CARLOS PEIXEIRA MARQUES
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«O Orçamento do Estado para 2009 mantém a linha de rigor e responsabilidade na gestão das finanças públicas seguida ao longo da Legislatura, prevendo-se um défice de 2,2% do PIB para 2009. Apesar de o combate aos efeitos da crise implicarem medidas de apoio do Governo às empresas e às famílias mais desfavorecidas, este esforço adicional de despesa, incluindo a chamada despesa fiscal, é suportado num quadro de não agravamento do défice orçamental». Era desta forma que Teixeira dos Santos apresentava na AR o Orçamento para o ano eleitoral de 2009, em 6 de Novembro de 2008. Sabemos agora que o défice de 2009 viria a ser “apenas” de 8%. Qualquer cidadão atento aos “efeitos da crise” sabia que as receitas fiscais previstas pelo Governo eram completamente inatingíveis, mas o professor de Economia que detinha a pasta era capaz de prever um défice de 2,2% sem se rir.
Uma das emblemáticas medidas eleitoralistas desse orçamento foi o aumento de 2,9% dos salários dos funcionários públicos. Dizia o ministro que «o aumento dos salários da função pública claramente acima da inflação esperada e as medidas de alívio fiscal preconizadas aumentam o rendimento disponível das famílias portuguesas. E este é um contributo importante (…) para que o consumo cresça, ajudando a economia a crescer». Em 2009 o rendimento dos funcionários públicos pode ter aumentado, mas o rendimento disponível de todas as famílias diminuiu 0,5% e o PIB caíu 3%.
Ora, dois anos mais tarde (3 de Novembro de 2010) dizia o mesmo Ministro na AR: «Tendo em conta esta realidade incontornável, a garantia do regular financiamento da economia portuguesa, bem como a sustentabilidade das políticas sociais têm de assentar nas seguintes medidas: redução das despesas com pessoal, que envolve, nomeadamente, a redução das remunerações da Administração Pública, o congelamento de admissões, promoções, progressões e redução de contratados (…)». Em seguida o mesmo Ministro expôs os efeitos benéficos que a estratégia orçamental para 2011 iria trazer ao país – notem o grau de semelhança com os efeitos da governação de Passos Coelho, que muitos responsáveis do PS catalogam como “política de empobrecimento”: «Uma vez que as medidas de consolidação orçamental apostam na redução da despesa, espera-se que no curto prazo estas venham a ter um efeito negativo sobre a procura interna (…).a evolução [negativa] dos salários terá um forte impacto nas exportações, contribuindo para reduzir os custos salariais das empresas, mas também nas importações, pelo efeito de redução do consumo». O tom era oposto ao de 2008: «Recusamo-nos a iludir os portugueses alimentando a ideia de que podemos evitar sacrifícios. Não, a situação é delicada, exige sacrifícios e não podemos voltar as costas a este facto». Acrescentando: «dada a séria crise de financiamento com que nos confrontamos, a cura desta crise é algo que é amargo. É amargo! Tenho-o dito várias vezes e reconheci-o na minha intervenção. É preciso, de facto, tomar medidas exigentes, o que exige sacrifícios a todos nós. (…) Sem consolidação [orçamental] não há financiamento [ah, os malditos mercados!], sem financiamento não há actividade económica capaz de dinamizar o investimento, de dinamizar o emprego».
Fui ao baú recuperar estas intervenções de Teixeira dos Santos quando li que o futuro Ministro das Finanças decretou (via jornal espanhol!) que a austeridade acabou (eu sei, ele disse que depende do que se queira dizer com o termo austeridade, anunciando que só acaba a austeridade má, ficando a austeridade boa). Tal como Teixeira dos Santos sabia, em 2008, que o aumento real dos salários da função pública era um enorme risco para “a linha de rigor e responsabilidade na gestão das finanças públicas”, também Centeno sabe perfeitamente que a “reposição” dos salários que Teixeira começou a reduzir, ou o aumento do salário mínimo acima dos ganhos de produtividade, desafiam a redução do défice e do desemprego.
Centeno é um reputado técnico do Banco de Portugal, tendo publicado diversos estudos sobre a desigualdade de salários públicos e privados e sobre o desemprego, incluindo os efeitos do salário mínimo sobre o desemprego dos que o auferem. Aconselha o investigador Centeno que «os aumentos do salário mínimo deverão sempre ter em conta a evolução dos ganhos de produtividade e serem definidos no conjunto de políticas que interferem com o custo do trabalho [i.e.] que promovam a diminuição dos custos de trabalho, em particular quando associadas à atividade de criação de emprego das empresas». Aparentemente, o Ministro Centeno não se importará de mandar esse estudo para reciclagem.
Centeno é um dos economistas portugueses que melhor conhecem as comparações entre salários públicos e privados. Ele sabe que nas grelhas salariais mais baixas os funcionários públicos ganham muito mais do que os privados e que o inverso acontece em várias carreiras técnicas e dirigentes – as que sofrem mais competição do sector privado no mercado laboral. Ele sabe que o Tribunal Constitucional impediu a redução dos salários mais baixos, sacrificando os servidores públicos mais qualificados para conseguir a “redução das despesas com pessoal” já almejada por Teixeira dos Santos em apertos. Isso não o coíbe de, no tal jornal espanhol, culpar o Governo anterior por ter cortado de forma transversal, sem cuidar que os mais qualificados se pusessem a andar.
Esta maneira deliberadamente enviesada de contar a história aos espanhóis não é bom augúrio. Associo-a ao risco de Centeno esquecer o que estudou nos últimos 20 anos e permitir a Costa as barbaridades orçamentais que Teixeira permitiu a Sócrates. Obviamente, como português – e como funcionário público muito afectado pela redução remuneratória e pelo congelamento de progressões – espero que a coisa funcione! No entanto, se correr mal, Centeno está mais bem preparado do que Teixeira quando for preciso voltar a desiludir os portugueses sobre os sacrifícios – afinal, há notícias de que ele era mais troiquista do que a tróica quanto estivemos sob assistência financeira.


Quem disse isto, quando se começava a aplicar o último orçamento de Teixeira?
No Estado, há essa coisa extraordinária em que o prémio salarial é muito maior nos salários mais baixos do que nos mais altos. O Estado paga muito mais do que os privados às pessoas com menos qualificações e isto distorce tudo. Incluindo o próprio Estado, que não consegue atrair os bons quadros porque não lhes paga o suficiente, e não lhes paga o suficiente porque arrasta o peso daquela mole de pessoas não-qualificadas a quem paga acima do mercado. É impossível instalar uma fábrica no interior de Portugal com câmaras municipais que são as maiores empregadoras, com programas operacionais disto e daquilo, com subsídios de desemprego… Não há maneira de concorrer com isto.
O TC impediu que se corrigisse esta distorção. Agora que não se espera oposição do TC, Centeno tem o caminho livre para acabar com ela. Força!
P.S. Aconselho vivamente a leitura desta entrevista que Centeno deu quando Sócrates era primeiro-ministro. Serve para desmistificar a “narrativa” da política de empobrecimento atribuída a Passos Coelho.
Esta é a nova moda escreve um artigo e faz um comentário ao artigo que escreve, Mas se ele (Centeno) pensa como a direita a direita deve estar toda feliz não é assim? A coligação alargou-se!
Sr. José Fernandes:
Encontrei a entrevista após a publicação do artigo e achei bem acrescentar a informação. Se a tivesse visto antes, tê-la-ia citado no artigo.
No artigo não estou preocupado com o que a(s) direita(s) pensa(m). Não é muito relevante, no momento. O que é relevante é pensar o que se espera do Governo. Do Ministro das Finanças, já estou pronto para qualquer coisa. Penso que o meu artigo mostra que ele foi desonesto:
Esteve presente nas diversas negociações com a tróica. Sabia que era necessária a redução da massa salarial da Administração Pública, iniciada pelo Governo do PS com a justificação que se pode ler nas palavras de Teixeira dos Santos, acima reproduzidas. Sabe, como qualquer cidadão minimamente informado, que o TC não aceitou o alargamento do corte socrático aos salários abaixo de 1500€. Logo, é desonesto quando afirma que o Governo anterior, na redução salarial, não teve em conta “essa coisa extraordinária em que o prémio salarial é muito maior nos salários mais baixos do que nos mais altos”.