham direito a batismo; o Papa era infalível, etc.

Hoje uma grande parte da população vai estudar, adquire  muitos conhecimentos, é  confrontada com outras religiões cristãs, interroga-se, questiona e já não aceita muitos dos princípios da Igreja Católica.

– Não vou focar assuntos que parecem estar mais afastados de nós como a pedofilia que grassa dentro da Igreja Católica, e que tantos fiéis tem afastado; os escândalos provocados pelo Instituto para as Obras de Religião (IOR), conhecido por banco do Vaticano,  com assassinos e suicidas suspeitos de alguns envolvidos nele; as lutas pelo poder no Vaticano entre a Opus DEI, Neocatecumenais e Jesuítas; e tantos outros que deixaram que o Vaticano, com os seus luxos  e corrupção, deixasse de ser o Santo do Sacrossanto.

– Foco apenas alguns problemas que existem à nossa volta, provocados pela dualidade de critérios, conforme o poder económico e social de cada crente; dualidade de critérios, conforme a formação de cada sacerdote; dualidade de critérios, conforme a cultura  e conhecimentos acerca da Doutrina de Cristo que cada fiel tem, etc.

– Há sacerdotes que batizam todas as crianças desde que os seus pais, ou a sua mãe, o peçam. Não querem saber se a criança é filha de pais divorciados, se é filha de pais solteiros ou  se é filha de pais casados. Outros só batizam as crianças que cumprem as normas consideradas “certinhas”.

– Há sacerdotes que aceitam que os divorciados comunguem e realizem missões dentro das suas paróquias, como bons cristãos que eram, ou em que se tornaram. Outros, simplesmente não os aceitam, têm de ficar no fundo da Igreja.

– Há sacerdotes que não põem qualquer obstáculo a que as pessoas escolhidas pelos pais das crianças possam ser os seus padrinhos. Outros não permitem que os divorciados, ou os que não têm o crisma, sejam padrinhos.

Muito escandalizado, um amigo disse-me, há tempos, que o padre o aconselhou a ir à Diocese anular o seu casamento pela Igreja, porque depois já podia voltar a casar  pela Igreja e ser padrinho. “Algum dia o meu casamento, celebrado com convicção, com amor e que gerou um filho, pode ser anulado?!”

– Penso que todos os Católicos rezam com convicção o Creio em Deus Pai, creio em Jesus Cristo, creio no Espírito Santo, mas que começam a duvidar  da Igreja una, santa, católica e apostólica! Existe uma confusão generalizada e desmotivante por tantas mudanças mal explicadas. O que era sagrado e sacramento está a deixar de ser (confissão, casamento…).

– As religiões não têm de ser estáticas, têm de evoluir, porque os nossos  conhecimentos vão aumentando e a nossa capacidade de entender, questionar e interpretar vai-se alargando.

Hoje sabemos que há diferenças entre a doutrina da Igreja Católica e a doutrina de Jesus. Na sua essência a Igreja Católica defende a Doutrina de Jesus Cristo, Aquele que nos ensina a ser misericordiosos e solidários com todos os irmãos, sobretudo os mais desvalidos da sociedade.  Mas, se há sacerdotes que são fiéis à Sua doutrina, são grandes pastores e têm o seu coração e a sua Casa abertos a TODAS as pessoas, há outros que se servem do seu poder para se servirem a si próprios.

– Aos que se sentirem muito confusos e desmotivados quero dizer que, mais importante que a doutrina pregada pela igreja, existe a doutrina de Jesus Cristo, e essa é imutável e o grande suporte de toda a convivência social e geradora de paz e harmonia. É extremamente simples e consiste  na incondicional no Amor do Pai por todas as pessoas e no respeito e solidariedade para com o nosso próximo.

 

2 Comments

  1. Caríssima Luz Canário

    Muitos parabéns pelo seu excecional texto, que vai ao encontro do que é essencial e que até mostra que muitas das consonâncias sempre apontadas como fulcrais são-no ao sabor de vontades incontroláveis. Em todo o caso, a confusão destes dias só deverá ser superada com obra social objetiva, muito para lá de ser operada no seio da Igreja e das suas estruturas. Foi assim que o meu netinho aprendeu a História da Igreja Católica e se tem deitado a colocar questões, procurando perceber o mundo e o que deve fazer perante o que vê. O exemplo de Jesus é incomensuravelmente superior aos resultados de uma estrutura que, pela sua organização, foi sempre plasticamente adaptada pela força dos acontecimentos históricos. Os meus parabéns sinceros.

    Hélio Bernardo Lopes

  2. Muito completo este texto….Eu,desde menino ,aprendi coisas onde no seu melhor,foi respeitar as pessoas,e nem sempre ia à missa ,porque o pai tinha trabalhos e era quem mandava.Todavia,fui-me vendo crescer,e tenho seguido sempre este caminho,muito embora,e como diz,depois te ter alguns conhecimentos,nem sempre estou conforme os procedimentos de quem domina a Igreja.Ora porque será ?Pois bem.,desde o tempo que estive a combater em Angola,e analisando o comportamento do então Capelão,fui notando algumas diferenças que não deviam acontecer,e ,francamente ,até me admirava como era possível…Mas ,era!
    Chegado ao continente,e em pleno tempo de estudos liceais ,fui vendo,e percebendo muitos factos que não deveriam existir na Igreja,e muito menos em Roma.
    Mas ,teria muito mais para dizer,porque ,tendo ficado viúvo muito novo,e querendo baptizar a filha que escapou no parto,cá na minha terra ,travei luta com o então Sacerdote ,pelas oposições a isso,fiquei muito triste com estes servidores,mas ,o acto foi consumado em Abril de 1972.Posto isto entrei numa fase de descrédito,só a tendo recomeçado depois do segundo casamento.Mas,nem tudo foram rosas,porque lá na cidade onde morava ,tive de frequentar várias Igrejas,pois de vez em quando lá surgia um Padre que não satisfazia o meu voto de fé.Felizmente,que de há anos a esta parte tenho encontrado pessoas decentes que estando ao altar sabem cumprir a sua obrigação,talvez,como aqui é dito,porque se vão convencendo que já não estão a pregar para incultos ,pois há muita gente que conhece tudo e muito mais…
    Com os meus parabéns,envio um grande abraço.
    Adelino Borges.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.


*


Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.